A ESTÓRIA contada em directo


Como é que lhe ocorreu a ideia do teletrabalho?

JACK NILLES - Por mero acaso. Quando eu era investigador na Aerospace Corporation aqui no Sul da Califórnia desenhando naves espaciais (risos) para o Departamento de Defesa e para a NASA, incumbiram-me, a dado passo, de ir ao terreno averiguar como poderíamos diversificar a nossa actividade para o sector «civil». Estávamos em 1971. Lancei-me à estrada e fui falar com diversas agências governamentais regionais e tentar perceber como as poderíamos ajudar. Numa ocasião eu fui a Santa Barbara falar com um dos homens do planeamento regional e ele atirou-me assim à cara: «Se vocês conseguem pôr o homem na Lua, porque é que não ajudam a resolver este maldito problema do trânsito? Porque é que não arranjam uma forma do pessoal ficar em casa a trabalhar em vez de se meter nestes engarrafamentos para chegar ao emprego?». Eu tinha ido de carro com a Laila, minha mulher, e os pais dela, e quando regressei ao carro disse-lhes eufórico: «Não vão acreditar. Este tipo deu-me uma ideia fenomenal. É tão simples e tão revolucionária que eu nem quero acreditar!». E começou a germinar na minha cabeça a frase de «trazer o trabalho para junto de si, pelo menos algumas vezes, em vez de o obrigar a ir ao encontro do emprego».

Isso era uma ideia aberrante! Estávamos em 1971, Jack! Hoje, quase 30 anos depois, ainda há gente com poder que acha isso meio louco e irresponsável! Não foi fácil, certamente, convencer os seus superiores a avançar com um projecto desses?

J.N. - Eu pedi a alguns colaboradores meus, engenheiros também, para averiguarem melhor a coisa. Eles vieram-me com a resposta de que havia uma série de questões «não-técnicas» que teriam de ser resolvidas, antes de tornar a coisa praticável. O problema não era tecnológico! Como eu era também o secretário do «comité» de investigação, tentei que nos patrocinassem as investigações preliminares. Mas quando disse ao meu chefe na Aerospace que teríamos de contratar um ou dois psicólogos, um economista e talvez alguns advogados, ele respondeu-me peremptório: «Jack, esqueça essa maluqueira. Somos engenheiros. Não vos quero ver envolvidos em semelhante coisa».

Mas como isso o tinha literalmente «possuído», não desistiu...

J.N. - Em total desespero falei com um amigo meu da Universidade do Sul da Califórnia, o Jack Munushian, a ver se era possível eles arrancarem lá na Universidade com um projecto. Ele disse-me com a maior naturalidade: «Porque é que não pegas nisso tu próprio? Porque é que não vens para cá e arrancas com isso?». Bom, depois de alguma negociação com o meu patrão, deixei a Aerospace em 1972 e «inventei» um novo cargo para mim lá na Universidade - Director de Desenvolvimento de Programas Interdisciplinares! Arranjei uma equipa de co-investigadores em 1973, indo buscar gente às faculdades de Engenharia, Gestão e Comunicações, e escrevi uma proposta que recebeu cerca de 90 mil dólares da Fundação Nacional para a Ciência (a conhecida entidade financiadora norte-americana, National Science Foundation). A designação era arrevesada: «Desenvolvimento de uma Política de relacionamento entre as telecomunicações e os transportes». O objectivo era testá-la numa empresa concreta, não em proveta na Universidade. E foi o que fizemos junto de uma seguradora. O relatório final foi publicado em 1974, e o livro («The Telecommunications-Transportation Tradeoff: Options for Tomorrow») que divulgou os resultados e a ideia da «telecomutação» apareceu em 1976 (e uma tradução em português logo no Brasil no ano seguinte, segundo creio). E logo a seguir a noção de «teletrabalho» para aplicações mais amplas. Os conceitos pegaram e o de «teletrabalho» globalizou-se, como agora se diz! (gargalhada)

Passados 25 anos sobre esse célebre Relatório de 1974, qual é o balanço no terreno que faz da aplicação do teletrabalho aqui na pioneira Califórnia?

J.N. - O número de teletrabalhadores na Califórnia não tem parado de crescer. São hoje provavelmente uns 3 milhões. Tanto quanto sei, este estado americano lidera ainda os Estados Unidos em termos de proporção de teletrabalhadores na população activa. É claro que, com todas estas empresas «hi-tech» ultra-dinâmicas, o teletrabalho é praticamente uma segunda identidade desta gente.

Outra iniciativa decorrente foi um Programa Federal de Flexibilização nos Estados Unidos, o Federal Flexi Programme. Qual é o ponto da situação?

J.N. - Continua em funcionamento, ainda que mais devagar do que o desejável. Serão 25 mil os funcionários públicos federais actualmente envolvidos. Por exemplo, os telecentros que então lançámos no distrito de Columbia, no estado de Washington (a norte da Califórnia), continuam abertos.

Página Anterior
Canal Temático
Topo da Página
Página Principal