Jack Nilles em Portugal - II


O apóstolo do teletrabalho


Foi uma das primeiras entrevistas que o «pai» do teletrabalho concedeu a meios de comunicação portugueses. A versão original foi publicada na revista EXAME EXECUTIVE DIGEST


Jorge Nascimento Rodrigues em Londres


Jack Nilles é um dos mais activos apóstolos do teletrabalho. A EXECUTIVE DIGEST encontrou-o em Londres, no intervalo entre a Conferência Europeia sobre Telecomunicações e o Ambiente em Frankfurt e uma agenda carregada na Telework UK’96 na capital britânica, nas vésperas de regressar a Los Angeles, onde está sediada a sua firma, JALA International.

O interesse crescente pelo teletrabalho já o trouxe a Portugal a convite da Telecom e em Londres reuniu, agora, com a Tracy Internacional, de Lisboa, com vista a integrar o projecto de promoção do teletrabalho em Portugal, que aquela firma em conjunto com a Telepac vão levar a cabo.

Nilles é físico de formação e começou como desenhador de veículos espaciais para a Força Aérea e a NASA. Inventou os conceitos de "teletrabalho" e "telecomutação" em 1973 (há mais de vinte anos) e iniciou uma investigação sobre a sua implementação prática a partir do Center for Futures Research na Universidade do Sul da Califórnia. Foi presidente do Telecommuting Advisory Council dos Estados Unidos e é hoje membro do grupo coordenador do Forum Europeu de Teletrabalho e Telemática, apoiado pela Comissão Europeia.

O seu mais recente livro, Making Telecommuting Happen - A Guide for Telemanagers and Telecommuters, editado pela Van Nostrand Reinhold, em 1994, tem tido uma procura crescente na Europa.


Que profissões pensa que poderão nascer ou renascer em virtude das oportunidades abertas ultimamente pelo teletrabalho?

JACK NILES - Há duas respostas à questão que me coloca. A primeira, tem a ver com as mudanças mais imediatas e que serão nas profissões já existentes, à medida que elas se forem adaptando ao teletrabalho.
Por exemplo, nos Estados Unidos, começa a haver um crescimento significativo do número de pequenas empresas, criadas por profissionais, que estão a oferecer os seus serviços através do teletrabalho a diversos clientes, em vez de a uma só empresa. Também, começa a suceder que um número crescente de pessoas está envolvido, por via do teletrabalho, em interacções com clientes e colegas em lugares distantes.
Segundo um estudo que fizemos nos EUA, específico para o caso da telecomutação [substituição por formas de trabalho à distância da deslocação para o escritório por automóvel], metade da população norte-americana que trabalha - ou seja 60 milhões - está em empregos que poderiam adoptar uma ou outra forma de teletrabalho. A segunda resposta é esta - a emergência de actividades intermediadas pelas telecomunicações está a gerar, de facto, a procura de novas profissões. Actividades que há dez anos atrás mal se imaginariam.

Como por exemplo?

J.N. - Posso dar-lhe não só um, mas vários exemplos, entre eles o primeiro que me ocorre é o dos «brokers» de teletrabalho, que actuam como agentes ou intermediários, ou mesmo como gestores de projecto, entre clientes e teletrabalhadores. Ou ainda, os especialistas em sinergias na rede, gente que consegue no meio do caos aparente da World Wide Web localizar e interconectar informação e relações para terceiros. E também os especialistas de multimedia, que polulam pelas pequenas «start up» em Los Angeles ou em Barcelona (no vosso vizinho), ou ainda operadores em telemedicina, que facilitam interacções remotas e consulta à distância entre médicos e doentes.
Em resumo, criam-se novas profissões onde quer que a tele-interactividade crie opotunidades para novas formas de fazer coisas. Mas, muitas das profissões que existirão daqui a 20 anos, estão ainda por inventar.

Mas quer adiantar três novas profissões que possam vir a surgir nos próximos quatro anos?

J.N. - Já mencionei uma delas, que hoje é ainda emergente - o caso dos «brokers» de teletrabalho. Há um caso no vosso país, o da Telemanutenção. Uma outra nasceu no ano passado ou talvez ainda mais recentemente - a de «webmaster», cujas conmpetências requerem uma combinação de tecnologia de telecomunicações, desenho gráfico e marketing.
A terceira é uma espécie de ciber-bibliotecário, cuja tarefa é procurar, compilar, colar e distribuir informação para uma dada comunidade local. Posso assegurar-lhe que esta função é vital para países em desenvolvimento. Depois, há o «gamemaster», mas, neste caso, especializado em jogos interactivos, ou uma espécie de «hiper-croupier» para quem goste dos jogos de fortuna e azar no ciberespaço. Se você conseguir imaginar um novo trabalho, ele pode muito bem existir dentro de poucos anos. Tente.

Há algum padrão de distribuição geográfica do teletrabalho nos Estados Undios que nos possa servir de indicador do comportamento desta nova forma de trabalhar?

J.N. - Ainda não existem estatísticas muito fiáveis sobre teletrabalho no meu país, mas as que há apontam para que a maior parte do teletrabalho se espalha pelas regiões costeiras ou perto das grandes cidades do interior, como Chicago. A área de Los Angeles, na costa californiana, onde eu, aliás, estou radicado, tem o dobro da média nacional de teletrabalhadores por 1000 habitantes.

Na Europa que países julga que terão mais "apetência" para o teletrabalho?

J.N. - Bom, no vosso continente ainda há menos estatísticas sobre o assunto. Mas pelo que eu tenho observado, poderei arriscar que o Reino Unido, a Suécia e a França são os três líderes na percentagem de teletrabalhadores na população activa - ainda que eu tenha ouvido frequentemente nos dois primeiros que eles "não são Europa" (risos).
Os três países têm uma herança forte de inovação social e tecnológica e promoveram o teletrabalho nos anos 80, e no caso do Reino Unido inclusive desde os anos 70. Direi que a apetência para o teletrabalho tem a ver com a filosofia reinante nas empresas e no meio ambiente nacional - se há sentido de responsabilização nos dois sentidos e se a formação adequada for dada, o teletrabalho singra.
Posso alvitrar esta "lei" - quanto mais estruturada e hierárquica for a organização típica no país, menos provável será o desenvolvimento com suceso do teletrabalho.

Como é que vê o impacto no desenvolvimento do teletrabalho da expansão da TV cabo e das fibras ópticas e da sua futura integração com a Internet?

J.N. - Tanto as fibras ópticas, como o cabo, estão a aumentar a largura de banda disponível para o envio de informação. É como passar de uma mangueirita de jardim para uma mangueirona de carro-de-bombeiros para esvaziar uma piscina. Mas estas tecnologias ainda estão longe para a maioria da população. Por isso, eu direi que a chave para incrementar o teletrabalho está noutro lado nos próximos anos, estará mais na capacidade dos «routers» e «servers» por onde passa o tráfego de mensagens na rede.

Toda a gente sabe que as formas actuais de teletrabalhar desagregam fortemente o ambiente familiar, com os pais com pouco tempo para os filhos e os casais com pouco tempo para eles próprios. Há alguma correlação estudada entre o teletrabalho e a estabilidade familiar?

J.N. - Não há também estatísticas de longo prazo sobre essa correlação. Mas os dados que tenho recolhido junto dos casos de teletrabalho e os próprios comentários que lhes ouço, indiciam que um dos efeitos secundários do teletrabalho é o aumento da estabilidade familiar. Mas é evidente que se uma dada família está a beira da dissolução, não é o teletrabalho que lhe vai valer - a meu ver até pode precipitar as coisas.

Em que medida é que o teletrabalho pode ser um meio de integração social de populações desfavorecidas ou em situações de isolamento muito especial, como os deficientes, os emigrantes, os refugiados, os presos e os trabalhadores em pré-reforma?

J.N. - Sem excepção, os deficientes - pelo menos nos projectos em que estou envolvido - acham que o teletrabalho é um forma de reduzir enormemente o «stress». Ele pode ser, de facto, uma arma de mobilidade para deficientes qualificados que, de outra forma, achariam muito caro ou mesmo impossível viajar diariamente para um dado emprego.
Mas, curiosamente - não sei se se passa isto também no vosso país -, muitas das organizações que dizem representar os deficientes nos EUA são contra o teletrabalho, porque afirmam que a integração física num dado local de trabalho é mais importante. Ora, talvez um sistema barato (e já os há) de teleconferência possa ajudar a simular essa integração.
No caso da pré-reforma, o teletrabalho tem sido, efectivamente, usado para ajudar as pessoas a adaptarem-se à futura nova situação, levando-os a trabalhar em part-time em casa. Também é verdade que nos EUA os prisioneiros têm trabalhado neste regime em certas actividades (como nos sistemas de reservas ou noutras actividades de processamento de dados), o que tem facilitado a sua preparação para a vida em sociedade.
Os emigrantes e refugiados colocam o mesmo tipo de problemas. Na Europa, este segmento da população tende a concentrar-se em subúrbios das grandes cidades, sem grandes infraestruturas e sem fácil acesso ao trabalho. (Deixe-me aqui fazer um parêntesis. Curiosamente, nos EUA é o contrário - as comunidades de emigração tendem a concentrar-se perto do centro das cidades.)
Há ideias, na Europa, de trazer o trabalho para ao pé desta gente em vez de esperar que os sistemas de transporte e a infraestrutura viária se engarrafem ainda mais - em Viena, de Áustria, há alguns testes neste sentido, mas tudo isso está ainda muito no domínio das promessas.

Pode adiantar-nos três requisitos fundamentais para se ser um teletrabalhador?

J.N. - Por ordem de importância:
1º - Você tem de ser um trabalhador da informação (ou seja, tem de ter um trabalho que lide sobretudo com informação) e a actividade que desenvolve tem de ser, pelo menos, parcialmente independente do sítio onde possa ser executada. Esta última parte é dura de roer para muita gente - você mesmo ou o seu patrão até pensam que para se executar um dado trabalho tem de se estar no mesmo sítio (da empresa) todo o tempo, mesmo, quando é mais do que óbvio, que não é preciso. O controlo presencial é uma doença. O hábito do escritório também, para muita gente;
2º - Você tem de saber como fazer o seu trabalho, como superar, sozinho, dificuldades e paragens, sem tem de estar a pedir a ajuda de outrém;
3º - Você tem de ser muito auto-disciplinado e concentrar-se em realizar e completar o trabalho que tem de ser feito. Note que não falei uma única vez de tecnologia do último grito. O «high-tech» não é necessário para certo tipo de teletrabalho.

Depois de Making Telecommuting Happen - A guide for telemanagers and telecommuters, o livro que escreveu há dois anos, que projectos tem em vista?

J.N. - Estou a pensar, pelo menos, em três novos livros. Um deles é meramente uma expansão desse que citou, acrescentando-lhe alguns detalhes e mais alguns testes e quadros do género "faça você mesmo", e provavelmente uma versão «on line» que possa ser actualizada frequentemente. Um outro será do mesmo género prático, focalizado em como administrar um programa de teletrabalho.
Estou, também, a considerar a hipótese de um outro sobre como operar um centro de teletrabalho. Mas, agora mesmo, estou a dedicar grande parte do meu tempo no que chamarei o meu projecto número quatro - o desenvolvimento de um modelo global de teletrabalho.
O objectivo é poder vir a conseguir-se no futuro projecções fiáveis sobre os impactos do teletrabalho em cada país. Isso incluirá as interacções entre o teletrabalho e a população, a economia, o comércio, a educação e os assuntos sociais.


A NÂO ESQUECER DE LER:

  • Regras de ouro do teletrabalho
  • Quatro cenários para o teletrablho
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