Inteligência nacional sai do país

Ruben Eiras lida com os 'Cérebros' que continuam em fuga

António Bandeiras é um reconhecido investigador em imunologia no Instituto Pasteur, em França. Licenciado em medicina pela Universidade de Lisboa, deixou Portugal há 18 anos por uma única razão: falta de condições de trabalho para desenvolver uma carreira profissional na área da investigação.

< No entanto, para Miguel Soares, instrutor no laboratório da Harvard Medical School, nos Estados Unidos, esse não foi o único motivo que o levou a sair do país. «O mercado de trabalho para os doutorados ainda é muito escasso e limitativo», explica.

Estes não são casos isolados. Como estes, existem muitos mais, com os mesmos contornos. Contornos de mais um paradoxo da realidade portuguesa.

Se é verdade que a «fuga de cérebros» não constitui no momento motivo de grande alarme (ver caixa), pode, porém, observar-se que Portugal, entre os países da União Europeia, ainda permanece como um dos «líderes» do fundo da tabela na área de Investigação e Desenvolvimento (I&D). Isto apesar do grande investimento realizado pelo Estado na última década neste sector. De acordo com os dados do Observatório da Ciência e Tecnologia (OCT), de 1970 a 1985 registou-se um valor acumulado de 1736 doutoramentos. Em 1997, este número elevou-se até aos 6527, o que representa um crescimento médio anual de 10%.

«Mesmo assim, quando comparamos o actual número de investigadores com a população activa, este é metade do que devia ser», assume Mariano Gago. No entanto, O OCT perspectiva que este ritmo de doutoramentos se mantenha durante a próxima década, atingindo então os níveis europeus.

Só que o tempo urge: a partir de 2006 termina o Fundo de Coesão para Portugal. E só agora é que o Governo lançou vários programas de formação de tecnólogos no estrangeiro, alargou o âmbito da cooperação científica a um maior leque de países e está a fomentar a inserção de investigadores no tecido empresarial, através do apoio à sua contratação.

«Estamos no bom caminho. As estatísticas mostram que nunca antes se registou em Portugal um nível de investimento e de crescimento tão imenso na área de I&D», refere Mariano Gago, ministro da Ciência e Tecnologia.

«O Governo pratica um discurso de acomodação», acusa José Tribolet, presidente do Instituto de Engenharia e Sistemas de Computadores (INESC). «A ciência e tecnologia não vive de estatísticas. Tem que ser provada no terreno, criando valor», acusa.

Com efeito, aqui a «bola» está do lado das empresas e o actual panorama não corresponde ao optimismo demonstrado pelo ministro. O tecido empresarial português ainda não despertou para a necessidade de recorrer aos conhecimentos desta mão-de-obra altamente qualificada, com a finalidade de aplicá-los na produção de bens e serviços e na inovação de produtos.

Por outro lado, uma grande parte da comunidade científica nacional continua arredada da realidade, porque a investigação não é orientada para a resolução de problemas que afectam o tecido económico e social do país.

Ainda assim, confrontado com esta realidade, Mariano Gago afirma convictamente que «ser investigador em Portugal já é uma carreira aliciante e com grandes oportunidades de desenvolvimento profissional».

José Tribolet, do INESC, discorda - «o nosso país não tem mais-valia para quem quer seguir uma carreira de investigação. Os jovens têm alternativa e usam-na. Só que o Governo não está sensibilizado para esta questão».

De acordo com aquele dirigente, embora exista mercado a nível nacional para a nova geração de investigadores portugueses, observa-se que as camadas mais dinâmicas e criativas continuam a sair do país para desenvolverem as suas carreiras.

Tudo leva a crer que tal atitude fica-se a dever ao facto de existirem oportunidades mais aliciantes tanto a nível de desenvolvimento profissional como remuneratório em outros pontos do globo, condições sine qua non para albergar a «massa cinzenta» de maior valor acrescentado. Assim, a fase de maior criatividade desta força de trabalho contribui para a criação de riqueza nos outros países.

Na opinião de José Tribolet, para Portugal recuperar o atraso, «é preciso ter visão e coragem política para desconstruir o sistema. Temos que estar organizados para produzir e libertos para criar».

Nesta perspectiva, o Governo deve apostar na criação de um maior número de sistemas integrados de universidades e empresas - como o Taguspark - e na concretização de projectos mais ambiciosos, com maior relevância e de acordo com a realidade sócio-económica do país.

Paralelamente, as outras «linhas de combate» são a reforma da política fiscal - de modo a incentivar a criação de novas empresas - e do enquadramento jurídico, político e administrativo das universidades, hoje um castrador da capacidade criativa destas instituições de produção de conhecimento.

Outra grande condicionante do desenvolvimento da I&D em Portugal é a Administração Pública. «Não há modernização do país sem modernização do sector público. Além disso, a política de investigação ainda continua muito centralizada», observa João Bilhim, docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.

De acordo com aquele especialista, é urgente incentivar a investigação aplicada à reestruturação da Administração Pública, de modo a desburocratizar o processo para os concursos e evitar a perda de muitas horas de trabalho na busca de financiamentos para os projectos de I&D. Além disso, aquele docente também aponta para o facto de não existir qualquer programa destinado a acolher os cientistas portugueses que queiram regressar com as suas famílias ao país, nem medidas concretas que levem a fixar investigadores estrangeiros em Portugal.

Em suma, os factos comprovam que, à beira do novo milénio, Portugal ainda não definiu uma estratégia de I&D clara, objectiva, séria e realista. Enquanto não for dado o salto qualitativo no sistema, Portugal como centro de «massa cinzenta» continuará a ser uma mera miragem política. O Governo tem de agir, mas, pelos vistos, parece que não sabe como o fazer.

EUA no Topo
De acordo com o «Anuário da Competitividade Mundial», realizado pelo International Institute for Management Development (IMD) - uma Business School da Suiça - , o país que apresenta a menor probabilidade de «fuga de cérebros» é os Estados Unidos. Melhores remunerações e condições de trabalho são as causas apontadas.
Este estudo anual tem como objectivo classificar a competitividade dos países segundo 288 critérios, tendo como base o inquérito realizado a 4160 executivos dos quatro cantos do planeta. O endereço no ciberespaço é www.imd.ch/wcy/wcy/wcy1999.html.
Os países em vias de desenvolvimento são os mais afectados por este fenómeno, devido à falta de condições de trabalho para esta força de trabalho altamente qualificada.
No entanto, o Chile possui uma maior probabilidade de fixação desta mão-de-obra face a outros países mais ricos. Neste grupo, o caso mais grave verifica-se na Suécia, devido aos altos impostos sobre o rendimento. No extremo da tabela, situa-se a Rússia, com a maior probabilidade de fuga de mão-de-obra altamente qualificada. Não é surpresa nenhuma, se tivermos em conta o turbilhão económico em que aquele país se encontra mergulhado. Quanto a Portugal, embora detenha uma boa posição na tabela, este facto não se traduz analogamente na sua competitividade a nível mundial. Neste estudo, está classificado em 28º lugar. Os melhores «cérebros» continuam a fugir...
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