Inofor lança estudo sectorial sobre o comércio e distribuição

Mais um deserto de formação

Um dos "pulmões" da economia portuguesa, o sector do comércio e distribuição, está ameaçado pela crónica doença da baixa qualificação que atinge a maioria da força de trabalho nacional. Para que o desenvolvimento deste segmento económico estratégico não se atrofie, a aposta passa pela inevitável formação e profissionalização dos empresários e dos trabalhadores. Os números divulgados no estudo sobre aquele sector elaborado pelo Instituto para a Inovação da Formação (Inofor) não deixam margem para dúvidas.

Análise de Ruben Eiras

Versão adaptada do Expresso

Factos e números | O site do Inofor

1. Se é verdade que mais de 40% do tecido empresarial nacional está concentrado no comércio e emprega mais de 820 mil pessoas - o que representa cerca de 13,9% do total do emprego português -, porém, apenas 7,6% da mão-de-obra no comércio por grosso e 2,7% no comércio a retalho possui formação superior. E perto de 27% dos trabalhadores do grosso e 28% do retalho não possui mais do que a 4ª classe.
O nível de habilitação dos empresários também não é melhor. De acordo com o estudo, cerca de 57% possui até seis anos de escolaridade e somente 9% detém licenciaturas e bacharelatos. Dentro dos segmentos da actividade comercial, é o ramo automóvel que lidera a tabela na debilidade de habilitações: perto de 70% dos empresários não vão além dos seis anos de escolaridade. Novamente, verifica-se no comércio por grosso uma menor debilidade nas habilitações, com 42,7% dos empresários possuindo o 9º ano e 10,9% formação superior.

2. A par deste deserto de qualificações, a dimensão das empresas é diminuta, o que revela a fragilidade do tecido comercial português: cerca de 95,5% das empresas empregam menos de 10 pessoas. Por outro lado, os dados da pesquisa demonstram que a precariedade laboral revela-se no grau de rotatividade, com mais de 54% dos trabalhadores do comércio grossista e 70% dos do retalho a permanecerem no máximo quatro anos na entidade empregadora.
Esta realidade advém dos baixos salários auferidos e da escassez de oportunidades de progressão na carreira, devido à reduzida dimensão das empresas e às expectativas da faixa etária dominante na força de trabalho, relativamente jovem (mais de 50% tem até 34 anos de idade). A mão-de-obra no comércio é feminina por excelência, já que totaliza 42%. Esta tendência verifica-se sobretudo no comércio a retalho, onde as mulheres constituem 62,9% da mão-de-obra.
Quanto à duração do trabalho, 93% da população empregada desenvolve actividade em regime de tempo completo, enquanto que em tempo parcial o valor não ultrapassa os 10%, tendo mais expressão no comércio retalhista.

3. A meio caminho da qualificação. Entretanto, o sector do comércio atravessa uma fase de profunda transformação dos processos de trabalho, devido ao aumento da exigência do consumidor e ao advento do comércio do electrónico.
Alguns dos sinais de mudança são a crescente preocupação pelo marketing como canal de conhecimento do cliente, o reforço da compra como acto lúdico, o aumento do comércio de marcas (especialmente através do regime de "franchising") e a expansão de supermercados de média dimensão e de grandes superfícies especializadas.
Por isso, aos poucos, segundo o estudo, as empresas que apostam na competitividade começam a recorrer a profissionais especializados e a uma gestão estratégica. Neste novo mercado de trabalho, o marketing assume-se como a principal ferramenta de negócio, fazendo emergir novas competências laborais.
Assim, os trabalhadores que ganham cada vez mais importância são os consultores especializados em comércio, como por exemplo, o responsável de marketing, o "merchandiser" e o "designer" comercial. A actividade destes profissionais centra-se no estudo e definição de estratégias comerciais, na detecção de oportunidades de negócio e de parceria e no desenvolvimento de projectos de associativismo e urbanismo comercial.
Em termos gerais, as suas funções baseiam-se no conhecimento do cliente e na segmentação do mercado. O objectivo é posicionar o negócio de modo a distingui-lo da concorrência, fidelizar o cliente e criar as condições de ambiente de loja e de exposição de produtos que convidem à compra. Outra das funções que sofre profundas alterações é a de compras. Os responsáveis por esta actividade comercial passam a tornar-se gestores de produto. Isto é, além de dominarem o produto e os fornecedores, agora têm que conhecer as tendências do mercado consumidor, exigir intervenções de marketing e acompanhamento do produto desde a sua produção até à fase de pós-venda.

4. No plano da formação, o estudo ressalva que se deverá centrar nas profissões emergentes do sector, que além das anteriormente referidas, encontram-se as de gestor de centro comercial, o responsável de logística, formadores e consultores de comércio.
Além disso, com o surgimento do comércio electrónico, deverão ser criados cursos que transmitam as competências de "e-marketing", "e-logística", "e-design" comercial e de consultoria deste novo modelo de negócio. Por sua vez, a formação dos empresários deverá incidir nos domínios do planeamento e gestão estratégica, das novas tecnologias, na melhoria do serviço ao cliente e de políticas sofisticadas de marketing e distribuição. As conclusões do estudo apontam para "uma formação que seja capaz de antecipar competências".
Mas o actual mercado não responde a estas necessidades de formação avançada. De acordo com o estudo, "muita da formação em comércio é ministrada por formadores não especializados na área" e cerca de três quartos dos 424 cursos tutelados pelo ministério da educação e do trabalho "são de formação inicial não especializada" e na formação contínua o peso da formação de base é elevado - 90%. O estudo também realça o facto da formação neste sector sofrer de "uma dependência excessiva dos fundos comunitários e dos constrangimentos burocráticos inerentes" e da ausência de acções formativas no posto de trabalho.

5. Em suma, o sector do comércio padece dos mesmos males que afectam o restante da economia e do mercado de trabalho nacionais e, ao que parece, da mesma inércia e falta de acção dos responsáveis governamentais, laborais e económicos. É que as soluções para os problemas já são por demais conhecidas e este estudo sectorial veio a confirmá-las mais uma vez.

Factos e números
  • O comércio emprega 13,9% da força de trabalho e representa 40% do total das empresas
  • Cerca de 95,5% das empresas emprega menos de 10 pessoas
  • Apenas 7,6% da mão-de-obra no comércio por grosso e 2,7% no comércio a retalho possui formação superior
  • Cerca de 57% dos empresários tem até seis anos de escolaridade e somente 9% detém licenciaturas e bacharelatos
  • Mais de 54% dos trabalhadores do comércio grossista e 70% dos do retalho permanecem no máximo quatro anos na entidade empregadora
  • Cerca de 42% da mão-de-obra no comércio é feminina
  • As profissões emergentes são as de gestor de centro comercial, responsável de logística, formador e consultor de comércio, responsável de marketing, "merchandiser" e "designer" comercial
  • Enquanto que o sector anseia por formação especializada, três quartos dos 424 cursos tutelados pelo ministério da Educação e do Trabalho são de formação inicial não especializada e na formação contínua o peso da formação de base é de 90%. Além disso, muita da formação em comércio é ministrada por formadores não especializados na área e depende excessivamente dos fundos comunitários
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