SELF-MADE MANAGER - II

Um grupo português no feminino

Uma professora de dactilografia que aos 25 anos descobriu uma oportunidade de negócio na formação técnico-profissional. Ao fim de 40 anos Consuelo Costa entrou em todos os graus de ensino e o grupo inspirado na tecla (da máquina de escrever) movimenta hoje 6 milhões de euros por ano. A gestão por objectivos sempre foi a "forma pragmática" de conduzir o negócio para esta "self-made manager" do Porto fundadora do grupo Tecla.

Jorge Nascimento Rodrigues (Porto, Maio 2002)

Self-made manager é uma colecção de "retratos" de gestores/empreendedores portugueses mensalmente publicados no semanário português Expresso

Caso anterior de self-made manager português:
António Rodrigues da Simoldes (Oliveira de Azemeis)

Sítios na Web do grupo:
Tecla-Formação Profissional | ISAG | ISAI

A vocação para a tecla - da máquina de escrever, há cinquenta anos atrás - começou cedo. Aos 14 anos, Consuelo Costa arranjou no Porto o primeiro emprego como dactilógrafa, na própria escola onde tirou um curso intensivo de profissionais de escritório. «No departamento de trabalhos dactilográficos da escola comecei por escrever teses paras os licenciados e cadernos de encargos. Mais tarde, viria a dar aulas de dactilografia nessa escola e a leccionar, já com o curso comercial tirado, noções de comércio e organização de arquivos e ficheiros», diz a nossa interlocutora, fundadora do grupo Tecla. Nascida em Badajoz, nos anos 30, é filha de um ferroviário português e de mãe espanhola que lhe deu o nome castelhano e o apelido de Ruiz

Da agilidade no dedo passou para formadora de profissionais da tecla, "mangas de alpaca" e "comerciais", actividades emergentes no pessoal de escritório nas empresas portuguesas dos anos 50 do século passado. «A minha filosofia era ajudar o aluno a ser um bom profissional», afirma Consuelo Costa, que adoptou esta postura natural como seu lema no exercício do professorado, que a levaria a perceber a oportunidade de um negócio privado no ensino técnico especializado e profissionalizante, então, também, emergente em torno das novas profissões baseadas em conhecimento "médio" para o "take off" do industrialismo moderno do Norte.

Empresária dos sete ofícios

Corria o mês de Maio de 1958, quando Consuelo Costa resolveu dar o seu grito do Ipiranga. «Alimentava o sonho de criar uma escola vocacionada para o ensino técnico com planos e programas adaptados às reais necessidades do mercado de trabalho de então», conta. Com uma estrutura financeira necessariamente precária, arrancou aos 25 anos, ainda solteira, com a Escola de Dactilografia Tecla, no Porto. Com esforço pessoal que a levou a ser uma espécie de «empresária dos sete ofícios» dentro da Escola - a poupança de custos levou-a a desempenhar várias funções "altas" e "baixas" na hierarquia de coisas que há para fazer numa escola -, viu a qualidade reconhecida com a primeira fornada de 200 alunos, que «levaram as empresas da região, depois, a solicitar a colaboração da Escola», recorda.

Consuelo Costa não largou mais o filão da formação. Ao longo das décadas foi subindo na "cadeia de valor" do ensino, começando por introduzir novos cursos nos anos 60 - secretariado, contabilidade, construção civil e línguas estrangeiras -, entrando na vaga da informática, da gestão e do marketing nos anos 70, e finalmente dando «o passo mais difícil e arriscado - a entrada no ensino superior em 1979», confessa. Apesar da dor de cabeça e de nervos que foi o longo período de espera pelas homologações das licenciaturas, Consuelo Costa lançou, com a ajuda de ex-professores da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, o ISAG-Instituto Superior de Administração e Gestão e o ISAL-Instituto Superior de Assistentes e Intérpretes.

Desde meados dos anos 60 que foi expandindo geograficamente o grupo de escolas, estando hoje em Braga, Barcelos, Guimarães, Leça da Palmeira, Viseu, Coimbra e Lisboa. Entretanto criou um Departamento especial para a formação empresarial, novas escolas profissionais e empresas de serviços especializados na área.

Gestão por objectivos

Afirma, com simplicidade, que aprendeu a gestão com «saber de experiência feito» e que aplica no dia-a-dia «métodos de gestão pragmáticos». Em suma, ao longo de 44 anos, criou um grupo no feminino a partir de regras intuitivas - como a gestão por objectivos, que brotava naturalmente do seu dinamismo e vontade de vencer - e de uma liderança forte e presencial que a torna, ainda hoje, a pessoa de referência para o corpo docente e para os alunos, como se se tratasse de «uma mãe adoptiva», sublinha com satisfação, à beira dos 70 anos.

A principal lição que tirou deste percurso de quase meio século é «de que não é possível, em caso algum, gerir sozinha», pelo que a sucessão "colectiva" da sua obra a preocupa. Conseguiu meter «o bichinho do ensino» nos seus dois filhos, que lideram os institutos de ensino superior que criou, chamou o apoio de gestores profissionais, e conta «envolver cada vez mais no negócio do grupo a sua equipa de directores».

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