James Galbraith, investigador na Universidade de Austin do Texas

«O pleno emprego não passa pelas TI»

O problema do desemprego europeu é político e o "fermento" do pleno emprego não reside no sector das tecnologias de informação, mas sim
nos sectores dos serviços sociais, da saúde e da educação. E para a União Europeia erradicar os desequilíbrios sociais entre os países e o desemprego crónico, tem que criar um sistema único de reformas e uma rede transnacional universitária. É um olhar americano sobre a actual situação laboral da Europa que Ruben Eiras captou numa entrevista
com James Galbraith, investigador sobre o trabalho e a desigualdade
na Universidade de Austin, no Texas, uma das mais prestigiadas
dos Estados Unidos.
James Galbraith é professor de economia e de outras disciplinas
na Lyndon B. Johnson School e no Departamento Governamental
da Universidade do Texas, de Austin. Doutorado em economia na universidade de Yale, ainda possui graus académicos das universidades de Harvard
e Cambridge. Já exerceu diversas funções directivas no Congresso
dos Estados Unidos e neste momento é director do projecto de investigação sobre a desigualdade da Universidade do Texas - o University of Texas Inequality Project. Vai lançar este ano um livro com investigações comparativas da relação entre a desigualdade e emprego
entre os países da UE.

Ruben Eiras com James Galbraith

Versão reduzida publicada no Expresso

 Um programa de pleno emprego para a Europa | O paradoxo português 

James Galbraith Qual é a principal razão do alto desemprego europeu?

JAMES GALBRAITH - É o resultado do falhanço da autoridades europeias em conseguirem com que a redução do desemprego seja a principal prioridade política. O Banco Central Europeu (BCE) não tem qualquer mandato para o pleno emprego e concentra-se em metas de criação ou manutenção de um certo valor para o Euro, ou em combater a inflação, que não é problema em nenhum país da Europa. Em contraste, a Reserva Federal - a instituição americana equivalente ao BCE - é responsável pela concretização do objectivo do pleno emprego. Os europeus têm que reconhecer que a estabilidade e robustez da moeda única europeia necessitam da criação de pleno emprego. Esta é uma política que deve ser perseguida por todos os orgãos governamentais da comunidade europeia. O problema é encontrar os meios pragmáticos para os concretizar.

Uma das ideias que defende é que a rigidez salarial não é uma das causas do desemprego europeu. Esta é uma posição completamente contrária àquela advogada por muitos parceiros sociais e governos da UE.

J.G. - O discurso convencional afirma que o único problema é que os trabalhadores europeus são teimosos e se recusam a aceitar cortes nos salários, privando os seus "irmãos" e "irmãs" de emprego. Esta é uma desculpa para a inacção dos governos. De acordo com investigações recentes que conduzi em alguns países europeus sobre medição da associação entre a flexibilidade salarial e o desemprego, os números mostram que a flexibilidade salarial está associada ao aumento e não à diminuição do desemprego. Isto porque a flexibilidade salarial aumenta a desigualdade remuneratória, e, segundo outras pesquisas que realizei, quanto maior o seu nível, mais elevado será o desemprego. É um ciclo vicioso.

Se não é a rigidez salarial o problema, então onde deverá a Europa agir?

J.G. - Vamos tomar como exemplo os EUA, que estão em pleno emprego nos últimos cinco anos. Como já disse, o problema do emprego só se resolve através dos meios políticos - através da intervenção directa do Estado, por aumento da despesa pública, ou por meio do apoio indirecto à despesa privada, para aumentar os empregos no sector dos serviços. Isto tornou-se possível devido ao longo período de baixas taxas de juro estáveis e da expansão do acesso ao crédito a todos os níveis - hipotecas, "leasings", empréstimos para a educação e assim por diante. No essencial, é este o método nos EUA. Assim, a Europa tem que aumentar a procura, através da melhoria das condições de acesso ao crédito, para possibilitar o crescimento do consumo das famílias e da sua vontade em investir em habitação e em outros bens duráveis. Por sua vez, esta medida irá desenvolver os sectores dos serviços sociais, da saúde e da educação, o que irá gerar muitos postos de trabalho.

Mas um pleno emprego assente no acesso ao crédito é uma situação sustentável?

J.G. - Realmente, existe a questão da sustentabilidade. Isso depende em parte da política conduzida pelas autoridades governamentais. Acho que o Governo terá que se envolver directamente se o emprego tiver que ser sustentado.

Portanto não se sabe o que vai acontecer ao pleno emprego americano a longo prazo...

J.G. - Exactamente. O feito do pleno emprego americano poderá desmoronar-se se a actual política de subida das taxas de juro continuar durante mais tempo . É um perigo muito sério. Não há justificação para esta política nos EUA, porque a economia não mostra sinais de sobreaquecimento.

Um dos argumentos muito utilizado pelos europeus é os Estados Unidos alcançaram o baixo desemprego através da criação dos "Mcjobs", isto é, de empregos precários. Confirma esta opinião?

J.G. - É um retrato enganoso do que se passou nos EUA. A impressão que se tem é que os Estados Unidos alcançaram o pleno emprego por criar empregos de baixa qualidade. A realidade é que agora estamos a melhorar a qualidade desses empregos e a sua remuneração. Desde 1996 que estes trabalhadores não só viram aliviada a sua carga fiscal, como também obtiveram os maiores aumentos de salários. Além disso, como o valor do salário mínimo cresceu e a qualidade desses empregos aumentou, reduziu-se o nível de rotatividade do trabalho, retendo assim a mão-de-obra e diminuindo a taxa de emprego. Equilibramos o mercado de trabalho. Também existem mais incentivos e programas especiais de crédito direccionados às classes baixas, aumentando assim a procura e o seu poder de compra. A desigualdade salarial e social nos EUA está a diminuir, e isto já é visível em algumas partes dos Estados Unidos.

E o sector das tecnologias de informação (TI)? Não é esta a principal força da Nova Economia e de criação de postos de trabalho?

J.G. - O sector das TI é importante, dado que contribui com 8% do emprego e 35% do crescimento dos EUA. Mas seria cauteloso em atribuí-lo como a força principal da Nova Economia. Não é a criação de postos de trabalho em TI que criou o pleno emprego nos EUA. É um fenómeno distinto. Será mais apropriado dizer que foi o crescimento muito mais forte da procura e do consumo das famílias nos EUA que criou os mercados para os PC's, os serviços Internet e os instrumentos electrónicos que os americanos estão a utilizar. Para empregar 35 milhões de europeus, as TI não são a única direcção. Há que apostar em outros sectores. É preciso ter em conta que, de acordo com a Comissão Europeia, enquanto existem cerca de 1,6 milhões de postos de trabalho por preencher na Europa na área das TI, há cerca de nove milhões de empregos por criar na área dos serviços sociais.

Em que medida é que os sectores da saúde e dos serviços sociais poderão dinamizar o mercado de trabalho?

J.G. - São sectores com muito potencial, especialmente na Europa, que está a ficar uma população mais idosa e com baixa renovação demográfica. A saúde cria empregos a muitos níveis, abrangendo desde a baixa qualificação até à mais elevada. Por exemplo, se não estou errado, existe uma grande necessidade de enfermeiros e médicos em Portugal. Devia-se criar centros de pesquisa médica e de investigação científica avançada, localizados nas regiões de baixo rendimento, para aumentar o seu desenvolvimento e atrair mão-de-obra altamente qualificada. Por outro lado, no caso das pessoas cujas competências no início não são muito elevadas, estas têm muitas oportunidades de trabalho na área dos serviços sociais que não exigem muitas qualificações - cuidar dos idosos, higiene, apoio a doentes, a incapacitados e assim por diante.

No entanto, os pensionistas dos países do sul da Europa, como Portugal, não possuem capacidade financeira para adquirir esses serviços...

J.G. - A UE tem que reformar profundamente a sua política social. Existe uma Europa única monetária, mas não há uma União Europeia das Pensões. É uma grande injustiça que a Europa possua uma economia de dimensão continental, e que, por exemplo, um reformado português tenha uma pensão segundo o nível português, e não ao nível de um alemão, que é substancialmente maior. E, todavia, o pensionista germânico pode vir para Portugal gozar a sua reforma muito mais confortavelmente do que os seus vizinhos portugueses. Isto não está certo. A reforma deverá ter um valor semelhante em todo o continente europeu. Não diminuiria a reforma dos alemães, mas aumentaria a dos portugueses.

Mas quem é que vai pagar por isso?

J.G. - Os recursos financeiros para suportar a população idosa seriam retirados dos desempregados dos países onde essas mesmas pessoas se encontram. Isto é, se os reformados tiverem mais dinheiro, vão ter mais poder de compra para adquirir serviços médicos e cuidados pessoais, que seriam providenciados pelos outros cidadãos, muitos dos quais estavam desempregados. Esta é a maneira como o sistema funciona. A UE devia usar o seu poder de organização para que a população idosa dos países de baixo rendimento da UE funcionasse como um pólo magnético de criação de emprego. Este seria um bom passo.

Mas a Europa é conhecida por possuir um sistema de saúde mais avançado que o americano…

J.G. - A Europa é melhor em termos de igualdade de acesso. Mas não tem um sistema de saúde na escala continental do EUA. Nós gastamos cerca de 13% do nosso PIB em saúde, o que é o dobro do gasto europeu. Se formos às cidades médias dos EUA, o que há mais em construção são hospitais. Estão em todo o lado.

E o sector da educação superior?

J.G. - Há muito por fazer nesta área na Europa. Cerca de 26% da população americana possui formação superior. Na Europa, o único país que se aproxima desse valor é a Holanda, com 23%, e em Portugal, este valor situa-se nos 6%. Quando se comparam os recursos disponíveis para os indivíduos na universidade, a diferença entre os EUA e o continente europeu é enorme. Enquanto que a universidade de Cambridge tem um orçamento de um bilião de libras, as universidades de Harvard, Yale e Austin, têm, cada uma, cerca de quatro biliões e meio. Ora, isto cria muitos postos de trabalho, tanto a nível da gestão e manutenção dos espaços universitários, como também na investigação e no ensino. Além disso, uma população que é substancialmente educada tem maior capacidade para contrair empréstimos e efectuar o seu pagamento.

Então, qual a solução para acabar com o subfinanciamento das universidades e criar mais postos de trabalho neste sector?

J.G. - Praticamente não existem universidades pan-Europeias e nenhuma à escala americana, por exemplo, com "campus" universitários de 50 mil estudantes. Assim, deveria criar-se uma rede de universidades europeias com esta dimensão, com cursos mais orientados para o negócio e de formação superior flexível, estrategicamente colocadas nas regiões de baixo rendimento, para aumentar a integração continental da Europa. Mas estas instituições internacionais não substituiriam as universidades nacionais. Pelo contrário, uma iniciativa europeia deste género não só iria pressionar os governos nacionais a financiarem devidamente as suas universidades, como também criar mais postos de trabalho e aumentar a qualificação da sua população activa.

Mas não isto não é uma contradição com a sua afirmação de que a melhoria das competências não cria empregos?

J.G. - Não estamos aqui a falar de competências específicas para o exercício de um posto de trabalho, onde a discussão na maior parte das vezes é focalizada. Estamos a falar da qualificação como meio de participação nos mecanismos da sociedade. Grande parte dos licenciados vão para postos de trabalho que não têm nada a ver com as suas qualificações. É esse o grande aspecto da qualificação nos EUA. É o mecanismo pelo qual as minorias étnicas e as classes baixas se tornam participantes legítimos na vida americana financeira e comercial, por ascensão social. É a plataforma para um emprego qualificado. As universidades devem proporcionar uma avenida de oportunidade para qualquer um.

Resumindo, o problema do desemprego europeu é de natureza política.

J.G. - Nem mais. Há falta de pragmatismo nos europeus. As instituições europeias têm dificuldade em sair da lógica nacional para a lógica continental. Enquanto não o fizerem, não haverá mudança e permanecerá a descoordenação de acções entre os países na área social e emprego. Sejam humildes e aprendam com os americanos.

Um programa de pleno emprego para a Europa
1. Taxas de juro mais baixas, com estabilidade permanente e promoção do uso de crédito a nível privado, empresarial e nos governos locais
2. Expandir o consumo de bens públicos junto da classe média, particularmente na saúde, serviços urbanos e educação
3. Criar novas universidades de grande escala nas regiões periféricas da Europa de baixo rendimento e um fundo de apoio financeiro especial aos estudantes universitários dessas universidades
4. Expandir os sistemas de segurança social dos países ricos da UE, e particularmente o nível do valor das reformas, aos países mais pobres da Europa, aumentando assim a procura e igualdade através da população mais idosa
5. Aumentar gradualmente os salários mínimos dos países mais pobres, e subsidiar a concretização de um salário mínimo único europeu nos países de baixo rendimento através de um programa semelhante ao existente nos EUA, o "Earned Income Tax Credit"

O paradoxo português
Em regra geral, os países mais pobres da Europa têm os rendimentos mais baixos, as maiores taxas de desemprego e maior desigualdade interna. Só que Portugal é uma excepção. Embora possua o salário mínimo mais baixo da UE, é um dos países com menor taxa de desemprego e nível de desigualdade. A explicação avançada por James Galbraith centra-se na baixa qualidade do tecido industrial português e na falta de emprego qualificado.
De acordo com aquele investigador, Portugal possui a indústria de manufacturas mais especializada da Europa, sendo a maioria de baixos salários - processamento alimentar, têxteis, peles e vidreira. Em resultado, Portugal têm um dos PIB per capita mais baixos da Europa. Contudo, na década de 90, a diferença média entre os salários nestas indústrias e o PIB per capita é um dos menores da Europa, o que dá origem aos baixos valores de desemprego e desigualdade "internos", realça James Galbraith. "As pessoas em Portugal não acham vantajoso em competir pelos empregos disponíveis na indústria manufactureira nacional. Se quiserem rendimentos mais elevados, terão que sair do país, como muitos fazem. A emigração emerge como a solução para as aspirações frustradas. Assim, o desemprego 'sai' do país", explica.
Todavia, James Galbraith é de opinião que Portugal é um bom caso de política activa europeia que produz bons resultados de emprego. "Isto vem provar que essas políticas têm que ser perseguidas numa escala maior. A UE deveria expandir o investimento nas regiões de baixo rendimento do Continente", remata.
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