Desajustamento entre escola e trabalho agrava-se

50% dos portugueses sem educação adequada
ao emprego

Metade dos trabalhadores portugueses não possui qualificações adequadas ao posto de trabalho que ocupam. Esta é uma das conclusões da investigação «Qualificações requeridas e frequência educacional em Portugal, 1985-1997» elaborada por Maria Clementina Santos, docente na Faculdade de Economia do Porto e Mendes de Oliveira, no Instituto das Ciências do Trabalho e da Empresa, a qual foi apresentada na conferência «Desenvolvimento Económico Português no Espaço Europeu: Determinantes e Políticas», que decorreu nos dias 24 e 25 de Maio, na Fundação Calouste Gulbenkian, organizada pelo Banco de Portugal.

Análise por Ruben Eiras

Artigo publicado no Expresso Emprego

O site do IZA | O site da conferência do Banco de Portugal

Em comparação com os empregados portugueses que desempenham uma função adequada ao seu nível educacional, um em cada dois trabalhadores nacionais possui educação em excesso ou em menor grau à requerida em postos de trabalho semelhantes.

Para efectuar esta análise, os investigadores Maria Clementina Santos e Mendes de Oliveira recorreram a amostras aleatórias de 80.000 trabalhadores extraídas dos Quadros de Pessoal de 1985, 1991 e 1997. Estes foram agrupados segundo a profissão, sendo classificados como sobre-educados os empregados cujo nível mais elevado de habilitações completas era superior ao nível médio na actividade profissional e sub-educados os que revelaram possuir uma educação inferior à mais frequente entre os seus colegas de trabalho.

Os resultados obtidos pelos cálculos daqueles dois investigadores não deixam dúvidas quanto ao agravamento do fosso de qualificações do mercado de trabalho português, em muito devido à inexistência de um sistema de ensino técnico alternativo ao universitário e ao sistemático fracasso das políticas de formação perpetradas pelos governos do PS e do PSD ao longo dos últimos 16 anos. Os números falam por si. Em 1997, cerca de 50% dos trabalhadores detinham qualificações diferentes das que são mais comuns na sua profissão. Nesta categoria de medição, os investigadores calcularam que um terço possui habilitações superiores às mais usuais na sua função e um sexto situa-se no extremo oposto desta situação.

O progresso da sobre-educação não tem sido acompanhado por uma diminuição proporcional da sub-educação. Entre 1985 e 1997, a sobre-educação duplicou, enquanto que a sub-educação apenas registou uma diminuição modesta.

Em 1985, o nível médio de sobre-educação era de 17,5% e em 1997 cresceu para 34%. Quanto à sub-educação, no ano anterior à adesão de Portugal à então CEE, a percentagem ficava-se pelos 20%.

Doze anos volvidos, esta só diminuiu pouco mais de três pontos percentuais, situando-se nos 16,5%. A situação anormal da força de trabalho portuguesa ainda fica mais visível quando se têm em conta o quadro da UE nesta realidade. Com efeito, o valor médio europeu para a sobre-educação situa-se nos 21,5% e em 13,9% para a sub-qualificação.

A explicação avançada no estudo para o crescendo desta clivagem qualificacional é que à medida que as gerações jovens mais escolarizadas vão entrando no mercado de trabalho, acrescentam-se a uma força de trabalho com habilitações muito baixas, o que faz elevar a sobre-educação.

Isto é corroborado pelos cálculos, os quais indicam, nos últimos anos, uma taxa de incidência de sobre-educação de 73% entre trabalhadores do sexo masculino e de 65% no feminino com menos de cinco anos de presença no mercado de trabalho, ocupando empregos para os quais as suas qualificações educacionais são mais elevadas do que as dos seus companheiros de profissão.

Um mercado bloqueado

Por sua vez, fruto da escolaridade obrigatória até ao 9º ano, os cálculos revelam que apenas 2% dos extreantes no mercado de trabalho possuem um nível educacional menor do que o considerado normal nos seus empregos.

Além disso, o estudo desvela o cepticismo dos autores quanto à capacidade da economia nacional no período pós-adesão à UE para absorver contingentes humanos mais qualificados que o sistema escolar lança todos os anos no mercado.

Isto porque, ao correlacionar a idade dos trabalhadores sobre-educados, adequadamente educados e sub-educados com os anos de experiência profissional, os investigadores verificaram que a taxa de incidência de sobre-educação na mão-de-obra aumentou de 1985 a 1997 para todos os níveis de experiência laboral.

«Estes números mostram, sem quaisquer dúvidas, que os trabalhadores mais novos têm sido incapazes de encontrar empregos em que as suas qualificações educacionais sejam plenamente utilizadas», afirmam no estudo.

A razão deste fenómeno radica na baixa criação de emprego qualificado devido ao falhanço da renovação do tecido empresarial português para actividades de maior valor acrescentado. «Mais do que criar novas profissões e modificar o padrão de emprego existente, a modernização da economia portuguesa limitou-se a acomodar passivamente um reforço das qualificações escolares dos trabalhadores, no quadro de uma estrutura produtiva estática», reforçam.

O impacto na produtividade

Mas nem tudo vai mal nas relações entre a escola e o trabalho. A pesquisa constata que o investimento em educação ainda é rentável em termos salariais em Portugal. Os dados de 1997 revelam que o retorno é de 7,4% para cada ano de escolaridade adicional completada.

Para trabalhadores sobre-qualificados, cada ano de escolaridade adicional acima da requerida obtêm um prémio salarial de 3% a 5%. Por outro lado, os empregados com habilitações inferiores ao nível médio da sua profissão sofrem uma penalização remuneratória por cada ano de educação deficitária, valor que aumentou para a ordem dos 6% a 7% em 1997.

Os resultados do estudo mostram que os prémios e as penalizações salariais crescem com a antiguidade dos trabalhadores na empresa. Os investigadores interpretam este comportamento do mercado como "sinal de que a sobre-educação é valorizada pelos empregadores, enquanto que os trabalhadores sub-educados assistem a uma deterioração progressiva do seu estatuto relativo".

Embora sem apresentar números concretos, dado o estudo estar ainda em progresso, os investigadores sublinham que este desajustamento entre qualificações escolares e as requeridas pelos postos de trabalho é uma fonte de grave perda de produtividade e rendimento para a economia.

«Uma fracção dos trabalhadores portugueses produziria mais e teria rendimentos maiores se pudesse encontrar emprego em que as suas habilitações fossem mais amplamente utilizadas. No outro extremo, o dos trabalhadores sub-qualificados, a melhoria das habilitações detidas permitiria uma elevação significativa da sua produtividade e rendimento», rematam.

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