Falta cabeça-de-obra em Portugal

O nosso país é vítima de um paradoxo que ataca a competitividade das empresas e a produtividade dos trabalhadores. O problema é particularmente sentido pelas PME em todos os sectores de actividade e pelo investimento directo estrangeiro. O mercado de trabalho revela uma ferida aberta há algumas décadas em que se degladiam dois extremos - um excesso de "canudos" dados pelo Ensino Superior em áreas sem saídas profissionais e sem emprego qualificado e uma reserva de mão-de-obra à saída do Ensino Secundário sem qualificações empurrada pela necessidade de ter rendimentos precoces em trabalho precário.

Jorge Nascimento Rodrigues e Ruben Eiras

Artigo publicado no semanário português Expresso no caderno Emprego em 9/03/2002

Mesa Redonda organizada na Anetie

Entre os dois pólos do paradoxo, há um crescente vazio, que provoca a chamada escassez de profissionais qualificados, de técnicos e de quadros médios. «Falta cabeça-de-obra e não mão-de-obra», diz Braz Costa, presidente da Associação para a Formação Tecnológica e Profissional da Beira Interior (AFTEBI) e director-geral do CITEVE, o centro tecnológico para o têxtil e vestuário localizado no Vale do Ave. No que é secundado por Simão Portugal, da direcção da ANFEI, que sublinha o absurdo: «A percentagem de quadros médios na população activa portuguesa - de 2,1% - é inferior à de quadros superiores - de 3,3% - segundo um estudo recente». O país necessita de várias dezenas de milhar de quadros médios e profissionais especializados por ano...e a rede de Escolas Tecnológicas a funcionar só fornece, até à data, 1500 por ano!

Revolução cultural

Para perceber este "défice", realizámos uma mesa redonda na Associação Nacional de Empresas de Tecnologias de Informação e Electrónica (ANETIE) com seis das 10 Escolas Tecnológicas criadas em todo o país desde final dos anos 80 por entidades privadas, nomeadamente associações empresariais e empresas, com o apoio do Ministério da Economia. Um dos motores do défice é a falta de candidatos, queixam-se as escolas, que poderiam, facilmente, duplicar a sua "produção" anual. «Há um problema cultural no nosso país e nas famílias. O que conta é ter um diploma do ensino superior. Não uma competência e a possibilidade real de uma carreira profissional», lamenta Francisco Xavier Malcata, da direcção da Escola de Tecnologia e Gestão Industrial ligada à Associação para a Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica, no Porto. É preciso "uma revolução cultural", acentua Teolinda Portela, presidente da Forino, Associação para a Escola de Novas Tecnologias, a funcionar no Parque Tecnológico de Lisboa e com pólos em Seia e Lousã muito direccionados às tecnologias de informação e energia. «É indispensável redesenhar a imagem que os jovens têm destas profissões e do ensino técnico. Continua a perdurar nas famílias uma imagem de há 15 ou 20 anos atrás. Por isso há uma fuga para a frente para o Ensino Superior. A formação de quadros médios e de técnicos especializados acaba por ser residual», acrescenta.

PORTAL a 12 de Março (2002)
Visitar em www.portugalhightech.com/et

N-et é a marca que a Rede nacional de Escolas Tecnológicas vai usar na Web a partir de 12 de Março de 2002 quando lançar oficialmente em Lisboa, no INETI, o seu portal. Trata-se de uma iniciativa das 10 Escolas Tecnológicas do país ligadas ao Ministério da Economia, que permitirá a esta rede ganhar mais visibilidade junto dos seus públicos principais, os jovens à saída do ensino secundário, os activos necessitando de especialização tecnológica e as próprias famílias preocupadas com as saídas profissionais e as competências dos seus filhos.
Patrocinado pelo Programa Operacional da Economia e pelo Fundo Social Europeu, o projecto permite aos utilizadores a "descoberta" da oferta desta rede através de duas portas de entrada - a das áreas de formação e a pesquisa por região geográfica de implantação dos 17 pólos e escolas existentes, direccionando o utilizador para os respectivos sítios na Web. As áreas de formação estão elencadas por nove canais - ciências empresariais, design, electrónica e automação, engenharia química, indústria alimentar, indústria têxtil, indústria transformadora, metalurgia e metalomecânica, e protecção do ambiente.

Mobilidade ascendente

O que requer "um marketing social muito agressivo" por parte desta rede de Escolas Tecnológicas, acentua Susana Moura, directora-executiva da Associação para a Formação Tecnológica de Engenharia Mecânica e Materiais (AFTEM) que têm escolas em Ermesinde e no Parque Tecnológico de Lisboa dirigidas ao sector da metalurgia e metalomecânica. Esta estratégia vai passar por um Portal na Web e por acções no terreno que se poderão inspirar em "road shows" já experimentados com êxito junto da população escolar do secundário.

«É preciso dar visibilidade e motivar os candidatos para as vantagens deste ensino - ele garante qualidade de emprego não precário, uma empregabilidade quase a 100% à saída da formação e condições de progressão na carreira e de mobilidade ascendente», refere, por seu lado, Maria Teresa Coelho, quadro do INETI e da direcção da ESTER ligada ao sector das rochas ornamentais no Alentejo. Braz Costa ironiza mesmo com um caso: "Há tintureiros a ganhar mais do que doutores e engenheiros". Simão Portugal acrescenta: «Alguns formandos nossos passaram até a gestores de multinacionais, porque dispõem de competências tecnológicas e dirigidas ao terreno que muitos licenciados não adquiriram no ensino formal».

O que significa que a classe média portuguesa - a maioria da população - tem de ser sensibilizada para a mais valia real destas profissões e destas carreiras que se inserem no segmento emergente dos "tecnólogos", designação criada por Peter Drucker (ver mais abaixo).

A empregabilidade e a qualidade produtiva destes formandos é confirmada por José Martinho, secretário-geral da ANETIE, associação que tem desenvolvido um protocolo com a Forino para o fornecimento de estágios nas 120 empresas suas associadas do sector das tecnologias de informação e electrónica, que só no ano passado tinha um défice de 1500 quadros técnicos. Consoante os sectores, os formandos ingressam depois nos quadros das empresas onde estagiaram entre 30 a 80% dos casos, trazendo uma continuidade estrategicamente importante. «São profissionais sempre de alta qualidade», remata José Martinho.

Nuvens no longo prazo

Apesar da missão crítica que desempenha, esta rede de Escolas Tecnológicas pode enfrentar algumas nuvens no longo prazo. Por um lado, a partir da rede de sinergias que está a construir internamente, virá a desenvolver-se uma "especialização" maior e uma crescente entreajuda e cruzamento de competências. Por outro, é indispensável "estabilizar" este sistema de ensino ligado ao Ministério da Economia no médio e longo prazo, articulando-o adequadamente ao Ensino Superior e Politécnico e ao Sistema de Formação Profissional. «O nosso modelo está demonstrado. Não vale a pena inventar a roda se se quiser estender o ensino tecnológico. Ele pode ser adaptado para outras áreas», conclui Maria Teresa Coelha, da ESTER.

OS TECNÓLOGOS DE DRUCKER
Há ainda quem continue a olhar os "quadros intermédios" do tecido económico, e em particular industrial, pelas lentes de há várias décadas atrás. O contexto actual é radicalmente diferente do capitalismo industrial. O caminho não é o regresso aos técnicos e especialistas que foram, ao longo de décadas, fabricados pelas escolas industriais e comerciais de antes do 25 de Abril em Portugal. O profissional "intermédio" emergente desde o "take off" da Terceira Vaga foi baptizado por Peter Drucker, o mais importante autor de gestão ainda vivo, de "tecnólogos do conhecimento". Tratam-se de quadros e profissionais com competências e funções "mistas", como sublinha Drucker - tanto manuais como utilizadoras de saber formal. O próprio trabalho manual que seja requerido no terreno fabril ou na frente junto ao cliente é baseado no conhecimento "que tem de ser adquirido através de educação ao longo da vida". São, por isso, uma componente da classe social mais vasta dos "trabalhadores do conhecimento", como os designa o "pai" da gestão. A sua formação "técnica", a aquisição de competências operacionais especializadas, não pode ser, por isso, desligada deste aspecto central - a capacidade autónoma de aplicar e aprender conhecimento, apesar de não terem "canudos" dados pelo Ensino Superior. A sua mais valia e reconhecimento social está também em ascensão nos países mais desenvolvidos. Os tecnólogos serão provavelmente o segmento social majoritário na população empregada nas sociedades do século XXI e o futuro pilar central da classe média, a acreditar no "Survey" publicado por Peter Drucker na revista The Economist (de 3 de Novembro de 2001), a que já nos referimos. Das suas fileiras estão a nascer, também, muitos empreendedores criadores de "start-ups", com particular importância na criação local de emprego e de negócios.
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