Workshop eWork 2000

Teletrabalho: a hora da consolidação

por Ruben Eiras

Passada a euforia sobre a novidade do trabalho via electrónica - designado anteriormente por teletrabalho e agora por "eWork" -, esta nova forma de laborar tenta iniciar uma fase de consolidação, acentuar a sua imagem de qualidade de vida para o trabalhador e reforçar as suas capacidades de integração sócio-profissional das pessoas com deficiência.

Foi este o retrato que ficou do "Workshop eWork 2000 - A Integração no Mercado de Trabalho da Nova Economia", realizado pela Associação Para o Desenvolvimento do Teletrabalho (APDT) no auditório da TMN, em Lisboa, no passado dia 2 de Novembro e que esteve integrado na iniciativa europeia "eWeek".

Uma das questões mais debatidas naquele certame foi a nova configuração imobiliária que o teletrabalho exige. É que apesar do "e-trabalho" reduzir o número de deslocações de casa para o trabalho - o que é um ponto muito positivo para as grandes cidades -, é indispensável que a casa da pessoa possua as condições necessárias para trabalhar. De acordo com os números apresentados por Cristina Gomes, arquitecta da Universidade de Salford e uma das oradoras no evento, as casas lisboetas estão longe de ser o local ideal para a actividade laboral. Senão vejamos.

Cerca de 68% dos habitantes de Lisboa vive em apartamentos, com uma média de três quartos por casa, uma área de 70 m2 e 3,1 moradores. Resultado final: a maioria não tem espaço para trabalhar em casa. «Os arquitectos ainda não estão consciencializados destas novas necessidades e por isso não são projectadas adaptações e soluções para criarem nas casas as condições para o exercício do teletrabalho», observa Cristina Gomes.

Para inverter a situação, uma das soluções preconizadas por aquela especialista prende-se com a ergonomia e flexibilidade do mobiliário de casa, de modo a permitir diversas utilizações e configurações à mesma peça. Outra via será a criação de telecentros nas periferias urbanas, medida que não só ajudaria a colmatar as lacunas de condições das habitações, como também evitaria o isolamento social do "e-trabalhador".

No plano das integração no mercado de emprego das pessoas com deficiência, Clara Cidade, da PT Comunicações, sublinha que como o nicho de mercado do "e-trabalho" ainda se encontra num estado emergente, «há que aproveitar o momento para conquistar espaço e apoio através da sensibilização da sensiblização da sociedade e do Estado». Para tal, aquela responsável advoga a criação de centros de recursos tecnológicos de apoio à utilização das tecnologias de informação para as pessoas com necessidades especiais. »Estes deverão ser financeiramente suportados com dinheiros públicos, mas com gestão privada para assegurar a celeridade dos processos», propõe Clara Cidade. Segundo aquela responsável, isto seria realizado através de acordos estabelecidos com as associações de deficientes de forma a responder directamente às reais necessidades do mercado.

Um dos testemunhos no evento de "e-trabalhadores" com necessidades especiais foi o caso de Rui Almeida, invisual e que trabalha como assessor do Ministério do Equipamento Social, onde ajudou a conceber a página especial para cegos do referido orgão governamental. «A tecnologia torna possível que a nossa vida tenha qualidade e significado, pois possibilita que aumentemos a nossa interacção social e o acesso a informação e entretenimento. Mas os empregadores têm que se libertar de muitos preconceitos em relação aos cegos e olhá-los com olhos de ver. Já são muitos os cibernavegadores que não 'vêem'», observa aquele responsável.

No que diz respeito à realidade portuguesa do teletrabalho, as últimas estatísticas disponíveis sobre o número de teletrabalhadores datam de 1997, as quais indicam cerca de 100 mil. Com o objectivo de obter uma radiografia mais actualizada da penetração desta nova forma de trabalho no tecido laboral português, uma das medidas anunciadas pela APDT no referido evento é a realização de um inquérito junto das empresas para esse efeito, no âmbito do projecto Vict@ria, orientado para a promoção do "e-trabalho" em Portugal.

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