Escassez de formação técnica

A oferta de formação em Portugal não responde às necessidades do mercado, cuja tendência de procura centra-se nos conteúdos formativos que forneçam uma maior especialização técnica. «Existe uma maior oferta formativa nas áreas de formação consideradas transversais, de âmbito mais geral, e menor nas áreas ditas técnicas ou que requeiram maior investimento tecnológico e infraestruturas mais sofisticadas», refere Madalena Estevão, coordenadora do estudo «Posicionamento da oferta formativa das entidades acreditadas na área da formação», realizado pelo Instituto para a Inovação da Formação (Inofor).

Análise de Ruben Eiras

O sítio do Inofor

A pesquisa do Inofor constata que as áreas de formação predominantes são as que abrangem um maior número de destinatários derivado ao âmbito geral dos seus conteúdos formativos e exigem um menor investimento inicial e de desenvolvimento.

Com efeito, segundo o estudo, nas primeiras três áreas formativas estão classificados cursos de formação geral: 43% em informática na óptica do utilizador, 40% em gestão e administração e 27,9% em desenvolvimento pessoal. A baixa especialização também é um dado a reter desta pesquisa, já que 51% das entidades formação dispersam a sua actividade por cinco ou mais áreas de formação.

Por outro lado, o estudo do Inofor indica a existência de uma forte escassez de oferta formativa especializada para algumas das mais importantes actividades económicas - sobretudo indústria e construção -, resultantes da comparação entre a oferta e a potencial procura nas áreas de actividade onde é possível estabelecer alguma correspondência com as áreas de formação. Em média nacional, existe uma lacuna de cinco áreas de formação por distrito.

De acordo com Madalena Estevão, um dos factores que condiciona as opções de oferta das empresas de formação é a ausência de estruturas de formativas próprias. «Esta é uma característica comum à grande maioria das entidades acreditadas. A formação realiza-se em espaços externos e indiferenciados, não concebidos especificamente para a actividade formativa e mais fáceis de encontrar», esclarece a investigadora.

E o estudo identifica que a oferta de formação especializada se concentra nas estruturas públicas - por exemplo, os centros de formação protocolares - e nas empresas beneficiárias dos apoios estatais. «Mas o seu número é reduzido face ao potencial de procura, o que origina taxas de oportunidade geograficamente desequilibradas e em certos casos manifestamente reduzidas», salienta.

No entanto, Madalena Estevão ressalva que as áreas onde se verifica uma maior oferta formativa correspondem também a necessidades da procura e competências chave essenciais. «Todavia, não é tanto esse desajustamento que se procura aqui realçar mas o facto da concentração excessiva nessas áreas transversais resultar na insuficiente resolução de outras necessidades que uma distribuição da oferta mais equilibrada pelas áreas de formação poderia conseguir», contrapõe.

O estudo conclui que se deverá incentivar a oferta de formação técnica especializada, sobretudo nas áreas ligadas à engenharia e técnicas afins, indústrias transformadoras e arquitectura e construção. Outra das medidas a introduzir são o reforço dos factores de diferenciação da formação aplicados aos critérios de atribuição dos apoios públicos e o aumento do investimento privado em infraestruturas adequadas, complementando a oferta pública existente.

«Este diagnóstico do mercado nacional de formação deixa uma pergunta no ar: os importantes compromissos em matéria de níveis de formação contínua obrigatórios, assumidos no acordo de Política de Emprego e Formação, irão ser cumpridos por uma oferta centrada em áreas transversais ou seguindo critérios de necessidade?», remata Madalena Estevão.

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