Gurus do teletrabalho em confronto

No primeiro abalo da Nova Economia, os cinco gurus do teletrabalho no mundo laboral americano dão as suas visões sobre o futuro daquela forma de trabalhar. Jack Nilles está optimista, mas adverte que só as altas qualificações podem proteger contra a net-escravatura. Charles Grantham prenuncia a extinção do teletrabalho e anuncia a era do trabalho colaborativo. Gil Gordon afirma que o obstáculo no avanço do teletrabalho reside na mentalidade dos empresários e dos trabalhadores. Bill Lessard e Steve Baldwin continuam firmes na denúncia da tele-escravatura e perspectivam uma revalorização dos direitos sociais no mundo do trabalho digital.

Ruben Eiras com Jack Nilles, Charles Grantham, Gil Gordon e Bill Lessard e Steve Baldwin

Versão adaptada do Expresso

Entrevistas e artigos com Jack Nilles | Entrevista a Charles Grantham
Entrevistas com Gil Gordon | Entrevista a Bill Lessard e Steve Baldwin

As perguntas....

1 - Qual é o ponto da situação do teletrabalho?

2 - O que é necessário para o teletrabalho evoluir para outros modelos de organização? Será que ficará por uma "taylorização" da indústria da informação?

3 - Quão sério é o fenómeno dos "netslaves"? Irá o teletrabalho causar uma dualização do mercado de trabalho?

4 - Porque é que o teletrabalho não cresceu tanto como o esperado?

5 - Que precauções devemos ter com o teletrabalho?

6 - Qual é a sua visão sobre o futuro do teletrabalho?

...e as respostas

Resposta 1

JACK NILLES - Existem hoje cerca de 21 milhões de teletrabalhadores nos EUA, ou seja cerca de 18% da força de trabalho americana. A taxa anual de crescimento do teletrabalho é de somente 11%. Na Europa a percentagem de teletrabalhadores é mais baixa, mas a taxa de crescimento é mais alta.

CHARLES GRANTHAM - O teletrabalho está morto. É um conceito ultrapassado que se transformou naquilo que cahmo de trabalho distribuído. Teletrabalho significava um empregado de uma empresa que trabalhava em casa um ou duas vezes por semana. Com o advento da Internet isto foi estendido para trabalhar em qualquer lugar, em qualquer altura do dia. Agora temos uma nova forma de trabalho - distância/tempo colaboração - e as pessoas estão a tornar-se trabalhadores em part-time, contratadores e similares. Então a tecnologia moveu-se do simples "tele" para a net; e o trabalho moveu-se dos assalariados para os trabalhadores independentes. O trabalho tornou-se mais complexo, mais criativo e mais colaborativo numa arena internacional.

GIL GORDON - Continua a aumentar, está bem de saúde e recomenda-se. A situação difere de país para país, como já era de esperar. Os casos de sucesso do teletrabalho acontecem quando resolvem um problema específico dos empregadores. Também oferece benefícios em termos sociais, já que reduz o tráfico e a poluição. Mas é preciso obter o apoio dos empregadores primeiro, caso contrário estes benefícios não passarão de ilusões.

BILL LESSARD e STEVE BALDWIN - Já causou. Muitas das pessoas que trabalham na área da tecnologia não são ricas e nunca serão. Embora ganhem relativamente mais do que noutras indústrias, isso não faz diferença, por causa da baixa qualidade de vida e da falta de estabilidade. Eu tive sete trabalhos em sete anos e posso dizer que a maioria das pessoas na indústria nem tem benefícios sociais e de saúde.

Resposta 2

JACK NILLES - O teletrabalho possibilita novas formas de organização para desenvolver. As características mais significativas nascem do achatamento da estrutura organização permitido pela tecnologia da informação - e mais tarde encorajada pelo teletrabalho, como também a capacidade da interconectividade global que permite equipas virtuais desenvolverem em resposta as condições de mudança dos mercados. Esta evolução nota-se particularmente nos sectores relacionados com a Internet. Os negócios mais tradicionais estão a começar a recuperar terreno, portanto esta tendência irá acelerar. A "taylorização" focaliza-se num processo de controlo, ou seja, minimizar o esforço extenuante de um produto bem definido. O teletrabalho é num sentido a antítese da "taylorização" já que foca na eficácia dos resultados produzidos do que no processo. Ademais, o teletrabalho está mais adaptado aos ambientes de mudança, onde o processo tem que ser reinventado para cada novo trabalho.

CHARLES GRANTHAM - Cerca de 15% da força de trabalho enquadra-se dentro do perfil dos trabalhadores de tecnologias de informação (TI) - a partir deste ponto crítico é um força imparável. O que irá aumentar é a velocidade é a mudança demográfica do rejuvenescimento do mercado de trabalho e a contínua difusão das tecnologias Internet de lata velocidade. Não penso que o modelo "taylorizado" irá subsistir quando as pessoas começarem a formar novas equipas de trabalho que recusem trabalhar para empresas que as tratam como robots com computadores. Existe o simples facto que há mais trabalho de TI para fazer do que pessoas capazes de realizá-lo neste planeta. As pessoas têm escolha, estejam ou não cientes disso.

GIL GORDON - Na minha opinião, o teletrabalho não substituirá as formas de organização existentes, mas será uma ferramenta utilizada dentro destas formas. Existem muitas forças de mudança nas organizações que irão ter um impacto muito maior do que o teletrabalho.

BILL LESSARD e STEVE BALDWIN - As pessoas precisam de se perguntar do que irão valer no longo prazo, em vez de confiarem nas acções da bolsa, que provavelmente não valerão nada dentro de seis meses. Agora que o mercado bolsista rebentou, as pessoas vão procurar pelos benefícios sociais e de saúde. Irá existir menos preocupação em se tornar ricos como o Bill Gates e focalizar nas realidades da vida de cada um.

Resposta 3

JACK NILLES - Este é um assunto complexo. O termo "netslave" depende da perspectiva do analista, particularmente onde o comércio tradicional entra na cena. Por exemplo, suponhamos que existe um programador na Índia, teletrabalhando por hora. A taxa de pagamento irá ser muito mais baixa do que um programador nos EUA. O programador indiano talvez seja um "netslave" do ponto de vista dos EUA mas talvez seja um membro da classe média Indiana. O ponto fundamental é o da oferta e da procura. No futuro previsível, a oferta de pessoal especializado é muito menor do que a procura pelas suas competências, numa base global. Similarmente, a oferta de pessoas com ou sem nenhuma competência é muito maior do que a sua procura. Onde existem desequilíbrios na oferta local de trabalhadores de informação o teletrabalho desempenha um papel fundamental, já que os custos de "transporte" são baixos ou insignificantes e muitos tipos de trabalho da informação podem ser desempenhados por pessoas que estão distantes do local do empregador final. Se esses trabalhos requerem altos níveis de competências, há pouco perigo de net-escravatura, empregados de baixa qualificação são fáceis de encontrar. A lição-chave é que não existe substituto para a educação.

CHARLES GRANTHAM - Actualmente, é um problema sério até que estas pessoas se organizem em mercados de trabalho visíveis. Enquanto forem vistos como recursos humanos individuais esta situação irá continuar. Quando desenvolverem liderança e pequenas estruturas de equipas, eles irão negociar as condições de trabalho que quiserem. Escravos da net do mundo, uni-vos! A dualização será paralela à clivagem entre os países desenvolvidos e o terceiro mundo.

GIL GORDON - Não creio que este seja um problemas generalizado. Estou certo de que existem alguns casos, mas não acho que seja um fenómeno muito comum. Não é uma característica inerente ao teletrabalho o originar de uma clivagem no mercado de trabalho entre aqueles que têm e aqueles que não têm. Existirão sempre empregadores abusadores e egoístas que procurarão ter o máximo de trabalho pelo mínimo de dinheiro. O que podemos esperar é a fiscalização por parte do Governo e trabalhadores espertos que não permitam tratamento explorador e controlador.

BILL LESSARD e STEVE BALDWIN - Sempre que as pessoas esperam demasiado de uma coisa, ficam desapontadas. Nos últimos anos, as pessoas entram "voando" para a Web, esperando ficar ricas em seis meses. Quando isso não acontece, ficam muito frustradas. A recente queda no Nasdaq é um exemplo carsso disso. Como se toda a gente que fosse a Las Vegas ganhasse milhões nos Casinos - é a mesma coisa.

Resposta 4

JACK NILLES - Mas quem o esperava? No meu caso, está dentro das minhas expectativas de uma década atrás. Temos que ter em mente que o teletrabalho pode envolver algumas mudanças fundamentais na cultura de uma organização. Isso pode levar anos para difundir através de uma economia - como as minhas previsões apontam. Agora estamos a meio caminho do ponto de crescimento do teletrabalho nos EUA e abaixo desse ponto no resto do mundo. Mas a taxa de crescimento americana é grande e numericamente maior do que a taxa de crescimento de muitas outras economias.

CHARLES GRANTHAM - A resistência organizacional das antigas formas de trabalho. O medo dos gestores de que poderão perder o controlo das pessoas. A verdade é que já o perderam quando a net apareceu no início da década de 90. Também a incapacidade dos gestores de mais de 50 anos para fazerem a transição pessoal para as novas formas de trabalho, as quais também discorro no capítulo "Pessoas", do meu livro "O Futuro do Trabalho".

GIL GORDON - O teletrabalho era esperado por muitos como a principal forma de trabalho, ao ponto de se dizer que todo edifício de escritórios ficaria vazio, porque toda agente iria trabalhar em casa. Nunca acreditei nisto e ainda não acredito. Tem crescido bastante bem mas ainda existem muitos gestores e empregadores que resistem, porque, por um lado, não o entendem ou, por outro, têm visões muito antiquadas sobre o trabalho e os locais de trabalho.

BILL LESSARD e STEVE BALDWIN não responderam a esta pergunta

Resposta 5

JACK NILLES - O teletrabalho não é adequado para muitos tipos de trabalho, particularmente aqueles que são dependentes da localização. Muitos dos teletrabalhadores não teletrabalham a tempo inteiro; precisam de "enfrentar o tempo" para acabarem por completo o trabalho. Muitos dos teletrabalhadores não são bons candidatos para trabalhar em casa. Embora talvez trabalhem bem num telecentro, precisam de ambiente tradicional de escritório para funcionar apropriadamente. O perigo de "escravização- net-exploração" existe para aqueles que tenham baixas qualificações. Finalmente, o teletrabalho poderá dispersar os problemas urbanos aompasso que os teletrabalhadores descobrem que poderão mover-se das cidades congestionadas. Estamos a tentar descobrir se existem efeitos a longo prazo e se os movimentos são para subúrbios em expansão ou para novas comunidades rurais.

CHARLES GRANTHAM - O trabalho contém uma grande parte da socialização humana. Não podemos que as pessoas necessitam frequente e rotineiramente interagir umas com as outras face a face para serem uma equipa efectiva Temos que desenhar organizações de trabalho e processos que reconheçam e encorajem este lado humano das actividades.

GIL GORDON - Creio que o teletrabalho é uma das raras inovações do local de trabalho que é vantajosa tanto para os empregadores como para os empregadores. A chave á assegurar que seja implementado e gerido correctamente. Não é para qualquer trabalho, trabalhador ou gestor. Também devemos ter expectativas realistas para o teletrabalho: não irá criar por si grandes incrementos na produtividade, grandes reduções nos custos operacionais, ou resolver todos os nossos problemas de tráfico ou poluição.

BILL LESSARD e STEVE BALDWIN - As pessoas devem ser realistas acerca daquilo que querem alcançar nesta indústria. Também deverão ser muito críticas com as empresas em que estão a considerar trabalhar: será que o plano de negócio faz sentido? Está a empresa bem alicerçada? Será que os gestores sabem o que estão a fazer ou são um grupo de miúdos a brincar aos CEO's? E mais importante, será que as pessoas que trabalham na empresa parecem que vão cair mortas? Conhecemos uma companhia em Seattle que instalou camas nos cubículos! Isto não é um bom sinal para alguém que esteja na sua completa sanidade mental. Recomendamos que a pessoa consulte um financeiro profissional para analisar as alternativas remuneratórias das "stock options" e assim por diante.

Resposta 6

JACK NILLES - Como pode adivinhar, eu penso que o teletrabalho tem um grande futuro. Eu espero que no fim desta década existam cerca de 130 milhões de teletrabalhadores.

CHARLES GRANTHAM - Novamente não é teletrabalho - é trabalho distribuído. Tornar-se-á uma norma na prática de trabalho para as empresas internacionais dentro de três anos. Também veremos a emergência de uma organização dos processos de "gestão de talentos empresarial" de suporte às acções de projecto. É só ver a maneira como Hollywood faz um filme para vermos o modelo de trabalho do futuro.

GIL GORDON - Eu penso que continuará a crescer e que o principal factor determinante de aceleração do acrescimento será a atitude mental dos gestores executivos. Se continuarem a actuar como se hoje fosse 1950 em vez de 2000, eles irão travar o bom uso do teletrabalho. A tecnologia que precisamos está quase sempre disponível, por isso não é este o problema. O problema é a mentalidade do gestor típico. Mas veremos muitas utilizações do teletrabalho numa maior variedade de trabalhos e indústrias. Os escritórios não vão desaparecer, mas depressa se tornarão em apenas mais um dos locais onde as pessoas fazem aquilo que nós chamamos de "trabalho de escritório".

BILL LESSARD e STEVE BALDWIN - As pessoas estão fartas de trabalhar arduamente por tão pouco. Irão ver que os únicos que estão a ficar ricos são os eus patrões e os principais investidores nestas empresas, e vão começar a pedir pagamento por horas extraordinárias e férias mais longas, em vez de stock-options. Isto é o que espero que via acontecer.

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