Na era do empreendorismo sindical

O sindicalismo nos Estados Unidos está a renascer em sectores ligados
à Nova Economia, devido à inovadora atitude empreendedora dos sindicatos americanos. Quem o afirma e confirma é Daniel Cornfield, investigador
e professor americano da Universidade de Vanderbilt. Por sua vez, em Portugal, segundo Marinús Pires de Lima, investigador do Instituto de Ciências Sociais, o movimento sindical permanece esclerosado por não levar
em atenção as questões da formação e da nova organização do trabalho
na contratação colectiva.

Análise de Ruben Eiras

Versão adaptada do Expresso

Enquanto na Europa o movimento sindical permanece imerso num crónico marasmo, no outro lado do Atlântico - nos Estados Unidos - o sindicalismo começa a dar sinais de um tímido renascimento. De acordo com Daniel Cornfield, investigador e professor americano da Universidade de Vanderbilt, a taxa de vitórias de eleições ganhas pelos sindicatos em 1998 foi de 52% (no sistema americano, os trabalhadores de cada empresa decidem através de um processo eleitoral interno a sua sindicalização), tanto no sector privado como no público. Os segmentos onde se verificou um maior índice de sindicalização foi nos dos sectores dos serviços e, imagine-se, na Nova Economia, um sector predominantemente tecnológico. Por sua vez, o movimento sindical decresceu na indústria manufactureira, que se encontra em declínio.

«O sindicalismo está a aumentar nos sectores onde se verifica o crescimento da economia», observa Daniel Cornfield. «No entanto, esta revitalização sindical não é generalizada, verificando-se apenas em segmentos do mercado de trabalho com características muito específicas», salienta.

As razões apontadas para a maior adesão dos trabalhadores norte-americanos ao movimento sindical centram-se na nova atitude das organizações sindicais e nas reestruturação organizacionais dos locais de trabalho. Além disso, segundo aquele investigador, os trabalhadores sindicalizados também possuem remunerações mais elevadas.

"Marketing" laboral

A filosofia inclusiva que "contaminou" a liderança do sindicalismo americano deu um novo alento ao movimento laboral. «A partir de 1995, os sindicatos tornaram-se muito agressivos na defesa dos direitos laborais das minorias étnicas e das mulheres. Isso aumentou o nível de opinião pública favorável aos sindicatos naqueles segmentos populacionais em cerca de 66%», ressalva aquele sociólogo.

E como grande parte da população activa que trabalha no sector dos serviços - que nos EUA é marcado por uma extrema precariedade laboral - é composta por aqueles grupos sociais, criaram-se novas bolsas de procura de sindicalização naquela força de trabalho periférica. «Os sindicatos promoveram-se junto destes novos 'mercados' de trabalhadores e conquistaram-nos. É o nascer do empreendorismo sindical», considera Daniel Cornfield.

Outro dos grupos profissionais que também manifesta uma tendência para a sindicalização é o dos médicos. Segundo aquele investigador, a razão prende-se com a reestruturação do sistema de saúde norte-americano, que está a ser conduzido para a centralização da autoridade e burocratização da organização. «Como os médicos estão a perder capacidade de decisão e autonomia no seu trabalho, a sindicalização torna-se um meio de defesa do seu poder», explica o sociólogo.

Por sua vez, os factores que levam à sindicalização na Nova Economia são a diminuição do controlo sobre o trabalho e os salários (como no caso dos médicos) e a casualidade da relação laboral, que origina tensão entre o trabalhador e a entidade empregadora.

E em Portugal? Segundo Marinús Pires de Lima, investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, o decréscimo da sindicalização atingiu valores na ordem dos 30%. «Os sindicatos ainda centram-se demasiado nas questões salariais, que apesar de serem importantes, não são as únicas. Se as organizações sindicais não pugnarem pela regulação da formação profissional, da polivalência, por modernas formas de organização do trabalho, pela flexibilidade interna e pela participação dos trabalhadores nas empresas nas convenções colectivas de trabalho, a produtividade não sobe e os salários também não. Assim, os sindicatos não resolvem os problemas dos trabalhadores e ficam a atolados num impasse», remata aquele académico.

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