Teletrabalho Seduz
Movimento Sindical em Espanha


Um caso pioneiro


Jorge Nascimento Rodrigues em Madrid com o apoio de
Logo:Enred

Texto publicado originalmente no EXPRESSO



O teletrabalho tanto pode ser encarado como mais uma armadilha capitalista a controlar com mão de ferro ou mesmo impedir, ou como uma tendência inevitável em curso no mundo do trabalho da nova economia digital, que deve ser agarrada como oportunidade real.

Até agora, a regra é as multinacionais pegarem no regime para externalizar custos ou alguns cidadãos individualmente descobrirem um meio de auto-emprego em profissão liberal. O resto do mundo do trabalho e do capital tem passado a leste. Nomeadamente, as associações patronais e sindicais têm estado desatentas.

Logo: C.C.O.O Mas eis que, do mundo sindical, surge uma iniciativa arrojada - atendendo à tradicional dificuldade ideológica e à lógica histórica da representação laboral - e pioneira em Espanha, pela mão das Comisiones Obreras (CC.OO).

"O crescimento do que os sociólogos do trabalho chamam o emprego atípico, de que se destaca o teletrabalho, vem colocar novos desafios à relação laboral, e ou passamos da crítica às propostas concretas ou ficamos a bradar na margem", explica-nos Juan Blanco, um dos peritos mais respeitados do Gabinete Técnico Confederal das CC.OO, uma espécie de «think-tank» estratégico a funcionar junto da direcção nacional desta central sindical espanhola.

"Parece óbvio que a negociação colectiva e os acordos de topo a nível da chamada concertação social deverão evoluir, já que a realidade do trabalho deixou de ser um colectivo suficientemente homogéneo e «encaixável» nas velhas classificações profissionais", prossegue o nosso interlocutor, que nos recebeu em Madrid.

Quando a realidade ultrapassa as cúpulas

O rídiculo chegou ao ponto da realidade esmagar por completo o alheamento dos responsáveis sindicais máximos: "O teletrabalho já estava a funcionar em muitas grandes empresas, multinacionais sobretudo, onde estava regulamentado e acordado entre as partes, mas apesar de termos aí presença sindical activa, a mensagem não tinha passado para «cima». Os sindicalistas no terreno conheciam e estavam envolvidos, mas nós, a nível central, estavamos desfasados. Foi uma surpresa que apanhámos", sublinha, para acrescentar que "a tacanhez era ainda maior a nível das organizações patronais".

O que despertou o interesse geral no país vizinho por esta iniciativa sindical verdadeiramente "atípica" foi o surgimento de um estudo, com um título sugestivo - Teletrabajo: de lo inevitable a la oportunidad - encomendado pela Fundación Formación y Empleo (FOREM), ligada às CC.OO, e realizado por peritos sindicais com o apoio da ENRED, uma empresa de consultoria madrilena especializada na área.

Capa do Livro "Considerámos estratégico identificar e analisar, com rigor técnico e de um modo imparcial, o estado da arte do teletrabalho, e avançar com projectos piloto na área", uma decisão que deixou de boca aberta o próprio Jack Nilles, o californiano «pai» do conceito, que confessou a Juan Blanco que "não conhecia caso idêntico" e que levou a ideia de volta para "mostrar às próprias «unions» americanas, que ainda estão no paleolítico do problema".

Paradoxal, também, e quase anedótico, o facto das próprias organizações patronais espanholas, subitamente, terem despertado para o problema, e se ter assistido a uma "autêntica corrida à procura deste nosso relatório, o que nos deu um gozo imenso", confessa este perito sindical, frisando que a decisão estratégica de "entrar" nesta nova área foi feita no momento certo.

"Antecipar é o segredo", refere-nos, apesar de alguma oposição interna "muito dura" ainda existente, que acha que "isso não é coisa para os sindicatos" e de algumas confederações europeias congéneres acharem que "os irmãos espanhóis estão demasiado optimistas". É precisa muita paciência e um grande esforço pedagógico, depreende-se, para se perceber que os sindicatos têm de ser "cavalos de tróia no novo capitalismo digital e não Don Quixotes".

Esta evolução ideológica da confederação espanhola não é de última hora. Desde o primeiro Congresso (legal) em 1978, e particularmente depois do seminário sobre "Ciencia y Tecnología, Economía y Empleo", em 1989, organizado pela Fundación 1º de Mayo (antecedente da FOREM), que o caminho de transição de uma postura crítica defensiva para uma posição "pro-activa de exploração das novas oportunidades e de participação antecipada no desenho do novo enquadramento legal" se vinha desenhando.

Não é possível esticar mais a corda

Mas a iniciativa pioneira das CC.OO parece ter, hoje, as costas quentes. A realidade espanhola do final dos anos 90 exige uma mudança estratégica urgente no modelo competitivo.

"A corda já foi esticada ao máximo. A competitividade por via do embaratecimento e precarização do trabalho chegou ao limite social. Temos seis milhões de empregados permanentes e três milhões em regime independente, entre quadros liberais e menos qualificados - que têm diminuído, o que também não é bom -, face a três milhões de temporários precários que continuam a crescer e a outros três milhões de desempregados", argumenta Juan Blanco, a que se podem juntar estes dados esclarecedores: a taxa de desemprego juvenil atinge mais de 40 por cento da população activa menor de 25 anos; 60 por cento dos novos contratos de trabalho são em regime temporário.

Conscientes desta fragilidade social, que matará a competitividade a prazo, sindicatos e patronais espanholas sentaram-se à mesa recentemente e assinaram em Abril passado os primeiros acordos bipartidos sobre o trabalho temporário e a definição das novas categorias profissionais, um acordo que poderá entrar em vigor a partir de 1 de Janeiro de 1998 e que é previsto para cinco anos (podem ser consultados em www.ccoo.es).

Um dos próximos passos incluirá a definição dos critérios sobre o teletrabalho no quadro dos acordos colectivos. "É preciso passar da discussão tradicional na concertação com muita parra politica e pouca uva, para a resolução dos problemas", conclui.

Os projectos em calha

As CC.OO têm na calha quatro projectos-piloto de arranque do teletrabalho, diversificados e em pontos geograficamente distintos ou em rede.

O primeiro sinal vai ser dado por uma rede de formação interna à distância de quadros sindicais da confederação.

Uma outra iniciativa vai ser o lançamento de um Centro de Teletrabalho para deficientes em conjugação com autoridades locais da Comunidade Autónoma de Madrid.

Dois outros vão visar os desempregados; um com a Comunidade Autónoma de Valencia, no campo dos Centros de Informação e Apoio aos Desempregados, e outro ao nível de toda a rede SIPES (Servicios Integrados para el Empleo) em Espanha.

O Estudo da ENRED para as CC.OO pode ser pedido directamente para carlavsc@enred.es


A seguir:

  • Vantagens da rede sindical para o teletrabalho
  • Modelo de rede sindical de teleserviços
  • Página Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal