Reportagem no CATRAL em Paris

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Uma estratégia de massificação do teletrabalho em área metropolitana


Jorge Nascimento Rodrigues em Paris

Publicado originalmente no suplemento XXI do EXPRESSO.

Depois dos "parques de escritórios", dos "ninhos" e "incubadoras" de empresas, dos parques tecnológicos e dos teleportos, emergiu, mais recentemente, um novo conceito de organização das actividades económicas no espaço urbano e suburbano, o telecentro. Intimanente ligado à difusão do teletrabalho e ao descongestionamento de um tráfego insuportável nas áreas metropolitanas, estes centros têm-se vindo a desenvolver em vários países da Europa, assumindo, no entanto, formatos diversos, em sintonia com culturas empresariais e de trabalho diferentes.

A vaga de reestruturações empresariais da última década e os custos proibitivos do imobiliário ajudaram, também, ao marketing crescente deste tipo de solução.

Em muitas das capitais e cidades da União Europeia desenvolveram-se projectos piloto de teletrabalho em meio urbano, mas é, em França, que uma solução original tem despertado o interesse internacional, a ponto de ter sido premiada, no mês passado, pela denominada Bangueman Challenge, uma competição entre cidades europeias que se querem afirmar como modelos da Sociedade da Informação (ver suplemento XXI do EXPRESSO de 1/02/97, numa reportagem de Rui Trindade).

O conceito francês é o da criação de uma rede de "Bureaux de Voisinage", de telecentros de proximidade, que criem uma malha apertada em toda a região da Ilha-de-França, cujo epicentro é a capital, Paris. Os seus promotores falam mesmo de uma cobertura regional, no futuro, em que de um centro a outro não se gaste mais de quinze minutos.

O objectivo é agrupar empregados de diversas empresas de serviços e mesmo da administração pública em locais próximos das suas áreas de domicilio, onde possam trabalhar, a tempo inteiro ou parcial, recorrendo às mais modernas tecnologias, mantendo-se em ligação telemática com as suas organizações de origem. À frente deste projecto está o CATRAL, a Agência Regional para o Ordenamento do Tempo, que depende do Conselho Regional da Ilha-de-França, uma estrutura de poder regional, sediada no coração da capital.

Na calha está uma primeira rede piloto de 100 telecentros até ao ano 2014, que podem mobilizar entre 25 a um máximo de 100 postos diários de trabalho por local, e com um custo de arranque de 3 milhões de francos por centro, excluindo o custo do imobiliário, que será cedido por vários parceiros do projecto.

A solução do espaço físico é engenhosa. Entidades como municipios podem afirmar, através dela, a sua liderança local. Ou, então, empresas de transportes, como o «metro» (RATP) ou os caminhos de ferro (SNCF), ou operadoras de telecomunicações (France Telecom) e empresas de energia podem encontrar na cedência de espaços vazios uma rentabilização do local e das próprias redes de comunicações avançadas internas.

Ao projecto se associarão, ainda, fornecedores de equipamentos telemáticos e de software, estando já envolvidas empresas como a Digital, a Thomson e a Microsoft. A solução é, também, versátil, dirigida não só à ocupação de espaço por grandes empresas, como à fixação nesses telecentros de "pólos" locais de actividades diversificadas de teleserviços dirigidas ao apoio às empresas ou aos cidadãos.

O arranque, este ano, ocorrerá em sete pontos distintos, envolvendo o próprio Conselho Regional da Ilha-de-França, dois espaços da RATP, a empresa pública de transportes de Paris que gere o «metro» e as linhas de combóio da região, dois cantões (Provins e Villiers-Saint-Georges) e duas aglomerações (Gif-Sur-Yvette e Marly-Le-Roi) de características sociais, económicas e políticas distintas, o que reforça o carácter de tubo de ensaio e de efeito de demonstração.

Os promotores desta rede, Christine Gauthier e Philippe Dorin, respectivamente secretária geral e director do CATRAL, explicaram que se trata de "uma aposta na vulgarização da opção pelo teletrabalho como política de ordenamento do território e do tempo das pessoas, tendo em conta as particularidades da psicologia «latina»".

Para eles, a generalização do teletrabalho em casa "oferece vários inconvenientes nos países «latinos», tais como o risco de isolamento social e profissional, e de novos tipos de «stress», a dificuldade de auto-organização, por ausência de uma cultura de objectivos e auto-ensino, a falta de condições dos apartamentos em meio urbano e suburbano, as grandes resistências por parte dos gestores, nomeadamente dos intermédios, o medo da perca de confidencialidade por parte das administrações, e a suspeição com que, ainda, é encarado pela população local o trabalho em casa e quem o exerce".

Para dar a "volta" a estas barreiras sociais e culturais, e para conseguir mobilizar as grandes empresas e administrações com reestruturações urgentes (nomeadamente libertação de imobiliário nos centros urbanos e redução de custos fixos), os dois responsáveis do CATRAL criaram, em 1993, o tal conceito de "Bureaux de Voisinage" - uma solução de compromisso, que traz as pessoas para locais de trabalho multi-empresas, mais próximos de casa, sem terem de desperdiçar tempo e de sofrer o «stress» das deslocações para o meio da cidade, tido como um dos ingredientes da baixa produtividade.

O estudo prévio, realizado, apontava para 4 milhões de habitantes da região da Ilha-de-França que tinham de se deslocar para longe do seu domicilio todos os dias, o que representa 75 por cento de todos os activos da região, e qualquer coisa como 7,5 milhões de horas de trabalho perdidas em deslocações.

"As greves de Dezembro de 1995 colocaram na ordem do dia esta oportunidade e permitiram-nos dar um salto significativo para a sensibilização dos municipios e das empresas", confessam os dois responsáveis do CATRAL.

Ainda segundo o mesmo estudo preliminar, são susceptíveis de ser "encaixados", a longo prazo, em telecentros ou noutras formas de trabalho à distância "cerca de 10 por cento dos quatro milhões que diariamente se deslocam de casa para um emprego longe".

Os dois criadores do conceito de «bureau de voisinage» não negam que soluções de teletrabalho em casa sejam adequadas, mas remetem-nas para algumas profissões e actividades altamente qualificadas, com habitações adequadas, ou para algumas funções "nómadas" (por exemplo vendas), como é o caso frequente em multinacionais da área da informática com "cultura anglo-saxónica". Ou seja, a solução a domicilio é para uma minoria - em contraponto, a opção do CATRAL é de "massificação", é uma estratégia política regional e não individual.

Christine Gauthier e Philippe Dorin querem aproveitar a projecção dada pelo prémio europeu para reforçar a expansão europeia do conceito de "Telecentros de proximidade" e falam da importância em criar um "polo latino da Sociedade da Informação".

O seu trabalho junto de outras capitais europeias, como Roma e a região circundante, bem como a participação em projectos europeus com Madrid, bem como a aproximação a Barcelona, na Catalunha, vão nesse sentido. A vinda a Lisboa de Christine Gauthier, para participar no Seminário promovido pelo consórcio Telepac & Tracy, pode "vir a gerar uma novo eixo estratégico" até ao Atlântico, deixam escapar, a finalizar.


Bibliografia:

  • Le Guide du Télétravail, por Christine Gauthier e Philippe Dorin, editado pelas Les Éditions d'Organisation
    Todas as informações «on line»:
    www.catral.org/
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