A ponte de D. Afonso Henriques

A plataforma transfronteiriça de Bragança-Zamora

Na semana em que se realizaram em Zamora as III Jornadas Interuniversitárias sobre cooperação transfronteiriça, ficam claras as vantagens de uma estratégia comum de afirmação do papel de "interface" do Nordeste Transmontano e da raia de Castela e Leão (Castilla y León). A região portuguesa centrada em Bragança tem as potencialidades para desempenhar claramente o papel de plataforma transfronteiriça.

Jorge Nascimento Rodrigues na Fundación Rei Afonso Henriques em Zamora

Patrocínios da Mesa Redonda pela Agência para o Desenvolvimento do Investimento no Norte de Portugal, Ayuntamiento de Zamora, Câmara Municipal de Bragança e Quinta d'Avozinha, Aldeia de Cabeça Boa, Samil (Turismo de habitação)

Sites de referência
 Nordeste Transmontano | Bragança na Net | Guia de Zamora 
Jornal La Opinión - El Correo de Zamora

Ironia da História, o primeiro Rei de Portugal, que cortara no século XII o cordão umbilical com Castela e Leão, está a servir de "ponte" estratégica entre duas regiões fronteiriças até há alguns anos de costas viradas - habituadas a "vivir de espaldas", como se diz do outro lado da raia. D. Afonso Henriques é hoje o porta-estandarte da Fundação com o seu nome que pretende transformar a bacia do Douro (Duero, do lado castelhano) Internacional como plataforma de cooperação entre os dois países vizinhos. O simbolismo desta ponte histórica anima hoje a vontade estratégica de transformar o eixo Bragança-Zamora numa centralidade na Península Ibérica. O que pode parecer paradoxal para quem não tenha a noção que Bragança fica diariamente a uma hora de voo de Lisboa e a duas horas de carro de Valladolid.

Evitar o túnel

«Somos duas 'cabeças de ponte' dos dois lados da raia», afirma Angel Macías Salvador, 1º tenente-alcaide do Ayuntamiento de Zamora, responsável pela área de fomento e desenvolvimento, que promoveu o debate organizado na Fundación Rei Afonso Henriques, naquela cidade castelhana. «Zamora deve olhar menos para Madrid e colocar a ênfase em Portugal, aliando-se à outra 'cabeça de ponte', do outro lado da fronteira, Bragança», remata o nosso anfitrião, que exemplifica com o papel de "corredor" de toda esta região em relação aos eixos logísticos que ligam a fachada atlântica nortenha portuguesa e galega com as rotas espanholas que articulam com Madrid e com o Vale do Ebro em direcção à Europa.

Opinião que é corroborada por Juvenal Peneda, coordenador do Gabinete de Cooperação da Comissão de Coordenação da Região Norte (portuguesa): «Portugal é já o segundo cliente de Castela e Leão, mas, do lado espanhol, não há ainda consciência clara desta situação. O novo contexto da União Europeia dá uma oportunidade histórica às regiões intermédias transfronteiriças, que reganham, por isso, centralidade, que deve ser aproveitada».

Nova centralidade potencial que é firmemente agarrada pelo autarca de Bragança, que pretende evitar transformar a sua região em mero "túnel para viagens de longo curso" através das novas infra-estruturas viárias, como a IP4 quase concluída até à fronteira em Quintanilha. Para Jorge Nunes, 48 anos, um engenheiro civil e professor do Instituto Politécnico de Bragança actualmente a presidir à Câmara de Bragança e a à Associação dos Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro, o desafio do Nordeste Transmontano é duplo - evitar ser mero ponto de passagem a 120 km à hora entre a fachada atlântica e o centro de Espanha e quebrar o esvaziamento populacional, que levou a região, nos últimos 40 anos, a perder 1/3 das suas gentes, podendo vir a perder mais 1/4 até 2010, se as tendências não forem invertidas.

Bragança no Mapa

O autarca tem procurado colocar o município no mapa ibérico através de projectos que se transformem em "vitrina" de um novo desenvolvimento, como o Milénio Parque (a que o semanário português Expresso já se referiu) e todo um novo conceito estratégico de desenvolvimento turístico/cultural e de implantação empresarial ligada a 'clusters' ibéricos (como o do automóvel).

Face à riqueza ambiental dos dois lados da raia nordestina - nomeadamente o Parque Natural da Serra de Montesinho e o Espacio Natural da Sierra de la Culebra - faz todo o sentido a especialização no turismo ambiental, a que se associa naturalmente a riqueza dos produtos do território nordestino transmontano com uma gastronomia muito rica e a ligação à região vitícola demarcada mais antiga do mundo.

«E vejo toda essa acção de uma forma conjunta com Castela e Leão, e particularmente com Zamora, nomeadamente no campo do turismo ambiental e do património histórico. É necessária uma promoção conjunta», refere Jorge Nunes. Um dos projectos que pretende explorar este "cluster" turístico é o da Rota da Terra Fria, que será a primeira "rota" em Portugal dedicada à temática da conservação da Natureza, que vai envolver um investimento na ordem dos 3 milhões de contos até ao final de 2002.

Automóveis na Serra

Mas o caso mais exemplar da oportunidade da "centralidade" raiana foi a implantação da multinacional francesa de componentes para automóvel Faurecia na estrada do aeroporto nas imediações de Bragança com a Serra como pano de fundo. «A reacção rápida da Câmara e o apoio da Agência para o Desenvolvimento do Investimento no Norte de Portugal foram cruciais para esta decisão», refere Alain Durand, um francês da direcção da Faurecia em Vigo. A Faurecia de Bragança irá fornecer em "just-in-time" tubos de escape para as fábricas da Seat e VW de Pamplona e Barcelona, esperando-se que esteja em laboração plena a partir do primeiro trimestre de 2002. Na implantação desta unidade fabril está um jovem quadro português, Jorge Hilário, que aos 37 anos, já ganhou experiência de montagem de fábricas no Leste europeu.

«Há alguns anos atrás, após a derrocada do Cachão, poucos acreditavam em qualquer sucesso empresarial no Nordeste Transmontano. Mas empresas como a Sortegel, a Amendouro e a Sousa Camp tiveram a visão de descobrir produtos naturais e colocá-los no mercado internacional. A Faurecia foi mais um passo neste processo», diz, por seu lado, António Schneider, um homem de negócios radicado na Suíça que desempenha o duplo papel de delegado na Região Norte da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola e Cônsul Honorário da África do Sul. Schneider nasceu na antiga Lourenço Marques filho de um emigrante da região nordestina e aposta em atrair capitais sul-africanos para esta nova centralidade raiana.

Outra oportunidade de especialização pode ainda surgir na área da localização de "call centers". É mais um projecto de Jorge Nunes, que ressalta a vantagem competitiva da população jovem bragantina qualificada que domina também com facilidade o castelhano.

PRIMEIRO REI DE PORTUGAL ARMADO CAVALEIRO EM ZAMORA
D. Afonso Henriques (1109-1185) foi armado cavaleiro em Zamora, na antiga Igreja de El Salvador, sobre a qual se construiu a Catedral. Mais tarde, em 1143, seria também aqui que o seu primo, Afonso VII, monarca do Reino de Leão, lhe reconheceria o título de Rei de Portugal. Em homenagem a este laço histórico, foi criada a Fundación Rei Afonso Henriques, sediada no Convento de São Francisco, na outra margem do Douro/Duero face à cidade muralhada de Zamora. A Fundação criou um Instituto Interuniversitário que coopera com as Universidades de Salamanca, Valladolid, Leão, Porto e UTAD (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro).


Automóvel: "Clusters" de toda a Ibéria uni-vos!
Face à ameaça de deslocalização para o Leste europeu de unidades de montagem de automóveis dos grandes construtores mundiais, o que arrastará a deslocalização de fábricas de componentes para fornecimentos "just-in-time" na proximidade, a Península Ibérica tem de desenvolver urgentemente uma estratégia "agressiva" de salvaguarda das suas vantagens competitivas. Como os custos logísticos pesam nesta indústria, a proximidade é um factor crítico, pelo que o cenário da próxima década tem de ser cuidadosamente analisado na Europa do Sul.
O "cluster" do automóvel - construtores e fornecedores de componentes - é significativo em Espanha e em Portugal, pelo que a concretizar-se uma tal "ameaça" será 20% do comércio externo português e 25% no caso da exportação espanhola que sofrerá um abalo. A solução é uma frente comum em toda a Península, procurando «um ponto de aproximação em torno de problemáticas comuns», refere-nos Enrique Espinel Melgar, da direcção de fabricação da Fasa Renault em Valladolid.
Enrique Melgar participou, recentemente, na constituição do Foro de Automoción de Castilla y León (FACI), que decorreu no Parque Tecnológico de Boecillo, em Valladolid, promovido pelo Centro de Investigación y Desarrollo en Automoción (CIDAULT) e pela Agência de Desarrollo Económico de Castilla y León. Este fórum pretende agrupar todo o "cluster" automóvel de Castela e Leão, que já envolve 120 empresas, mobiliza directamente 47 mil trabalhadores, representa 28% do emprego na província espanhola e 55% das exportações deste região (mais de 700 mil milhões de pesetas, cerca de 4,5 mil milhões de euros). O "cluster" está basicamente espalhado pelo eixo Valladolid-Palencia-Burgos, onde encontramos grandes fabricantes, como a Renault, Iveco-Pegaso e Nissan.
A Comissão de Fundadores do FACI é constituída pela Gestamp de Palencia, Iveco-Pegaso, Johnson Controls, Nissan, Plastic Omnium, Renault e ZF Ansa Lenforder e coordenada pelo CIDAUT. O FACI pretende aumentar ainda mais a "massa crítica" regional neste sector, pelo que irá apoiar a criação de empresas em áreas como automatismos e electrónica aplicada, montagem e manutenção especializada, moldes, serviços avançados de desenho, gestão da qualidade, recursos humanos, questões ambientais, redes e serviços informáticos em geral.
O Foro pretende estreitar relações com o ACICAE (Agrupación Cluster Industrias Conponentes Automoción Euskadi) sediado no Parque Tecnológico de Zamudio, em Biscaia, no País Basco, o mais antigo agrupamento existente em Espanha, com mais de 280 empresas associadas, e com o CEAGA (Cluster de Empresas de Automoción de Galicia), da Galiza e o CEIIA (Centro para a Excelência e Inovação da Indústria Automóvel) português.

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