Um 'roubo' inteligente

A Vulcano foi escolhida entre 31 casos mundiais de excelência na gestão.
É a história de um «click» num «kaizen» fabril de inspiração japonesa.
De pequena empresa perdida no mundo rural
a líder europeia em esquentadores
numa década.

Reportagem em Empresa em Mudança
por Jorge Nascimento Rodrigues

Curandel Vulcano Por detrás do «'click' inteligente» e da «senhora caldeira» a que a publicidade nos habituou a identificar a Vulcano nos últimos tempos, há a história de uma pequena empresa perdida no mundo rural dos arredores de Aveiro que quase 20 anos depois alberga mil trabalhadores, é a líder europeia no seu segmento e dá cartas mundialmente como ponto de referência da inovação tecnológica nos esquentadores.

Tendo começado como uma simples licenciada da Junkers, uma divisão da Bosch, viu esta multinacional alemã entrar parcialmente no seu capital há dez anos e acabar por integrá-la completamente no grupo no ano passado. De simples operadora de montagem dos componentes do esquentador, em 1979, acabaria em 1994 por ser declarada Centro Internacional de Competência do grupo Bosch para o sector.

Esta ascenção da Vulcano transformou-se, agora, num caso de gestão pela mão da Price Waterhouse, que seleccionou 31 histórias de sucesso no mundo fabril internacional, o que levou o Expresso a visitar em Cacia as instalações fabris e a falar com o «pai» desta viragem, Mário Pais de Sousa, filho de um dos sócios fundadores. e hoje administrador-delegado e membro da direcção da Bosch Thermotecknick.


O primeiro choque

Quando o jovem Mário entrou na empresa com vinte e poucos anos, com um canudo de engenharia electrotécnica ainda fresco, mal sabia que iria ser protagonista de uma típica subida rio acima da «cadeia de valor». A partir da montagem dos componentes que a Junkers fornecia, a Vulcano deu, em 1981, o primeiro passo de uma caminhada tecnológica, com o fabrico dentro de casa de algumas componentes.

Mas o primeiro choque viria logo um ano depois, quando, confiante na vantagem comparativa dos salários baixos, a Vulcano julgava serem favas contadas o concurso para fornecedor do grupo Bosch.

«Qual não foi o meu espanto quando os alemães nos responderam, com os números bem à vista, que os nossos custos de montagem eram 40 por cento superiores aos da Bosch!», sorri o nosso interlocutor. Este abanão produziu como que um «click» na mente de Pais de Sousa e de outros quadros da empresa.

A batalha por passar essa barreira foi travada duramente e em 1988 a multinacional alemã resolveu entrar no capital da Vulcano. O desafio que se colocava era, então, o de dar um salto qualitativo sustentado.

Foi nesse contexto que Pais de Sousa tropeçou num livro que o marcaria, intitulado Kaizen - The Key to Japan's Competitive Success, uma tradução de uma obra japonesa da autoria de Masaki Imai. «O que é curioso é que eu era muito céptico em relação às modas de gestão, e mesmo em relação aos japoneses. Mas o livro acertou na 'mouche'. Fiquei atraído, primeiro, pelo seu pragmatismo, pela metodologia que colocava a nu os desperdícios, pela aposta no gradualismo e numa inovação incremental nos processos produtivos», refere o administrador da Vulcano. Curiosamente, o nosso interlocutor «sentiu» a atracção nipónica totalmente pela via literária, pois, «pode parecer-lhe estranho, mas só de há dois anos para cá tenho ido ao Japão».

A influência da obra foi efectivamente marcante, mas - sublinha - «não tanto neste ou naquele aspecto técnico particular da implementação do 'kaizen', mas sobretudo no seu enfoque no ambiente, na envolvente, nessa espécie de guarda-chuva que é preciso criar dentro da empresa». Começou aí o «roubo» criativo da filosofia das boas práticas japonesas, que, mais tarde, se consolidaria com o apoio da Price Waterhouse e de outro modelo nipónico conhecido por Kawasaki Production System.

A mudança acelerou, então, o passo. Em 1993 passava a licenciadora da tecnologia Bosch em esquentadores e há um esforço crucial de desenvolvimento com o lançamento de um tipo de esquentadores inovadores.

Em 1994, a Bosch resolve transformar a Vulcano em Centro de Competência Internacional nos esquentadores e abre-lhes as portas à internacionalização do seu saber, com o apoio técnico às novas implantações, nomeadamente na «joint-venture» em Cantão, na China.

Outros mercados emergentes passam a estar na mira, como a América do Sul, a Turquia e o Magrebe. «Com o nosso saber estamos a levar também à boleia fabricantes nacionais de máquinas essenciais para certos processos de fabrico de esquentadores», refere-nos agora Alexandre Silva, o director industrial, que serve de cicerone ao Expresso na moderna unidade fabril.

O desafio, diz-nos este ex-quadro do LNETI, é consolidar uma posição de liderança mundial nas regiões do globo em que se usa o esquentador.


Dois passos à frente

Na Europa, a Vulcano é líder com quase 40 por cento do mercado, seguida a alguma distância pelo agrupamento recente da Vaillant (também alemã) com a Fagor (espanhola), que deterão uns 25 por cento. Apesar da distância ainda confortável, a Vulcano não adormece nunca à sombra do corredor de árvores ladeadas por uma calçada tipicamente portuguesa que tem junto à entrada para a nave central fabril. «Temos sempre guardado um pacote de inovações, que nos permite estar sempre dois passos à frente», acentua o director industrial, que fala com entusiasmo da próxima vaga de inovações.

Grande parte ainda está no segredo, mas o Expresso apurou que os próximos passos da Vulcano, «sempre a pensar no utilizador», vão levar a mais novidades quer na concepção do produto quer no próprio processo de fabrico. Em relação ao produto, estuda-se a diminuição das dimensões do esquentador para uso doméstico, o aumento significativo do caudal de água por minuto, a introdução de um comando com controlo de condições de combustão pelo utilizador e a implantação de uma ignição electrónica associada à exaustão forçada.



Ideias-força da mudança

Data de Reportagem: Março 1998