Capital de Risco na Europa
Mitos & Realidades

Jorge Nascimento Rodrigues

O 'empreendedorismo' - um esforço de tradução do termo americano 'entrepreneurship' divulgado nos anos 70 por Peter Drucker - regressou à ribalta europeia. Depois de uma travessia do deserto está a transformar-se numa coisa 'chique'. Recomeçam a haver nas capas das revistas de negócios empreendedores a toda a largura. O alemão Hasso Plattner, da SAP, é um dos eleitos para essa galeria de ouro.

Os políticos europeus, e particularmente os amigos da 'política industrial', redescobriram o empreendedor e sonham em transpôr alguns dos ingredientes do ambiente inovador de Silicon Valley, na Califórnia, para o Velho Continente, apesar de polvilharem o discurso oficial com pruridos de distanciamento em relação ao «americanismo».

Mas o bico de obra tem sido cultural. O risco (empresarial) ainda é pecado. Os banqueiros só aceitam o risco que provém do jogo ou das mulheres, diz uma anedota. O que é novo é olhado como 'extra-terrestre' durante tempo demasiado. A banca continua a preferir o crédito a descoberto oriundo do apoio à velha economia que não se consegue reestruturar e aposta nos grandes clientes em sectores maduros.

Não abundam, também, os investidores de visão na Europa. O homem de fortuna ou mesmo o capitalista popular prefere gastar os euros nas acções de empresas maduras e dos grandes grupos ou em sinais exteriores de riqueza, do que meter um cêntimo em sectores de alto crescimento da nova economia.

Muito do capitalista de risco que surge na Europa está ligado a grandes grupos privados ou públicos que estão mais com o olho na «aspiração» dos lucros gerados nas jovens empresas protegidas, do que na realização de mais valias aquando de uma venda em bolsa. «Pedir a um velho tigre europeu que apadrinhe gazelinhas é oferecer a vítima ao carniceiro», diz Jacques Fabrice Vallée, um especialista francês em capital de risco radicado no Silicon Valley desde os anos 60 e que dirige a Eurolink International (presença na Web desactivada em www.eurolink.com).

Os «media» do Velho Continente levam tempo a acarinhar estes novos sectores, apesar do deslumbramento com a tecnologia, e passam o tempo em volta dos velhos capitalistas já com estatuto de VIP.

Ironia das ironias, o termo «empreendedor» é europeu e, para cúmulo, de origem francesa. Saíu da pena do economista francês Jean-Baptiste Say em 1800 e foi revalorizado pelo austríaco Joseph Schumpeter no princípio do século.

Cenário em mudança

Mas este olhar ao espelho parece estar a ser quebrado. «Há uma melhoria no terreno», diz a insuspeita revista americana Fortune, que leva os empreendedores europeus a capa da sua edição de 1 de Fevereiro próximo ('Europe's Maverick Entrepreneurs', ainda não disponível «online» em www.pathfinder.com/fortune/archives.html). E com eles traz o capital de risco europeu para a boca de cena.

O mercado ainda é bébé, mas movimentou 9,7 mil milhões de euros (1,9 mil milhões de contos) em 1997, que foram para seis mil projectos. Contudo, isto representa, apenas, o uso de 47% do dinheiro de risco então disponível (veja o quadro). «Dinheiro não falta. Faltam é projectos», conclui-se na revista. O mercado de capital de risco já com massa crítica é o inglês, que absorveu 46% daquele montante europeu anual, muito distanciado dos seus seguidores, o alemão e o francês. O Alternative Investment Market, criado em 1995 pelo London Stock Exchange, é o mais velho da turma europeia e conta com várias centenas de empresas cotadas.

CHUVA DE EUROS DE RISCO
(dados de 1997 em mil milhões)
Total de 'venture capital' na Europa: 20,6 (4,1 mil milhões de contos)
Fundos aplicados: 9,7 (1,9 mil milhões de contos) em 6000 investimentos
Percentagem aplicada: 47%

Principais mercados (% do total aplicado)
Reino Unido: 46%
Alemanha: 14%
França: 13%

Mercados de maior crescimento (% em relação a 1991)
Suécia: 758%
Holanda: 205%
Reino Unido: 202%

Mercados de menor crescimento (% em relação a 1991)
Itália: 39%
França: 48%

Fonte: EVCA, citado na revista Fortune de 1 de Fevereiro de 1999; valores originais em dólares; taxa de conversão 1 euro=1,16675 $USD


Para obviar à fraqueza europeia, foi criado em 1996 o EASDAQ (European Association of Securities Dealers Automatic Quotation System) muito à imagem do NASDAQ norte-americano. Envolve 13 países europeus, incluindo Portugal, e tem actualmente 37 empresas cotadas. Outro movimento pan-europeu agrupa-se em torno da rede Euro.NM, que agrupa o Le Nouveau Marché, criado em 1996 pela Bolsa de Paris e que já conta com 20 empresas cotadas, e outros mais recentes, como o NMAX em Amsterdão, o Euro.NM em Bruxelas, o Neuer Markt de Frankfurt e proximamente um italiano.

Veja aqui o directório de contactos sobre o capital de risco e os 'business angels' que a Janela na Web juntou

Os calcanhares de Aquiles

Mas por debaixo desta chuva de euros, residem alguns calcanhares de Aquiles. Só 25% daquele montante aplicado se dirigiu a empresas da nova economia - informática, Internet, biotecnologia, medicina, «franchising». E menos de 10% foi para capital semente (financiamentos para o arranque) e apoio a 'start ups'(empresas nos seus primeiros dois a três anos).

As maiores fatias continuam a ir para o financiamento de MBO («management buy out», operação financeira que permite a tomada de controlo da empresa pelos seus quadros) e MBI («management buy in», operação que permite a tomada de controlo por quadros externos à empresa) em grupos e empresas maduras em reestruturação e para capital-desenvolvimento de médias empresas em geral em sectores de serviços ou indústrias maduras.

Este problema não é só europeu, mas o fosso é maior aqui que nos EUA, o que leva os americanos a fomentar o desenvolvimento de 'business angels'. São gente rica, bem sucedida em negócios de vagas de inovação anteriores, que avançam com capital semente, aconselhamento e apoio em áreas que eles próprios dominam.

Este grupo de financiadores dispendeu em 1997 o dobro do que gastaram as capitais de risco americanas. Segundo um estudo de Jeffrey Sohl, do Center for Venture Research da Universidade de New Hampshire, tido como um dos especialistas americanos no tema, deverão existir mais de 300 mil pessoas nesta actividade só nos Estados Unidos. Fora dos Estados Unidos, o Reino Unido é, na União Europeia, apresentado como modelo. Segundo a British Venture Capital Association, o número de 'business angels' deverá ter passado de cerca de 250 em 1994 para mais de 370 em 1997 e o montante por eles investido quase triplicou.

Colonizar o NASDAQ?

Uma das saídas para a debilidade europeia é a «colonização» do NASDAQ. A estratégia foi lançada por Philippe Pouletty, um empreendedor francês que maltratado no seu país partiu para o Silicon Valley e aí criou a SangStat Medical, que encheu os bolsos no NASDAQ americano.

Jacques Vallée, autor de Les Enjeux du Millénaire:Capital-Risque et Innovation (editado pela Hachette Littératures em Agosto de 1998), recomenda mesmo o truque de criar «holdings» e sedes para marketing global nos EUA, e particularmente no Silicon Valley e na Baía de São Francisco.

Nada que Philippe Kahn da Borland International ou a Intershop (lojas virtuais), criada por engenheiros da ex-Alemanha de Leste, agora com sede no Multimedia Gulch em São Francisco, não o tenham feito com sucesso. Mas, os especialistas nesta estratégia não são os europeus, mas os israelitas e os indianos, salienta Vallée.

QUATRO MITOS
segundo Jacques Vallée
1. Apoiar carneirinhos e não gazelas
Alimentou-se o mito de que o capital de risco pretende cultivar o «pequeno», a eterna PME idílica. Nada mais errado. O «small is beautiful» só serve para a inovação, para o começo, mas não para condenar a empresa ao raquitismo. O capital de risco dirige-se a gazelas e não a carneirinhos. «Será mais exacto dizer que a nossa acção - dos homens do capital de risco - se dirige às pequenas, e mesmo micro, empresas susceptíveis de se tornarem importantes rapidamente», refere aquele especialista. O objectivo é renovar o tecido económico e não perpetuar o domínio dos velhos dinossauros.

2. Não é a política industrial que amamenta o capital de risco
O capital de risco não pode, nem deve, depender das decisões de política industrial do Estado. Ele alimenta-se de uma rede que é formada por empreendedores, profissionais do capital de risco, 'business angels', banca de negócios especializada e analistas de tendências. Não se pode encarar o capital de risco como um financiamento de investimentos de 'relações' (o que os franceses chamam de 'copinage') ou como o berço de uma corte de novos empresários em torno dos ministérios em busca de subsídios.

3. Não se financiam invenções por mais brilhantes que sejam
O capital de risco também não financia as invenções, por melhores que sejam, saídas da cabeça de brilhantes académicos ou curiosos com engenho. Também não se deixa deslumbrar com as simulações financeiras (há-as para todos os gostos). O capital de risco financia sobretudo a equipa de gestão, a sua visão de mercado e da concorrência, o seu posicionamento estratégico original.

4. O capital de risco não é para-quedas
A actuação do capital de risco não pode ser a de chegar, deixar o cheque e ficar à espera de reaver a massa. Implica envolvimento no plano estratégico e de gestão.

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