A Vantagem Multicultural

O novo grupo Cap Gemini, depois da aquisição da área de consultoria da Ernst & Young, alcançou o quinto lugar entre os 10 maiores do aconselhamento
e serviços na área das tecnologias de informação, e considera ter uma vantagem distintiva sobre os concorrentes americanos - o seu multiculturalismo, apesar da sua origem francesa

Jorge Nascimento Rodrigues em Paris a convite da Cap Gemini Ernst & Young

Projectos de B2B | A Voz das Consultoras
Portais europeus em que a CGEY está envolvida:
Constructeo | Answork | Defence to Business

A digestão pelo grupo Cap Gemini da aquisição da área de consultoria da Ernst & Young (que se recentrou na auditoria) foi declarada concluída «com êxito» no princípio deste novo ano, segundo nos declarou Geoff Unwin, o inglês, de 58 anos, que hoje é o executivo máximo do grupo, ao lado do fundador Serge Kampf, o francês que em 1967 criou a Sogeti, um pequeno escritório em Grenoble de consultoria empresarial e de «tratamento da informação» que em trinta anos criou uma das principais empresas europeias globalizadas. A integração cultural e humana fez-se sem «sangue», o novo grupo conseguiu diminuir inclusive o «turn over» de pessoal e fez disparar o recrutamento (4000 novos quadros no 2º semestre de 2000), apoiado no efeito de atracção trazido pela aquisição.

«Foi a maior fusão na área e marcámos a agenda para o resto do sector da consultoria e serviços nas tecnologias de informação. Não temos necessidade de nos metermos noutra grande aventura do género. Não estamos interessados no tamanho pelo tamanho, mas sim no valor que possamos criar para o cliente e no valor criado por cada um dos nossos quadros», adverte este britânico que aos vinte anos era provador de chocolates (um quilo por dia) para a Cadbury, e que foi chamado por Serge Kampf para o leme das mudanças estratégicas que ocorreram no grupo desde 1992. «Não estamos obcecados em ser número 3 ou número 4 no ‘ranking’. Pode já não fazer sentido pensar assim. O nosso objectivo é claramente reforçar a liderança nalgumas áreas desta consultoria, como nas soluções de gestão da cadeia de fornecedores, no CRM (gestão da relação com o cliente), nos ‘eMarketplaces’», acrescenta.

Da esquerda para a direita: Pierre Hessler, Geoff Unwin (o actual CEO), Serge Kampf (o fundador) e Paul Hermelin
Da esquerda para a direita:
Pierre Hessler, Geoff Unwin (o actual CEO),
Serge Kampf (o fundador) e Paul Hermelin

Para um francês tradicionalista, o ambiente pode parecer surrealista. Com as janelas para a Place Étoile, de Paris, num inglês sem uma única palavra gaulesa, o líder executivo de um dos «champions» do empreendedorismo «hexagonal» fala da vantagem competitiva que advém de uma cultura plurinacional que é cultivada na Cap Gemini desde há muito. «Foi Serge que decidiu em 1986 tornar oficial no grupo a língua inglesa. Mas não somos dominados por nenhuma cultura em particular. A nacionalidade não conta. Além disso, este nosso multiculturalismo é vantajoso junto dos clientes», sublinha Geoff.

Os principais competidores são americanos de nascimento (IBM, EDS criada por Ross Perot, Accenture-ex-Andersen Consulting, e Computer Sciences Corporation) e cultivam uma cultura muito vincada de além-atlântico, segundo os homens da Cap Gemini. «Alguns dos nossos concorrentes estão muito próximos do estilo militar e domina uma monocultura. Nós temos a vantagem multicultural», esgrima, uma vez mais, o nosso interlocutor, que reclama, ainda, para o grupo «o papel de ponte entre os Estados Unidos e a Europa, e vice-versa».

Recentragem estratégica

A aquisição da área de consultoria da E&Y permitiu à Cap Gemini a subida de várias posições no «ranking» mundial (hoje está em 5 º lugar) e reforçar a quota de mercado em particular nos Estados Unidos e na Alemanha. Foi a consequência «lógica» de um conjunto de movimentos estratégicos prosseguidos particularmente desde 1997, quando o grupo Daimler Benz saíu do capital e a estrutura accionista da consultora se estabilizou em torno do seu núcleo duro (o fundador, um grupo industrial que entrou em 1989, a Compagnie Générale d’ Industrie et de Participations, os gestores e o público accionista, desde a entrada na Bolsa de Paris em 1985).

Nestes últimos quatro anos, o grupo reafirmou a sua focalização no negócio (e a recusa de qualquer tentação de diversificação), desenvolveu uma aliança estratégica com a Cisco Systems (que hoje detém 4,9% da unidade operacional de telecomunicações, media e redes do grupo), consolidou uma série de parcerias globais com multinacionais como a Microsoft, a Oracle, a Sun, a SAP, a Commerce One e a HP, e soube passar incólume pela ascensão e queda da vaga das «dot-com», explorando oportunidades de negócio de consultoria nomeadamente nas áreas do B2B (ver caixa).

Depois da «bolha»

Geoff Unwin vê inclusive na actual «limpeza» no universo «dot-com», a oportunidade de catalisar bons quadros. «Só na Suécia, captámos 50 pessoas de uma dot-com de uma só vez», exemplifica, referindo que a sua atenção vai sobretudo para os recursos humanos tornados disponíveis no mercado, mais do que para a aquisição de «dot-com» em saldo. «Olhámos 350 ‘dot-com’ em todo o mundo, e sinceramente só duas nos interessaram», conclui.

Aliás, a adequação ao «pós-crash» do NASDAQ fez-se rapidamente, garante, por seu lado, Richard Seurat, vice-presidente do grupo e responsável pelos novos mercados europeus (nas áreas do B2B, B2C e do ‘m-commerce’, o comércio electrónico sem fios).

«O que restou depois da ‘bolha’?», interroga-se este MBA do INSEAD e professor do HEC (uma das Escolas de Altos Estudos francesa). «Duas realidades novas: a da conectividade que veio para ficar e a de um novo tipo de cliente. O cliente mudou radicalmente», responde. «Isto levou-nos a integrar melhor a nossa oferta nos três campos da estratégia, das tecnologias de informação e dos processos de negócio, juntando as nossas competências dispersas pela Gemini Consulting, pela Cap e pela recém-adquirida área da Ernst & Young», explica Seurat. «Passámos a actuar integradamente com equipas de multicompetências», frisa este francês efusivo, que se despede com uma máxima: «É preciso ter cuidado com a arrogância, agora que estamos numa situação boa».

60 PROJECTOS NO B2B
A concepção e implementação de plataformas de B2B (comércio electrónico entre empresas) tornou-se um dos eixos estratégicos da oferta de serviços do grupo Cap Gemini Ernst & Young (CGEY). «Depois do esgotamento da vaga ‘dot.com’, desenvolveu-se, desde meados de 2000, uma oportunidade clara na Europa em torno do B2B, sobretudo para as grandes empresas», refere-nos André Cichowlas, o francês responsável por esta área. Redução nos custos, gestão dos processos numa cadeia de valor cada vez mais complexa, partilha de inovação entre parceiros, são vantagens claras para a associação dos grupos em plataformas neutrais de mercado deste tipo.
A CGEY está, por isso, envolvida hoje em 30 projectos na Europa e outro tanto nos Estados Unidos, mas a maioria dos casos não é divulgada publicamente, à excepção dos projectos emblemáticos, como o «vortal» (portal vertical, sectorial) da Constructeo, anunciado em Maio passado, ou os portais virados para o «e-procurement» (compras) na área designada por MRO (produtos e serviços para manutenção, reparação e operação). A função compras deste tipo de produtos e serviços, em média, representa, apenas, 10% das compras totais a fornecedores, mas implica 50% das encomendas, 80% do mosaico de fornecedores e 80% dos custos burocráticos do processo. A multinacional da consultoria de origem francesa tem cerca de 350 especialistas nesta área do B2B, 60% nos Estados Unidos e 40% na Europa.
O projecto de «eMarketplace» (na designação americana para este tipo de mercado digital entre empresas) mais falado é, de facto, o da Constructeo.com, que pretende tornar-se na plataforma europeia dos profissionais da construção e da engenharia civil e que dispõe de versões em cinco línguas comunitárias (inglês, francês, alemão, espanhol e italiano). Já «on-line», o «vortal» prevê começar a operar no próximo mês (Março 2001) e estima facturar 3 milhões de euros em 2001. Concebido pela CGEY, com base numa plataforma tecnológica da Commerce One, tem como principais parceiros os grupos Vinci (ex-SGE e agrupando a GTM, Suez-Lyonnaise des Eaux) e Eyrolles (editorial), a Méteo France, a Coteba Management, a Masai Consulting e o Bureau Veritas. Há adesões em curso em fase de finalização na Península Ibérica.

Veja a ferramenta de gestão de projecto da Constructeo aqui

O «vortal» da construção é dirigido por Bertrand Dumezy, um MBA de Harvard, ex-quadro da Bain, com experiência numa «dot.com» em São Francisco, na Califórnia. A Constructeo espera rentabilizar o seu modelo de negócio, a prazo, com base na ferramenta de gestão «on-line» de projecto de construção (consultável em www.projet-online.com), mais do que nas comissões sobre as transacções efectuadas pelos seus aderentes. A ferramenta de gestão já é usada em 17 projectos de construção no valor de mil milhões de euros. «Este género de apostas são para o longo prazo. Exigem uma visão a 5 ou 7 anos», frisa André Cichowlas, que admite que inclusive se venha «a avançar, no futuro, para a quase gratuitidade na facilitação das transações», uma evolução no modelo de negócio dos «eMarketplaces» já analisada em profundidade por um relatório muito polémico da Mercer Management divulgado na última edição do ano passado da revista Harvard Business Review e já comentado na Janela na Web.

Leia aqui para onde vai o B2B

A área das compras, no segmento específico dos produtos e serviços indirectos, gerou o envolvimento da CGEY em dois «eMarketplaces» horizontais dirigidos a essa função, e já publicamente anunciados. A criação do Answork.com (contracção das palavras inglesas answer e network), já operacional desde Outubro passado em www.answork.com, e que tem como accionistas, além da consultora, três instituições financeiras de peso na Europa - a BNP Paribas, o Crédit Agricole e a Société Générale.

Menos conhecido, mas mais original, foi o envolvimento no projecto do Ministério da Defesa britânico em torno do que foi designado por Defence Electronic Commerce Service, e que visa, nos próximos cinco anos, ganhos significativos nos custos envolvidos no processo de compras, uma melhor gestão logística na área militar e um ponto único de entrada para a panóplia de fornecedores. Fruto desse trabalho, foi já lançado o primeiro portal de «d2b» (defence-to-business, no acrónimo em inglês) na Europa, em www.d2btrade.com.

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