Riachos na logística ibérica

Primeiro porto seco a funcionar em Portugal

A 50 quilómetros de Santarém, numa pequena localidade ribatejana, o recém-inaugurado Terminal Multimodal do Vale do Tejo, de iniciativa privada, está a colocar a fachada atlântica portuguesa no mapa das redes transeuropeias de circulação de mercadorias

Jorge Nascimento Rodrigues numa iniciativa organizada pelo Terminal Multimodal
do Vale do Tejo (Portugal)

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DESTAQUES
  • O TVT é o primeiro terminal multimodal a ser instalado e a funcionar como porto seco em Portugal, com estatuto aduaneiro, com uma aldeia de frete (alfândega, notariado, transitários e outros serviços) e com uma zona de transferência modal com equipamento de movimentação adequado
  • O porto seco em Riachos (Golegã) permitirá uma redução até 50% do tráfego contentorizado por rodovia nas grandes áreas metropolitanas em direcção aos portos atlânticos, nomeadamente aos terminais marítimos de Lisboa
  • O exemplo do comboio-bloco semanal da Portucel Tejo de Vila Velha do Ródão, via Riachos, para os terminais marítimos de Lisboa desde Novembro de 2001 é um exemplo que pode ser "clonado" para outros grandes clientes ou de um modo multicliente e multiproduto
  • As prioridades estratégicas do TVT direccionam-se para a criação de um comboio-bloco diário para Madrid no segundo semestre de 2002, para o papel de interlocutor europeu dos portos secos do Brasil e como alternativa a Algeciras para atingir Marrocos
  • A fachada atlântica galaico-portuguesa deverá vir a ser servida estrategicamente por dois portos secos aduaneiros e multimodais de articulação com os principais portos marítimos (Sines, Setúbal, Lisboa, Leixões e Vigo) e com os eixos ibéricos de ligação terrestre à Europa (Madrid, Barcelona e Irún). Um dos portos secos já em funcionamento é o Terminal Multimodal do Vale do Tejo (TVT), de iniciativa privada e financiado pelo FEDER, localizado em Riachos, perto da Golegã e a 600 metros do nó ferroviário do Entroncamento, e o outro está, ainda, em projecto para localização em Salvatierra/As Neves na raia galaico-minhota por iniciativa estratégica de Vigo.

    «O TVT é uma realidade. Não é uma plataforma virtual desenhada num estudo», refere, com ironia, João Vinagre, vice-presidente do Conselho Português de Carregadores e director de logística da Portucel, que foi um dos participantes numa mesa redonda organizada em Riachos sobre esta plataforma logística. O projecto envolveu 15 milhões de euros aplicados em infraestruturas entre 1995 e 2001, com uma comparticipação da Comunidade Europeia, através do FEDER, de mais de 8 milhões de euros, que pretende posicionar o TVT como eixo português na rede transeuropeia de transportes.

    Vantagens imbatíveis

    A aventura de criar uma plataforma multimodal em Portugal nasceu na cabeça de Carlos Correia há 10 anos, depois de uma experiência como transitário da Somincor. «A empresa mineira tinha a sua logística assente em comboios diários e a questão era extrapolar o conceito para comboios multicliente e multiproduto a partir de um terminal que permitisse a multimodalidade», salienta o líder do projecto, que mobilizou 3 milhões de euros de investidores regionais e locais, desde a sua própria empresa (a Rianova), até à Agromais (Entreposto Comercial Agrícola, de Riachos), à Construtora do Lena, ao Operador Logístico de Parqueamento (de Riachos), à Câmara Municipal de Torres Novas, ao NERSANT-Associação Empresarial da Região de Santarém e a empresários de Riachos e Golegã.

    «O conceito-chave assenta precisamente no desenvolvimento destes comboios bloco com horários fixos de chegada e partida para circulação de mercadorias para a exportação ou importadas», adianta Carlos Correia. A primeira grande empresa a acreditar na vantagem competitiva deste conceito foi a Portucel Tejo, localizada em Vila Velha do Ródão. «Temos um comboio semanal de 19 contentores para o porto de Lisboa através do TVT onde é feita a consolidação», sublinha João Vinagre, que é um defensor absoluto da necessidade de descongestionamento dos eixos rodoviários urbanos e de reequilibrar o peso do uso da ferrovia em Portugal para a circulação de mercadorias «com ganhos claros de produtividade e no campo ecológico". "As cidades absorveram os portos e tem havido uma requalificação das frentes ribeirinhas. É absolutamente indispensável baixar a taxa de veículos pesados à entrada de Lisboa e circulando para os terminais marítimos», defende Carlos Correia. Para além deste efeito "urbano", a vantagem directa para o cliente, no caso já em funcionamento, rondará uma poupança de uns 20% nos custos de operação.

    Madrid no segundo semestre

    O exemplo do comboio bloco da Portucel pode ser "clonado", acentua o administrador do TVT. Um dos projectos prioritários é convencer investidores e autoridades espanholas e portuguesas no arranque de um comboio bloco diário multicliente e multiproduto de e para os portos secos de Madrid no segundo semestre deste ano. Este comboio poderia servir, numa primeira fase, de "canal" de exportação português tanto para negócios da Região Centro e do Vale do Tejo, como de chegada de exportações espanholas que tanto "massacram" actualmente as nossas rodovias.

    «Os transitários não querem estar prisioneiros de nenhum modo de transporte em particular. Por isso achamos fundamental encarar o alargamento do leque de opções para os nossos clientes», refere Rogério Alves Vieira, secretário-geral da APAT-Associação dos Transitários de Portugal, com mais de 260 associados. «Face às contingências europeias de restrições ao tráfego rodoviário, é importante encarar a multimodalidade», acrescenta, não deixando de sublinhar que «há, no entanto, ainda uma grande desconfiança em relação à ferrovia em Portugal por parte dos clientes, um aspecto crítico que teria de ser superado».

    Uma das articulações mais ambiciosas defendidas por Carlos Correia é o funcionamento do TVT em Riachos como placa giratória ligada em particular aos portos marítimos da fachada atlântica sul portuguesa, e nomeadamente com Sines, cuja estratégia é de ser um grande porto de transbordo internacional. «Muitas mercadorias vindas do Extremo Oriente que são descarregadas e desalfandegadas em Roterdão poderiam entrar pela fachada atlântica portuguesa 'poupando' 12 dias de percurso e burocracia», acentua, por seu lado, António Couto, da Pinto Basto Navegação. José Agulheiro, despachante oficial, sublinha as vantagens de Riachos dispor de estatuto aduaneiro facilitando as operações alfandegárias de "entrada" na Comunidade Europeia. A ideia de lançar um comboio bloco de Sines para o TVT não é peregrina - «já funcionam 30 comboios por semana de Sines para a central do Pego», refere o administrador do terminal.

    Porta atlântica da Europa

    Com esta ideia de ser "porta de entrada" na Europa, o TVT desenvolveu um relacionamento preferencial com a Associação Brasileira de Empresas Operadoras de Regiões Aduaneiras (Abepra), que envolve 43 estações aduaneiras do interior - e nomeadamente o grande porto seco de São Paulo com quem o TVT assinou um protocolo de cooperação em Novembro de 2001 - em 10 regiões fiscais do Brasil. A Abepra reconhece o TVT como seu "interlocutor europeu" para o relacionamento com a Europlataformas, que integra as plataformas logísticas da Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Itália e Portugal.

    Por outro lado, Carlos Correia "olha" para Marrocos como outro eixo estratégico. «Há uma clara oportunidade de desenvolver uma estratégia em direcção ao porto de Casablanca, como alternativa à congestionada placa rodoviária de Algeciras, nomeadamente para a área dos produtos frescos», conclui.

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