Alvin Toffler, o 'pai' da Terceira Vaga

A Europa continua a viver no passado

É o comentário preocupado do futurista americano mais conhecido, que não vê o nosso continente seriamente empenhado em cortar com o passado. Nesta entrevista, ele revela as suas duas 'paixões'. Um investimento massivo em novas formas de ensinar com vista a uma população mais educada e numa infraestrutura electrónica e comunicacional são as duas condições básicas para uma estratégia baseada no conhecimento. É este o desafio que as Nações e os grandes blocos terão no próximo século. Eis um dos temas do seu próximo livro, que só sairá depois da poeira do milénio assentar

Jorge Nascimento Rodrigues em Los Angeles

Alvin Toffler Alvin Toffler tem hoje 70 anos e prepara-se para, depois de passado todo o 'barulho' do milénio, nos voltar a surpreender, com uma obra cujo título ainda está no segredo dos deuses, mas cujo miolo essêncial ele nos revelou nesta entrevista exclusiva realizada na cidade californiana onde agora vive. O que o preocupa, nos conturbados tempos que correm, é a transição complexa que a parte mais substancial do planeta, onde ainda campeia a pobreza em massa, vive num momento em que a nova economia e sociedade baseadas no conhecimento não são mais uma coisa do futuro. Basta olhar para o que se passa nos 'grandes' a Oriente, a Rússia ou a China.

Também, a Europa lhe mereceu um comentário preocupado. Por detrás da euforia do euro, ele continua a ver um Velho Continente que resiste a mergulhar decididamente na Terceira Vaga. Se se lhe perguntar uma marca europeia símbolo desta vaga, ele apenas se lembra da SAP AG, a multinacional que dá cartas no software empresarial.

Toffler tornou-se uma referência para a geração da 'terceira revolução industrial' quando cunhou com sucesso em 1980 o slogan da 'Terceira Vaga' na obra que definitivamente o colocou como um dos futuristas mais respeitados no mundo.

O ritmo de escrita do casal Toffler - a dupla Alvin e Heidi, faz ele questão de sublinhar, depois de nos anos 90 ter retirado a mulher da retaguarda da sua fama - conta-se por décadas. Para os mais impacientes, são esperas longas. Mas ele não abdica de 'mastigar' com tempo as tendências. Esta é também uma entrevista com uma longa história de espera. Não de uma década, no entanto. Desde a publicação de «Guerra e Anti-Guerra» pelo casal, que tinha sido prometida, há mais de cinco anos em Nova Iorque. Diversos contratempos na vida familiar dos Toffler, a vieram adiando. «Perseverança, é uma das virtudes do jornalista», recorda-nos Alvin, que sublinha que ele «próprio foi jornalista» e «sabe como essas coisas são».

Finalmente, o encontro - certamente não de terceiro grau - deu-se em Los Angeles, sendo necessária uma palavra de agradecimento ao apoio logístico dado por Jack Nilles, o 'pai' do teletrabalho, que também já não se encontrava pessoalmente com o futurista há mais de uma dezena de anos.


Os mais impacientes já desesperam. Quando é que sai a sua próxima obra de vulto, dentro da sua estratégia de só publicar ao ritmo da década?

ALVIN TOFFLER - Vão ter de se impacientar ainda mais um pouco. Estou a trabalhar nela, mas de acordo com o meu editor chegámos à conclusão de que vai haver muito barulho em torno do milénio. Por isso, não creio que a publicarei antes de 2001; só depois da poeira assentar.

Mas pode-nos desvendar um pouco do que anda a investigar?

A.T. - Tenho andado concentrado no problema das pré-condições sociais e culturais para a criação de Riqueza nos novos tempos. Estes processos são complexos. Não são simples, como o julgavam, por exemplo, os responsáveis ocidentais quando chegaram à ex-URSS com os seus planos para implementar o mercado. Descobriram, agora, aterrados, que faltavam ali condições básicas, como um sistema legal. E o monstro que criaram nada tem a ver com o que julgavam estar a 'transplantar'...

De facto, a oriente da Europa estão em curso as mais massivas transições de sistema, os problemas mais complicados para o Planeta nos próximos anos. Está optimista?

A.T. - Não é fácil estar optimista. A Rússia é um autêntico caldeirão em ebulição: fascismo emergente, armas nucleares táticas à mão de semear, capitalismo selvagem... Tem todos os ingredientes à superfície para estoirar por isto ou por aquilo. Na China, por seu lado, está em curso uma revolução ainda mais profunda do que a comunista liderada por Mao Ze Dong, e que os dirigentes chineses querem levar a cabo com estabilidade. Será, sem dúvida, espantoso se o conseguirem fazer! Mas se a Ásia conseguir tirar da pobreza 1 bilião de pessoas será algo jamais visto na História da Humanidade.

Então, no fundo, tem esperança na Ásia?

A.T. - Ao contrário do que hoje é moda dizer-se, eu penso que a Ásia não está acabada. Nos meus livros eu tinha antecipado muita turbulência e aventei que o próprio crescimento económico ininterrupto poderia parar. É claro que ninguém sabe o futuro, mas eu tenho esperança que a Ásia regressará. Há uma tremenda energia no seu «subsolo» - os recursos humanos continuam lá. Há um núcleo duro que não foi liquidado, que continua a trabalhar para o futuro. Sinceramente, acho que o Fundo Monetário Internacional tem as mãos manchadas de sangue na Ásia. Não percebeu nada do que lá se passava.

E sobre a Europa?

A.T. - Eu também gostaria de saber o que se vai passar. Depois da Segunda Guerra Mundial, o propósito da integração era político. Mas, na minha terminologia, isso não foi acompanhado devidamente por um mergulho na Terceira Vaga. A Europa continua sem a descobrir, de verdade, ao fim destes 50 anos. Se me falar de marcas europeias da terceira vaga, só encontro uma excepção - a SAP AG. O resto, lamento dizê-lo, está morto e bem morto. A vossa comunidade política e mesmo empresarial, por muito duro que isto custe a ouvir, continua a viver essêncialmente no passado. A estratégia implícita dos vossos governos ou mesmo da burocracia em Bruxelas continua a ser esta: alimentar a primeira vaga, ou não tenha o 'lobby' da agricultura um peso enorme; apoiar a segunda vaga, de modo que empresas que não são competitivas sobrevivam; e ignorar, em larga medida, os empreendedores da terceira vaga.

Mesmo no discurso político vê assim tanto conservadorismo, ou isso é mais uma reacção epidérmica anti-europeia tipicamente americana?

A.T. - Que quer que lhe diga? Mesmo no plano político, eu creio que se cometeu um erro grosseiro na Europa. Marginalizaram-se os críticos lúcidos da esquerda e do centro. A única presença crítica - essa ainda mais retrógrada - é a da extrema direita. O que é péssimo. Os vossos políticos continuam a andar embevecidos com o euro, mas depois dos primeiros dois ou três anos vão cair em si. Acho mesmo que alguns políticos europeus já estão a ver o problema. Percebem o que se passa, só que não conseguem dar os passos necessários, porque as clientelas não deixam. A terceira vaga significa mudança, mudança profunda, e muita gente, com poder e previlégios, não a quer.

Voltando, agora, aos seus livros. Tem-nos dado um livro marcante por década. Mas, depois de «Powershift» («Mudança no Poder»), saído em 1990, surpreendeu-nos com mais duas obras de permeio, uma delas «Guerra e Anti-Guerra» (em 1993), publicada, aliás, muito a propósito...

A.T. - Decidimos escrever esse livro - «Guerra e Anti-Guerra» - na noite em que Bagdad foi bombardeada pela primeira vez na Guerra do Golfo. Ao vermos aquilo na TV lembrámo-nos: este novo tipo de guerra que estava ali a projectar-se à frente dos nossos olhos, foi o que havíamos discutido mais de uma dezena de anos antes, quando um grupo de generais americanos tinha começado a ler o nosso livro «A Terceira Vaga» e pretendia aplicar aquelas ideias aos assuntos militares. Na altura, um grupo de generais, liderado por Donn Starry, pretendia reconceptualizar a guerra em termos da nossa terminologia de terceira vaga, e um dos elementos dessa equipa, encarregado da parte doutrinária, Don Morelli, foi buscar-nos ao elevador do Hotel Quality Inn às 7,30 da manhã de 12 de Abril de 1982, para nos levar ao Pentágono. Assim começava a mudança para uma doutrina de «guerra da terceira vaga», em que o saber passava a estar no centro das operações. Foi essa história que contámos desenvolvidamente nesse livro. Agora, os militares, em todo o mundo, têm vindo a estudar o problema.

Trinta anos depois, o que é que reescreveria em «O Choque do Futuro»?

A.T. - Não mexeria nos argumentos básicos - a ideia de mudança, a economia baseada no saber, o papel da tecnologia. O que eu, talvez, reescrevesse era a parte mais económica. Eu não me tinha libertado ainda da influência da arrogância de muitos economistas ocidentais naqueles anos 60. Eu, neste campo, não fui suficientemente radical. Os economistas julgavam que não haveria mais recessão - o mester da economia era apenas 'afinar' o andamento. Mal adivinhavam o que se passaria logo a seguir - com a crise do petróleo, por exemplo.

Olhando, agora, para o futuro, que choques é que estamos já a sofrer? Por exemplo, a Internet, agora tão badalada, que choque nos traz?

A.T. - Veja bem, eu estava entre o punhado de, talvez, 700 que, nos anos 70, já usava aquela forma de comunicação para desenvolver um enormissimo trabalho colaborativo. Eramos uma pequenissima comunidade, na altura. Depois, no final dos anos 80, os «media» descobriram a Internet. A ideia que foi dada, por vezes, a partir daí, é que antes não existia nada, que a Net teria surgido do nada, subitamente. Obviamente que não foi assim. Desde o princípio, que estavamos convencidos que se tratava de algo que iria revolucionar totalmente as instituições, como a família, a finança, o comércio, os próprios «media». Agora, dizer isto já é puro «cliché». Eu creio que a Net não vai só revolucionar o trabalho e o comércio. A casa, a nossa casa, o sítio onde vivemos, é um local emergente. É como que um regresso, dialético, à fase pré-industrial.

E existe, de facto, uma nova economia, ou trata-se, apenas, de jornalismo também?

A.T. - Tem havido uma caricatura de debate sobre o problema. De um lado, há os 'puristas' que dizem que nada há de novo, e que o que se passa com as acções do «hi-tech» é uma loucura injustificada. Do outro, há os arautos da nova economia, que tendem a defender um optimismo ingénuo, um crescimento incessante sem parar. Penso que ambos os lados estão errados. Que há uma nova economia, isso há! Mas é ingénuo pensar-se em estabilidade contínua, quando a realidade é pura turbulência. Acreditar numa curva ascendente indefinida é tolice. A questão essêncial é desenvolver uma estratégia baseada no saber - uma estratégia nacional. E era aí que se deviam concentrar os esforços de debate.

O que é que quer dizer com essa necessidade de se desenvolverem estratégias nacionais baseadas no saber?

A.T. - Todos os negócios já falam disso, E até os militares, como referimos atrás, estão cientes há muito da necessidade de estratégias baseadas no saber. O que é preciso, agora, é que os países pensem a nível nacional em estratégias desse tipo. A meu ver, há dois pilares fundamentais para uma tal estratégia: uma melhor educação e uma boa infraestrutura electrónica. Temos necessidade absoluta de novas formas de ensinar, em que têm de ser envolvidos os próprios «media», os computadores, o saber distribuído, as famílias, os professores, os consultores, etc.. Quero dar-lhe um exemplo que acho extraordinário do envolvimento positivo dos «media» no novo tipo de ensino - a TV Globo, a propósito dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil pelos portugueses, vai lançar um projecto de educação dos brasileiros, sobretudo dos jovens.

A TRILOGIA QUE CONSAGROU OS TOFFLER
  • Future Shock, editado pela primeira vez em Julho de 1970, pela Random House, nos Estados Unidos. Escrito ainda na era pré-computador pessoal lançou a ideia de um «choque» profundo em curso trazido pela tecnologia. Foi redigido com base numa investigação feita desde meados dos anos 60. Disponível em reedição em «paperback» em 1991 (compra do livro)
  • The Third Wave, editado em 1980. Lançou o «slogan» da «terceira vaga» e dividiu a história humana até à data em três vagas: a primeira que correspondeu à revolução agrária, a segunda baseada na revolução industrial, e a terceira nascida desde o final da Segunda Guerra Mundial baseada no conhecimento. É a obra mais conhecida do autor e que o consagrou como futurista. Disponível em reedição em «paperback» em 1991 (compra do livro)
  • Powershift, editado em 1990 pela Bantam Books. Veio completar as duas obras anteriores falando agora das mudança no poder, com a emergência de novos poderes globais distintos do Estado-Nação. Disponível em reedição em «paperback» em 1991 (compra do livro)

    DEPOIS DA TRILOGIA
  • War and Anti-War, editado em 1993 pela Little, Brown and Co. Veio definir uma nova doutrina da guerra. Uma obra de referência para os políticos e o mundo militar. Disponível em reedição em «paperback» em 1995 (compra do livro)
  • Creating a New Civilization: The Politics of the Third Wave, editado em 1995. Completa a visão política do autor sobre a civilização emergente.

    EDIÇÕES EM PORTUGUÊS
    Colecção Vida e Cultura dos Livros do Brasil
  • Nº  44 - O Choque do Futuro
  • Nº 104 - A Terceira Vaga
  • Nº 121 - Os Novos Poderes