LESTER THUROW em directo

A economia «.com» é pura lotaria

Caricatura de Lester Thurow O economista de maior nomeada do Massachusetts Institute of Technology pode parecer um desmancha-prazeres para a maioria dos leitores embalados com a nova economia. O ex-reitor da Sloan School of Management (entre 1987 e 1993), professor de gestão e economia em Cambridge (Boston), não deixa por mãos alheias dizer a verdade nua e crua.

Este é o mundo da economia vista por ele, neste começo de 2000. Não poupa também os europeus, que considera andarem a combater alguns fantasmas do passado (a inflação) e só vislumbra a Nokia como excepção europeia digna de registo no mundo da nova economia global.

O seu mais recente livro - Criando Riqueza, As Novas Regras para as Pessoas, as Empresas e as Nações numa Economia Baseada no Saber (Building Wealth, abreviadamente no original, apresentado em www.lthurow.com e resumido na revista «Executive Digest» de Dezembro de 1999) - já foi considerado a nova «Bíblia», à altura de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, na sua época. Mas isso seria, certamente, considerado por ele típico exagero jornalístico. É pura lotaria saber-se hoje quem vai marcar a doutrina económica dos próximos anos.

Esta mais recente obra é o desenvolvimento de um dos capítulos do seu anterior livro, The Future of Capitalism, a que nos referimos aquando do seu lançamento em 1996.

Uma versão adaptada da entrevista foi publicada no Expresso de 15 Janeiro de 2000

Jorge Nascimento Rodrigues com Lester Carl Thurow

 OBRAS ANTERIORES COMENTADAS NA JANELA NA WEB 

LINKS A SEGUIR
Apresentação de Building Wealth | Encomenda de Building Wealth
 Resumo do livro na Executive Digest de Dezembro 99 | 13 Regras de Ouro 
Confidências de Thurow - como a Web mudou a minha vida

ENCOMENDA DE OBRAS ANTERIORES

Lester Thurow Apesar da emergência da «revolução digital» e do declínio da palavra «industrial», o professor foi desenterrar a expressão da «terceira revolução industrial». Porquê?

LESTER THUROW - Credo, a terceira revolução industrial não é assim tão «velha» quanto isso! Não creio que tenha ouvido alguém falar dela antes dos anos 90... A 3ª Revolução Industrial é a transição para a economia baseada no saber.

E retomou, também, esse conceito da economia baseada no conhecimento, em que Peter Drucker insistiu na última década. Porque não usa expressões mais na moda como «economia digital» ou «sociedade da informação»?

L.T. - Por uma razão simples - muitas das indústrias baseadas no conhecimento, como a biotecnologia, os novos materiais artificiais criados pelo homem e a robótica, não são indústrias da informação. Não vamos misturar alhos com bugalhos.

Se o chamado paradoxo da produtividade, «descoberto» por Solow, continua a fazer das suas ainda hoje, que «revolução» tivemos nós nestes últimos 25 anos, desde a criação do primeiro computador pessoal, que não conseguiu melhorar o processo de trabalho?

L.T. - O problema é que a revolução da computação não parece estar a gerar ganhos de produtividade no sector dos serviços. Este sector tem ainda níveis de produtividade muito abaixo dos atingidos no sector de produção industrial, por mais estranho que isto pareça. A indústria - espantosamente - teve um recorde de crescimento de produtividade nos anos 90.

A alta capitalização do mundo «.com» é pura especulação, ou é, na verdade, o reflexo de uma nova economia emergente, que necessita de dinheiro fresco para crescer rapidamente e de investidores que acreditem no novo «Graal»?

L.T. - Meu caro, para mim é pura lotaria! Hoje há mais de 145 intermediários financeiros na Internet - dentro de 20 anos haverá quantos? Dois! Compre estes dois e sair-lhe-á a lotaria. Compre os outros e perderá uma fortuna. As pessoas não compram os bilhetes de lotaria, mesmo sabendo que perderão, em média, dinheiro?

Mas que tempos são estes, quando a revista TIME considera Jeff Bezos - o fundador da Amazon.com - o Homem do Ano de 1999?

L.T. - O da possibilidade de se ficar rico e famoso sem muito investimento à cabeça.

Os empreendedores são o sangue das revoluções económicas, os principais agentes de mudança, como refere na sua obra. O professor afirma que eles são verdadeiros artistas a explorar o «desequilíbrio». Isso é uma flor de retórica, ou significa o quê exactamente?

L.T. - Basicamente, são gente que assume riscos e que não recusa falhar - ponto final. Nos Estados Unidos, 8 de cada 10 novas empresas financiadas pelo capital de risco desaparecerão em cinco anos. Muita gente não tem estômago para pagar o preço desse falhanço. Outros têm - os empreendedores.

Mas se a sorte é o ingrediente de último recurso dos empreendedores, como diz no seu livro, para que servem a estratégia, a gestão, a aprendizagem, a persistência e o talento? Será que não poderemos «manufacturar» um pouco de sorte?

L.T. - Tudo bem, você precisa de todas essas boas qualidades, mas também precisa de sorte. Muita gente falha por puro azar. Os «media» não falam dos 80% que falham, só dão voz aos casos de sucessos, e, por isso, a meu ver, pintam um quadro enganador.

Se o saber é o novo ouro do próximo século, como é que os detentores dele - os competentes, que o têm na cabeça - podem garantir a sua propriedade intelectual em relação às empresas ou aos piratas da Web?

L.T. - Essa é a grande questão para o próximo século. Hoje, ainda não há resposta para isso. Na realidade, você não consegue proteger os seus direitos de propriedade intelectual.

Das 13 regras que coleccionou sobre a nova economia, qual delas o intrigou mais?

L.T. - Não uma, mas duas. A necessidade dos grandes negócios actuais «canibalizarem» os seus velhos negócios. Depois, o facto da criatividade requerer algum caos.

No estudo que fez sobre a nova economia, o que é que o surpreendeu mais?

L.T. - A forma como as revoluções surgem inesperadamente, sem ninguém as prever, sem pré-aviso. A Internet não era imaginada como um sistema comercial antes de 1995, apesar de existir desde a ARPA em 1968.

Falando, agora, de política económica. A inflação é melhor do que a deflação? Os europeus, com a sua prevenção maníaca contra o «monstro» da inflação, estão completamente errados?

L.T. - Absolutamente. Continuam a combater nas guerras de ontem. A tecnologia está a forçar uma baixa de preços em 40% da economia. A austeridade pura e simplesmente não é necessária.

Mudando de agulha. A geo-economia é um dos seus temas preferidos. Como é que vai ser o século XXI no plano geo-económico? Que é feito do «século da Ásia» tão glosado nos anos 80 e mesmo 90?

L.T. - A Ásia mergulhou numa crise financeira que não consegue domar. Também não é muito boa em ser pioneira em novas tecnologias. A Ásia tem sido muito boa a melhorar paulatinamente tecnologias maduras a uma taxa de crescimento de 1 a 2 por cento ao ano.

A China será a futura super-potência, como nos asseguram todos os horóscopos prospectivos, ou não passa de um tigre de papel em relação à economia baseada no conhecimento?

L.T. - Poderá ser uma super-potência militar, mas em termos económicos é um anão - é 1/15 do poder económico do Japão. Essa é que é a verdade.

O que é que está errado com a Europa? Não será a Escandinávia uma Europa diferente em termos de nova economia?

L.T. - Não creio. A Nokia é uma excepção, mas não o resto da Escandinávia. O problema com toda a Europa é a cultura social existente que dificulta ser-se empreendedor.

Como a minha vida mudou (ou não) com a Web
Como é que a massificação da Net e da Web mudou a sua vida académica e pessoal?

LESTER THUROW - O correio normal praticamente foi eliminado a favor do correio electrónico. Também deixei de ir tantas vezes à biblioteca, como o fazia dantes - imensa informação está disponível na Web.

Como tem sido a sua experiência de membro da administração da famosa E*Trade?

L.T. -- Tem tido imensa piada. Sobretudo, ver os problemas que decorrem do crescimento rápido - em que não há um minuto para as pessoas aprenderem as competências que precisam. A questão central é onde e como descobrir os talentos necessários.

Tem uma conta na E*Trade, a partir da qual investe?

L.T. - Faço algum investimento electronicamente, mas não todo.

A revolução financeira, que entidades como a E*Trade estão a provocar, vai tornar obsoleto o sistema bancário tradicional?

L.T. - Não todos os bancos, mas muitos.

O NASDAQ vai ultrapassar o NYSE?

L.T. - Duvido. O próprio NYSE vai avançar para o electrónico brevemente.


TREZE REGRAS DE OURO
Não dão azar. Dão sorte na nova economia., segundo garante o guru do MIT.
  • O empreendedor vê oportunidades e investe em situações em que há grande desequilíbrio
  • Saber canibalizar o seu próprio «velho» negócio de sucesso é uma das artes. Se o não fizer, alguém fará por si
  • A aquisição de saber básico e de competências por toda (mesmo TODA) a força de trabalho é fundamental
  • O segredo é descobrir os negócios em que podemos alavancar os nossos recursos e em que as nossas fraquezas são irrelevantes
  • Se você for político, e tiver de optar hoje entre a mesma taxa de inflação ou de deflação , não hesite - escolha a inflação
  • Não há substitutos para os empreendedores - por mais que os europeus o queiram
  • Uma sociedade que exagera na ordem, nunca será criativa. Mas sem um certo grau de ordem, a criatividade também vai pelo cano abaixo
  • Investir na investigação básica é sempre lucrativo, a prazo, para a economia. Nunca «poupe» aí
  • No capitalismo do saber vai ser preciso saber quem possui e quem controla os direitos de propriedade intelectual
  • O problema nesta nova economia é (querer) ter um carreira profissional num sistema em que pura e simplesmente não há carreiras
  • Só os interessados no futuro criam novas ferramentas realmente úteis
  • Economia e progresso ambiental são sinónimos
  • Ter sorte é preciso. Talento, orientação e persistência não chegam
  • Página Anterior
    Canal Temático
    Topo da Página
    Página Principal