Os temporários de ouro

Os CEO aguentam-se cada vez menos tempo à frente das empresas, tal como os políticos nos governos, diz um estudo mundial da Booz Allen Hamilton. A Europa é onde a rotatividade é maior.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Julho 2005

Artigo de referência:
The Rise of the Temp CEO, Strategy+Business, number 39, Summer 2005

IDEIAS EM DESTAQUE
PIOR NA EUROPA
  • A continuada recessão ou fraco crescimento na Europa agrava a precariedade dos CEO
  • As grandes empresas europeias estão mais expostas à globalização e por isso os CEO são mais vulneráveis aos altos e baixos da conjuntura geo-económica
  • Houve uma guinada mais acentuada na Europa nas práticas de governança empresarial em termos de activismo accionista e entidades supervisoras
  • Um CEO europeu demitido por performance abaixo do esperado aguentou-se em média apenas dois anos e meio à frente da empresa
  • Em 2004, 42% das sucessões de CEO na Europa estiveram ligadas à performance, enquanto que nos EUA essa percentagem foi apenas de 31%
  • São os mais célebres "temporários" dos tempos actuais. São os precários de luxo. Os CEO (directores-executivos das empresas) ficam, agora, no cargo das empresas cotadas cada vez menos tempo - em 1995 conseguiam fazer quase 9 anos em média, mas em 2004 já só se aguentavam 6,6 anos. Se for analisada a geo-distribuição, as disparidades começam a surgir. Na Europa, um CEO saído em 2004 esteve no poder, em média, 5,6 anos, enquanto que nos Estados Unidos se aguentou 8,8 anos. Pior que a Europa mas médias só a Ásia, com apenas 5,5 anos. Em geral, o estudo revela que os CEO que são demitidos pelos accionistas especificamente por razões de má "performance" estão em exercício por um período ainda mais curto e precário do que o dos políticos nos governos.

    O estudo da Booz Allen Hamilton revela que os CEO que são demitidos pelos accionistas especificamente por razões de má "performance" estão em exercício por um período ainda mais curto e precário do que o dos políticos nos governos.

    Em 10 anos, a rotatividade no posto de CEO aumentou de 300%, segundo o "survey" anual sobre sucessões de directores-gerais realizado pela consultora norte-americana Booz Allen Hamilton (BAH) junto das 2500 maiores empresas cotadas do mundo (em termos de capitalização bolsista),e agora publicado na edição de Verão da revista Strategy+Business editada por aquela consultora. A rotatividade é mais elevada na Europa (16,8%) e na Ásia (16,4%) do que nos EUA (12%). Na Europa há que destacar a Alemanha e o Reino Unido nos dois últimos anos. Se analisarmos, a rotatividade ligada exclusivamente a má performance, então verificamos que a Europa atingiu 7% em 2004 - um valor recorde, apenas comparável aos 6% dos EUA no ano do "crash" de 2000.

    Activismo ignorante

    Esta precariedade do lugar é atribuída a uma guinada excessiva nas "boas práticas" de governança empresarial que provocaram uma viragem exagerada para um "activismo ignorante" por parte dos accionistas, particularmente na Europa, nos últimos anos, no dizer do relatório. Reformas como a da Comissão Tabaksblat na Holanda (final de 2003) ou do Relatório Higgs no Reino Unido (princípio de 2003) teriam tido a sua quota-parte. Segundo o estudo, a Lei Sarbannes-Oxley nos EUA (2002) ainda não está a influenciar a rotatividade nas grandes empresas americanas. O momento auge da "limpeza" de CEO com baixa performance na América foi em 2000 - na Europa parece ter sido em 2004 e na Ásia (excluindo o Japão) em 2002. O estudo sublinha, mesmo, que "a rotatividade ligada à performance dos CEO europeus atingiu um recorde de intensidade em 2004, com o mais alto grau de substituição forçada entre as regiões do mundo e durante a série de anos estudada".

    "Creio que o pêndulo oscilou demasiado. O nosso estudo indica que os CEO na Europa demitidos por má performance aguentaram-se no poder apenas dois anos e meio. Do nosso ponto de vista é muito pouco tempo para poderem desenvolver e implementar uma qualquer estratégia na empresa e obterem resultados", afirmou-nos Rob Schuyt, vice-presidente da BAH em Amsterdão, e um dos responsáveis pelo estudo. "O delicado equilíbrio entre a direcção executiva e as entidades de supervisão foi, também, afectado. O que tornou os supervisores ainda mais avessos ao risco e daí mais inclinados a demitir o CEO ao menor sintoma de performance que lhes pareça abaixo do esperado", acrescenta.

    «Os CEO estão agora mais do que nunca tentados a focalizarem-se no curto prazo, mais do que em apostar no longo prazo. A questão é saber se isto é bom para a criação sustentada de valor para os accionistas. É claro que não.»

    O comportamento "político-eleitoral" dos directores-gerais das empresas tende, assim, a instalar-se. "Os CEO estão agora mais do que nunca tentados a focalizarem-se no curto prazo, mais do que em apostar no longo prazo. A questão é saber se isto é bom para a criação sustentada de valor para os accionistas. É claro que não", conclui Schuyt.

    O estudo alega ainda que a separação das funções de presidente e de CEO, em geral, reduz o retorno para os investidores, sobretudo quando o presidente é um ex-CEO. E que os "insiders" (os CEO escolhidos de dentro da organização) tendem a ter uma performance global superior aos "outsiders", se for analisado globalmente o período estudado pela BAH de 1995 a 2004. Por exemplo, na Europa, em 2004, os "de dentro" levaram uma vantagem de 6%.

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