Uma ponte para o mercado global nos moldes

Ao fazer trinta anos, o «broker» mais respeitado do sector dos moldes para plásticos, faz o balanço das suas estratégias empresariais

Reportagem de Jorge Nascimento Rodrigues na Tecmolde

curandel Tecmolde É o «broker» mais antigo na indústria de moldes para plásticos do país. A Tecmolde faz agora trinta anos e movimenta actualmente por ano um volume de encomendas de uns 6 milhões de contos num sector que facturou 45 milhões em 1997. O seu líder, António Santos, hoje com 54 anos, é tido por muita gente, dentro e fora do país, como um dos «gurus» do sector.

A empresa que ajudou a fundar na Marinha Grande em 1968 é poupada por todos os fabricantes da crítica mordaz que se faz a muitos dos «intermediários» que pululam no sector, gente que com uma secretária, um telefone, um fax e alguns almoços tem deixado mossa entre os fabricantes (vítimas de calotes) e uma péssima imagem no estrangeiro (clientes sem moldes que não voltam a bater-nos à porta).

A Tecmolde (tecmolde@tecmolde.pt), bem pelo contrário, é considerada uma das «catedrais» do conhecimento naquela indústria e a sua designação de «Centro Técnico» é simbolicamente representativa da oportunidade de negócio que, há trinta anos, António Santos «descobriu».

Três ingredientes básicos

Técnico de desenho na sua juventude, ele trabalhou durante seis anos como gestor de projecto numa fábrica de moldes, até que se lhe desenhou na cabeça o negócio da sua vida. O sector de fabrico era muito atomizado e a bagagem técnica era sobretudo ligada «à limalha», ao trabalho do aço no fabrico do molde. Faltava também a capacidade de negociar no mundo. Ele diz hoje que conseguiu reunir na empresa três ‘ingredientes’ básicos: o perceber efectivamente de moldes, o saber línguas, e a arte de negociar.

A Tecmolde «nasceu para fazer várias pontes, dentro do sector e com os clientes de exportação, com o mercado global», afirma-nos António Santos, acabado de chegar da Rússia, donde trouxe provavelmente a encomenda do molde mais caro (780 mil dólares) da história do sector em Portugal, e à beira de partir para o Brasil, o mercado emergente, na moda entre os nossos industriais.

«A empresa especializou-se na intermediação internacional, na gestão de projectos e de redes de subcontratantes, no controlo da qualidade, na engenharia e na concepção dos moldes, o que vinha trazer um valor acrescentado real ao sector», frisa o nosso interlocutor.

Gerir informação e redes

Pedro Colaço, director-executivo, e António Santos, fundador Com uma carteira de 500 moldes por ano «sem fazer uma limalha dentro da empresa», o negócio central da Tecmolde é «gerir informação e redes», acentua o seu presidente. As redes são, de facto, uma das suas originalidades de gestão.

Mantém uma rede muito seleccionada de 68 fabricantes na região da Marinha Grande, que conhece como a palma das mãos. Diz António Santos: «Sabemos quem fabrica o quê e como, ao ponto de termos uma noção de que é fulano ou sicrano que pode finalizar o molde em dada fábrica, o que nos dá muita segurança na distribuição das encomendas».

Mas não cai na tentação de transformar esta rede num portfolio de participações. «Actuamos como entidade independente junto dos fabricantes. Somos como que ‘representantes’ dos clientes. A nossa política é conseguir que se façam os moldes na perspectiva do utilizador, como agora se diz. Por isso, nunca pretendemos criar um grupo com participações nos fabricantes. Isso até seria extremanente fácil», conclui o raciocínio.

O sistema que instituíu é de «parceria». «Nós pretendemos que eles fabriquem e evoluam. E não que morram. Não praticamos o esmagamento de preços, o sufoco das margens deles», refere-nos. Em períodos dificeis, a Tecmolde chega a actuar como desbloqueador de ‘crises’ junto dos bancos.

Por outro lado, mantém uma rede de 20 desenhadores de moldes, que são independentes. «Os melhores desenhadores do mercado trabalham por conta própria, em casa, toda a gente sabe isso», refere o nosso interlocutor. E, com um sorriso, acrescenta: «Nós até estimulamos os bons desenhadores a montarem o seu próprio negócio. O que nós não prescindimos é de verificar todas as fases do nosso desenho»,

O conceito de rede é, também, estendido para dentro da Tecmolde. Um grupo propriamente dito está a nascer da autonomização de competências da empresa.

Criou a PDesign para o design, a prototipagem rápida e o fabrico de pequenas séries, hoje em dia aspectos críticos para dar uma resposta rápida aos pedidos dos clientes. «Dá-nos imenso gozo ver a expressão de admiração lá fora. Ficam incrédulos quando em três dias ou menos podemos apresentar um protótipo com envio de ficheiro por correio electrónico e a possibilidade de visualização tridimensional pelo cliente», explica-nos Pedro Colaço, de 30 anos, que passou por um curso profissional de projecto de moldes, e que é hoje o jovem director executivo da Tecmolde. É considerado o braço direito de António Santos e serve-nos de cicerone na visita ao grupo.

Depois, a nível do ensaio de moldes, criou-se a Sistec, que «está inclusive aberta à concorrência». O ensaio é outro ponto crítico do processo, segundo este responsável: «Nós simulamos o ambiente de trabalho das instalações do cliente, usando equipamentos idênticos e os materiais exactos. O molde a entregar ao cliente tem de ter a qualidade certa para estar pronto a funcionar em pleno».

António Santos admitiu-nos inclusive a possibilidade de vir a autonomizar, no futuro, os sectores do controlo de qualidade e do projecto do molde, hoje ‘dentro’ da Tecmolde.

O segredo do planeamento

controlo de qualidade Outro segredo do êxito alcançado pela empresa foi o desenvolvimento de um software de planeamento muito minucioso que permitiu encurtar drasticamente os prazos de entrega. «Foi depois copiado por toda a gente», orgulha-se Pedro Colaço. Ele tem permitido a este «broker» o controlo efectivo no terreno - sobretudo «nos primeiros quatro meses de fabrico do molde em que há sempre o perigo do fabricante ‘relaxar’» - e dar uma informação «realista» do cumprimento de prazos junto dos clientes.

Tudo isto sustenta uma estratégia de «fidelização dos clientes». «O cliente passante não é solução», refere António Santos, que se orgulha de ter no «clube» dos seus clientes fieis há vários anos empresas de grande exigência como a General Motors, a Bosch, a Siemens, a Nokia, a Rubbermaid, a Electrolux, a Cannon ou a Tupperware. «Esta última parece ter peças aparentemente muito simples, cuja complexidade e exigência de alta qualidade, por vezes, nem nos apercebemos em casa», comenta Pedro Colaço ao mostrar-nos alguns dos pormenores nas peças, discretamente resguardadas dos olhares públicos, cujos moldes foram ali feitos na Marinha Grande.

A Tecmolde tem um «site» em construção em http://www.tecmolde.pt

Reportagem em Julho 1998


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