Tebe: Malhas com mais valia

O «Made in Portugal» em malhas com base na Qualidade Total e na Resposta Rápida para as grandes marcas internacionais foi a saída encontrada pela Tebe, uma empresa cinquentenária de Barcelos

Jorge Nascimento Rodrigues

curandel Tebe À primeira vista a reviravolta estratégica foi ao contrário do que mandariam os cânones do 'Made in Portugal'. A Tebe, uma empresa cinquentenária no centro de Barcelos, que ainda conserva intacta uma alta chaminé de tijolo, largou as marcas nacionais com que se imortalizou há décadas atrás e passou a dedicar-se à subcontratação para marcas multinacionais com distribuição própria. Quem não se recorda da Marie Claire e da TermoTebe 100% lusas, para se interrogar, agora, porque razão François Gros, o actual líder da empresa, e filho de um dos históricos da firma, largou o que lhe trazia a fama no nosso pequeno rectângulo e se lançou na exportação a todo o gás.

Ele ainda não era nascido ou andava de bibe quando algumas das fotos a preto e branco da era áurea do industrialismo mostram no «showroom» da fábrica a massa humana de operárias têxteis à hora de saída e as «caminhetas» que faziam os percursos para Lisboa e Porto com as malhas que levavam Tebe na etiqueta. A Tebe, fundada por Mário Campos Henriques, comendador, foi adquirida em 1973 pelo actual proprietário

Não vender para o contentor

«Com a adesão do nosso país à Comunidade Europeia, a situação alterou-se radicalmente e era necessário repensar a estratégia. Ficou claro no nosso espírito a pequena dimensão do mercado português para marcas próprias e o irromper da concorrência de marcas internacionais que traziam consigo todo um peso de marketing muito forte», começa por se explicar François Gros, que tem a idade de uma pintura retratando a Tebe em 1954.

«O que teria sido errado seria virar-mo-nos para a subcontratação sem valor acrescentado, dentro de uma lógica de venda para o contentor. Se o tivessemos feito, seria um suícidio. Para encher o contentor, os clientes vão a outro lado. Optámos, por isso, por fabricar malhas para uso interior e exterior com moda e com qualidade, com mais valia, mas sem ter marca própria», conclui.

A experiência das marcas próprias deixou na Tebe uma cultura de moda e de criatividade, que François Gros tem cultivado como «valores da empresa» a par de um reforço da flexibilidade, da resposta rápida, da modernização tecnológica e do espírito de serviço ao cliente, exigido pelos novos tempos de globalização.

Em vez do ritmo das velhas «caminhetas» como companheiras de viagem, é preciso colocar encomendas, por exemplo, nos Estados Unidos, «mais cedo ainda do que os próprios fornecedores locais norte-americanos», proeza de que a Tebe se vangloria hoje.

A aposta no fornecimento para as grandes multinacionais com distribuição própria, que todos conhecemos, mas que os contratos de fornecimento proibem a divulgação, permitiu à Tebe posicionar-se bem tanto em mercado europeus, como o inglês, o francês, o espanhol, o sueco e o italiano, como nos Estados Unidos.

François Gros espera mesmo que as suas vendas para os mercados espanhol e norte-americano cresçam mais aceleradamente do que nos outros destinos de exportação.

Já com uma pequena fábrica na Polónia (entre as cinco unidades fabris que tem no grupo), que poderá levar a abordar mais activamente o mercado alemão, a Tebe poderá também equacionar a localização de produção mais próxima dos Estados Unidos.

Boa vontade não chega

Com 90 por cento da sua produção para exportação (intracomunitária e resto do mundo), a Tebe atingiu, no ano passado, uma facturação de mais de 7 milhões de contos (35 milhões de euros), com um crescimento de 25 % em relação ao ano anterior, o que François Gros considera «um ano de euforia». Para 1999, ele acha que vai ser «um ano de luta dura na nossa fileira». A própria crise asiática pode favorecer a colocação de produtos dessas proveniências ainda mais baratos nas grandes distribuidoras.

Dormir à sombra dos louros, e dos diversos prémios de 'melhor fornecedor do ano' que por vezes recebe, não é vocação da Tebe, diz o nosso interlocutor. Tanto mais que a instabilidade neste mercado de subcontratação é enorme.

Por isso, «boa vontade não chega», diz François Gros. «É preciso consolidar a viragem estratégica. Apareceu o Programa Infante da Associação Industrial Portuense, que nos permitia voltar a pensar a situação, ajudar-nos a pôr tudo em causa se fosse preciso, e agarrá-mo-lo. Nós já tinhamos implementado novos sistemas de gestão, baseados nos da Toyota, mas estavamos interessados em abordar a qualidade total», prossegue o líder da Tebe para referir que um dos resultados que mais o está a entusiasmar é «a maior horizontalização da gestão da empresa», com uma maior mobilização dos quadros.

Este foi um dos efeitos mais notáveis da participação no 'Infante'. «O programa veio reforçar as convicções que o François Gros tinha. Mas além disso permitiu passar para um conjunto mais amplo de cabeças, para a equipa de quadros, a visão que ele tinha. E isso foi um salto qualitativo enorme - forjou-se uma visão de empresa», refere-nos Luís Pessoa, da LPCA, a consultora que está a aplicar a metodologia do 'Infante' no terreno.

François Gros juntou à reflexão estratégica uma aposta clara na organização baseada nas tecnologias de informação e comunicação mais recentes: «Temos plena consciência que à distribuição nas grandes superfícies e de catálogo por correio, se está a juntar o comércio electrónico. O que nos exige a viragem para a plataforma da Web. Internamente, a nossa organização implementou sistemas de informação e funcionamos com o Lotus Notes, tendo o correio electrónico se transformado numa ferramenta de uso diário».

Programa Infante aposta no TQM
Desenvolver uma cultura de qualidade total e fomentar a reflexão estratégica no tecido industrial do país são duas preocupações fundamentais do 'Programa Infante' lançado pela Associação Industrial Portuense desde finais de 1997 e que decorrerá até 2001. São cerca de 30 as empresas que já completaram o programa ou o têm em curso, distribuídas basicamente pelo Norte do País e a Região de Lisboa e Vale do Tejo.

A Tebe, que visitámos, é uma das que o concluíu entretanto. Mais 13 novos casos vão ser lançados este ano e cerca de 30 encontram-se em lista de espera para serem integrados neste programa que é gratuito e não requer processo de candidatura.

Partindo da necessidade de melhorar a imagem de qualidade do produto português e de elevar o seu posicionamento competitivo junto de distribuidores e consumidores portugueses e no estrangeiro, a AEP - Associação Empresarial de Portugal, com a colaboração do Instituto Português da Qualidade e ao abrigo de um financiamento do PEDIP II, estabeleceu uma parceria com o gabinete de consultadoria Luis Pessoa-Consultores Associados para a aplicação concreta de uma metodologia de reflexão estratégica e qualidade total.

O 'Infante' desenvolve-se em três módulos, começando por uma sessão de sensibilização nas empresas, passando à preparação de 'facilitadores' dentro das firmas interessadas que possam levar a cabo um programa específico de melhoria de qualidade e, culminando, com um programa mais arrojado de intervenção estratégica, actuando a nível de três vectores considerados chave - reflexão estratégica, inovação de produtos e sistema de qualidade total. O programa pretende levar os líderes das empresas a pensarem estrategicamente sobre o seu negócio e mobilizar todos os níveis hierárquicos e funcionais sem excepção.

Dirigido por Jaime Quesado e gerido por Passos Rodrigo, da AEP, os detalhes do 'Infante' podem ser consultados na Web em www.aeportugal.pt/infante/

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