Grande Lisboa depois da Nova Economia

Viagem aos dois Parques Tecnológicos da Região

Empresários do "high-tech" entre a prudência e o optimismo. O pior da doença infantil da Nova Economia Digital parace estar passado.

Mesas Redondas coordenadas por Jorge Nascimento Rodrigues

Entidades nas mesas redondas
Biotecnol | Enzifarma | Web-Lab | Neosis | Convex | Loyaltec/CGI
SystemHouse | 4Sir | NewVision | Forino

Entidades organizadoras
Taguspark | Anetie

Artigo mais vasto sobre a Grande Lisboa depois da Nova Economia
publicado no semanário português Expresso em Janeiro 2002


BIOTECNOLOGIA NAMORA TAGUSPARK

Este ano poderá ficar marcado pela colocação de Portugal no mapa da Biotecnologia, o sector que não foi beliscado pela crise da doença infantil da Nova Economia. O Taguspark, em Oeiras, poderá transformar-se num polo geográfico de aglomeração de multinacionais pioneiras do sector e, eventualmente, de "start-ups" portuguesas, a partir do exemplo da Biotecnol liderada por um jovem investigador e empreendedor, Pedro Pissarra.

A californiana Amgen, que alcançou o primeiro lugar mundial do sector (depois de adquirir no final do ano passado a Immunex), já está instalada no Parque tecnológico de Oeiras e a Genzyme, outra pioneira norte-americana, nascida nos anos 80 a partir do MIT, poderá vir a instalar-se pela mão da Enzifarma que planeia a edificação de um edifício próprio no Taguspark. «Tal como desenvolvemos 'clusters' reconhecidos nas áreas dos sistemas de informação geográfica ou das tecnologias de informação, poderemos vir a alcançar massa crítica na biotecnologia no futuro», sublinha Nuno Vasconcelos, presidente da Comissão Executiva da Tagusparque, a entidade gestora do Parque, no que é secundado por Alberto Inez, administrador da Enzifarma, que vê, com optimismo, «uma clara janela de oportunidade abrir-se».

«A biotecnologia está em contraciclo. Não tem sido sensível directamente à crise actual. O índice das empresas cotadas do sector tem inclusive subido sustentadamente desde o 11 de Novembro», refere Pedro Pissarra, que corrobora a ideia de oportunidade a não perder, mas que alerta para as «deficiências estruturais do país - ausência de aposta estratégica no sector, notória falta de capital de risco para a área e burocracia desincentivadora».

Apanhados pela crise

O Taguspark é actualmente a maior concentração espacial de empresas de base tecnológica e de trabalhadores do conhecimento do país. O seu Centro de Inovação Empresarial conta com 120 empresas tecnológicas, 50% das quais "start-ups", empregando 1700 pessoas (1/3 da população diária do Parque), com uma população jovem (60% abaixo dos 30 anos) e facturando 250,6 milhões de euros.

As tecnologias de informação são um dos sectores fortes da imagem deste parque tecnológico, mas a existência de um mosaico de empresas em nichos e segmentos diferentes tem implicado, naturalmente, um registo diferente do impacto do "crash" da Nova Economia e do abrandamento económico mundial. Entre a amostra de empresas portuguesas e ligadas a multinacionais instaladas no Parque que ouvimos no Taguspark neste sector, encontramos uma gama diversificada, desde as que foram apanhadas seriamente pela crise até às que sempre manifestaram um grande cepticismo em relação aos exageros da fase infantil da Nova Economia.

O caso do grupo Web-Lab, envolvendo mais de três dezenas de empresas num complexo situado numa das pontas do Parque, é um dos exemplos do tecido empresarial que procurou estar no pelotão da frente do "boom" da Nova Economia em Portugal e que, depois, se viu «apanhado pela crise». «Tivemos de 'matar' ou congelar diversos projectos e reconcentrar-mo-nos nas nossas actividades principais», refere Afonso Cascão, líder do grupo Eastecnica, que foi integrado no Web-Lab. Por seu lado, António Sousa Máximo, fundador da Neosis, sempre torceu o nariz aos exageros da Nova Economia: «Parabéns aos que aproveitaram, mas eu nunca tive estofo para o 'vapourware'», ironiza, salientando que «incorporou e continua a incorporar» as novidades trazidas pela revolução digital na sua oferta de soluções para o pequeno comércio tradicional e o comércio integrado (de que são exemplos, os sistemas da Neosis na Grula, Elos e Uniarme).

Quanto aos prognósticos, as opiniões dividem-se entre «a prudência face à incerteza em 2002-2003», que recomenda Sousa Máximo, e o optimismo em nichos e segmentos que, aparentemente, flutuam por cima da crise. Para João Cunha Rosa, vice-presidente da Loyaltec, uma empresa de integração de sistemas criada por portugueses que foi adquirida pelo grupo canadiano CGI, notam-se «alguns cortes em mercados como o das telecomunicações», mas há oportunidades crescentes noutras áreas. «Uma coisa é, no entanto, certa - a época das margens fabulosas acabou!», adverte este responsável que acumula a direcção da América Latina no grupo canadiano.

José Durão, da Convex Portugal, integrada no grupo espanhol Satec, é francamente optimista. «Tempos de crise não nos afectam; somos parte da solução dos clientes face ao abrandamento e não parte do problema. Continuamos a trabalhar num cenário de expansão», sublinha este responsável da empresa que se situa na área da engenharia de comunicações e de integração de sistemas.


PENSAR GLOBAL NO LISPOLIS

Algumas sementes de metanacionais e diversas PME de base tecnológica em nichos de mercado das tecnologias de informação procuram a partir do Lispolis, o Pólo Tecnológico de Lisboa, no Lumiar, continuar a aproveitar a onda de "webização" do tecido empresarial português e de diversos serviços aos cidadãos e, nalguns casos, elevar a parada até ao mercado global.

O ano de 2001 viveu a conjugação de dois factores que se adicionaram à crise da Nova Economia - a entrada do euro concentrou investimentos, levando ao adiamento de outros projectos em grandes clientes, e o 11 de Setembro desviou atenções para outras áreas, concluíram as empresas ouvidas pelo Expresso num encontro organizado pela Anetie-Associação Nacional das Empresas das Tecnologias de Informação e Electrónica, que está sediada neste pólo tecnológico contíguo ao INETI.

As nuvens trazidas pelo "crash" da Nova Economia continuam ainda a preocupar estes empresários de alta tecnologia. «Vamos ver como corre este primeiro trimestre de 2002. Vai ser decisivo para se poder fazer uma leitura objectiva», afirma Rui Machado, da System House, uma empresa portuguesa dedicada à implementação de soluções de "business intelligence" e de potenciação da plataforma da Web para portais e "e-business". Contudo, o "crash" da Nova Economia foi saudável: «Muitas empresas viviam da especulação bolsista. Essa vaga foi mais bolsista do que tecnológica. A tecnologia, essa, vai ficar e ser reforçada», conclui. Opinião que é corroborada por Francisco Velez Roxo, presidente da Anetie: «É indispensável que este movimento de empresas rompa com a imagem de que a Nova Economia é bolsa. Agora haverá mais racionalidade na gestão. O que tiver qualidade continuará a crescer, ainda que com algum abrandamento; o que era sonho e 'bluff' desapareceu ou vai desaparecer».

A focalização em nichos de mercado e a construção de soluções ou plataformas "standard" ao fim de algum tempo de projectos por medida para clientes permitiram a pequenas empresas do Lispolis implantar-se em mercados à escala nacional e mesmo transpor fronteiras.

A 4 SIR tem hoje os seus sistemas de gestão de recursos humanos em 200 das mais importantes grandes e médias empresas portuguesas e prepara para este semestre o lançamento de uma versão localizada no Brasil. Por outro lado, especializou-se no fornecimento de soluções de gestão na área do entretenimento, nomeadamente no campo das bilheteiras, dos espaços e eventos e dos equipamentos audiovisuais, com alguns clientes emblemáticos como o Centro Cultural de Belém, o Pavilhão Atlântico ou o Coliseu do Porto. José Manuel Moreira, responsável da empresa, salienta dois projectos recentes no campo dos portais que culminam o trabalho nestes dois nichos - o ondaticket.pt e o emprego24.pt em colaboração com a SIC Online.

Pensar global desde o início foi uma das marcas distintivas da NewVision, que se começou a notabilizar em equipamentos automáticos de vendas de selos dos CTT, dispensadores de bilhetes e de cartões, e em sistemas de gestão de filas de espera, hoje visíveis, por exemplo, nas estações de correio e nas Lojas do Cidadão. O caso dos cartões poderá rapidamente preencher uma oportunidade de negócio no Brasil (com o caso dos pré-pagos na área dos telemóveis) e os equipamentos de venda de selos já têm comprador na Noruega e perspectivas noutros países da Escandinávia e em Espanha. «Começámos por arranjar clientes de referência no nosso mercado, mas os nosso olhos estão no mercado global dos sistemas inteligentes de atendimento», diz Paulo Costa, o director-geral da empresa, que acrescenta: «Verificámos que o que se vende no mercado internacional não é comparável à nossa solução modular».

Formar jovens tecnólogos

O Lispolis alberga ainda uma das Escolas Tecnológicas do país viradas para «uma missão de urgência» - a formação inicial de jovens tecnólogos à saída do secundário, como nos refere Maria Teolinda Portela, a presidente da Direcção da Forino-Escola de Novas Tecnologias que implantou o seu complexo escolar numa das zonas do pólo tecnológico. Trata-se de uma população «em estado de crise», sem competências para o mercado de trabalho, e fundamental para o preenchimento dos quadros intermédios que faltam ao tecido empresarial confrontado com dois extremos - excesso de canudos universitários em áreas sem saídas profissionais e uma reserva de mão-de-obra sem qualificações profissionais mínimas.

A Forino dá especializações em áreas como telecomunicações e redes, organização industrial, energia e automação, electrónica e electrotecnia, administração e gestão. Já formaram 400 jovens nos últimos sete anos que têm sido rapidamente recrutados por PME de base tecnológica e jovens empresas da Nova Economia para os quadros ou para estágios. «Esta formação é de alta qualidade e estes tecnólogos tornam-se rapidamente verdadeiros engenheiros de grande valia», conclui José Martinho, secretário-geral da Anetie que tem um protocolo com a Forino desde 1996, tendente a "encaminhar" formandos para preencher o défice de quadros e estagiários dos 120 associados da ANETIE.

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