Secil na galeria Taguchi

Fábrica portuguesa de cimento da Maceira-Liz foi seleccionada como caso internacional de aplicação dos métodos Taguchi de Qualidade no último Simpósio do movimento realizado no MIT

Jorge Nascimento Rodrigues em Boston, com a equipa da Secil

A história da Fábrica da Maceira Liz
O lançamento de uma nova ISO proposta pelos japoneses
O site oficial do American Supllier Institute
Outro autor japonês da Qualidade (encontro com Masaaki Imai, o criador do «gemba kaizen»)

Uma empresa portuguesa entrou na galeria de «estudos de caso» do American Supplier Institute (ASI), a entidade que dirige o movimento internacional da Qualidade baseado nos métodos do japonês Genichi Taguchi.

Uma experiência com êxito de aplicação dos referidos métodos a uma área da fábrica de cimento da Maceira pertencente à Secil foi apresentada, na semana passada, no 17º Simpósio dos Métodos Taguchi, realizado no Massachusetts Institute of Management, em Cambridge, do outro lado de Boston.

O caso da optimização do processo de homogeneização da matéria prima num silo da fábrica da Maceira ombreou com 22 outros casos mundiais oriundos de tubarões da indústria multinacional, como a Delphi, a Ford, a General Motors, a ITT, a Ingersoll, a Mitsubishi, a Nissan, a Philips e a Xerox.

Miragaia, da Secil de Maceira e Paulo Penim, da SGIE, os apresentadores do caso no MIT E deixou a assistência estupefacta quando Augusto Miragaia, responsável da fabricação na Maceira e um dos líderes do projecto, e Paulo Penim, o consultor da SGIE que introduziu a metodologia Taguchi na Secil, sublinharam que «depois do redesenho realizado, a eficiência da homogeneização passou de 2,5 para 4,1, equivalendo a um ganho anualizado de mais de 500 mil dólares (450 mil euros, mais de 90 mil contos) só com esta primeira experiência». A equipa da Secil receberia das mãos de Genichi Taguchi, o «pai» do movimento, o trofeu da sua escolha como caso internacional.

A estrela lusa

Em virtude do redesenho do processo de homogeneização no silo - no decurso do qual foi «descoberto» que uma sua parte tinha sido montada ao contrário do que exigia a optimização -, a produção está agora com uma eficiência de 140% acima do valor inicial. Esta área da fábrica é absolutamente crítica, pois nela se concentram 50% dos custos industriais. A metodologia Taguchi permitiu detectar os factores decisivos para a optimização do referido processo. A definição desses parâmetros começou por ser feita num «brainstorming» com o pessoal fabril directamente envolvido.

O troféu recebido pelo caso da Secil das mãos de Genichi TaguchiSegundo Armando Castela, o director da fábrica da Maceira, a experiência vai ser alargada a outras áreas do processo produtivo. «Sempre estivemos predispostos à inovação. A nossa empresa é um exemplo disso ao longo da história. Como tínhamos o nosso sentido crítico desperto, aderimos rapidamente à metodologia Taguchi que nos era proposta pela SGIE», refere aquele responsável da empresa. A aplicação destes métodos de Qualidade na Secil está também em curso na área de granulação da linha de cimento branco da fábrica de Pataias e na moagem de cimento na fábrica do Outão.

Para Paulo Penim, o método tem vantagens óbvias para as indústrias de processo. «Trata-se de uma primeira aplicação em Portugal com resultados que servem de demonstração. Há outras oportunidades muito claras em indústrias como as da pasta do papel, da siderurgia, das refinarias, das componentes e da química», sublinha o consultor da SGIE, para concluir, com algum humor: «O engenheiro português dedica pouco tempo a conhecer em profundidade os processos e por isso fica vulnerável à influência da visão dos fornecedores de equipamentos. Com os métodos Taguchi, o engenheiro tem de voltar ao terreno e dissecar os processos».

A Engenharia Robusta

O Simpósio foi marcado precisamente pela «venda» de um novo tipo de gestão da engenharia da qualidade, que se dirige como uma lança ao coração dos custos. Essa abordagem foi baptizada de «engenharia robusta», ou de «design robusto», e está em vias inclusive de influenciar a criação de uma nova norma ISO.

Capa do livro Robust Engineering «Os custos controláveis - pois há naturalmente os não controláveis - são em 95% determinados pelo design do processo e do produto», referiu num inglês arrevesado o velho Genichi Taguchi, o autodidata japonês que foi «revelado» aos americanos em 1982 pelo ASI e que, desde o ano passado, é considerado «o novo herói da Qualidade para os americanos», segundo a revista Fortune.

Taguchi aproveitou este Simpósio para lançar o seu último livro sobre o tema, intitulado precisamente Robust Engineering, que acaba de ser editado pela McGraw-Hill (compra do livro).

 Obras recomendadas de Taguchi 

Genichi Tagushi himself, ao centro Procurando especificar a vantagem competitiva desta abordagem em relação à tradicional, Taguchi sublinhou que as normas da Qualidade existentes são sobretudo meios de medir certas características do produto e tão só. «O design global do sistema funcional que representa o produto, o design do seu processo, está lá pouco presente. A preocupação com o design inicial é pouco valorizada», afirmou, com alguma contundência, o patriarca do ASI.

Segundo um dos oradores, apenas uma das 20 áreas da norma 9000 se refere à questão do controlo do design, e neste aspecto apenas 7 entre as 36 recomendações têm a ver explicitamente com as actividades de design inicial. Ross Haugeberg, da Melroe Ingersoll-Rand, foi mesmo mais longe: «Para melhorar a Qualidade, por favor, não se concentrem a medir os sintomas, mas focalizem-se na avaliação do design das funções do sistema».

Este Seminário marcou «uma nova fase nos métodos Taguchi, é o amadurecimento de uma segunda geração, numa época em que o topo do management das empresas já está de novo receptivo a olhar para o terreno e cansado de modas», referiu-nos Subir Chowdhury, de 31 anos, vice-presidente do ASI, um nativo do Bangladesh que veio para os Estados Unidos há 9 anos, e que se transformou no jovem «turco» do clã Taguchi para o marketing internacional.

Uma das novidades trazidas aos especialistas aqui reunidos foi o cruzamento dos métodos Taguchi com as fórmulas do matemático indiano Mahalanobis. Os investigadores japoneses da Universidade de Hokkaido desenvolveram o conceito de «espaços» que permitem comparar «espaços normais» definidos por um núcleo duro de atributos relevantes e «espaços anormais», ficando visíveis os desvios, e aplicaram-no na predição e controlo de doenças infecciosas!, o que arrancou do velho Taguchi um vibrante elogio.


OBRAS RECOMENDADAS DE GENICHI TAGUCHI:

  • Introduction to Quality Engineering, 1986 (compra do livro)
  • Taguchi Methods Orthogonal Arrays and Linear Graphs, 1987 (compra do livro)
  • Quality Engineering in Production Systems, 1988 (compra do livro)
  • Taguchi on Robust Technology Development, 1992 (compra do livro)
  • Taguchi Methods: Research and Development, 1993 (compra do livro)
  • Taguchi Methods: Design of Experiments, 1993 (compra do livro)
  • Taguchi Methods: On Line Productions, 1994 (compra do livro)


  • No berço de uma nova ISO
    Jornalista 'intruso' assiste a debate surrealista no MIT sobre uma proposta japonesa de normalização internacional para a engenharia da qualidade baseada nos métodos Taguchi

    Um grupo de peritos japoneses vai apresentar em Genebra na Organização Internacional de Normalização (mais conhecida pela sigla ISO usada nas normas de Qualidade e sedeada na Web em www.iso.ch) uma proposta de criação de um novo standard que contemple a qualidade da engenharia de um produto, baseado nos métodos desenvolvidos por Genichi Taguchi. Trata-se do culminar de um processo liderado pela Associação de Normalização Japonesa e financiado pelo célebre MITI, o Ministério da Indústria e Comércio Internacional nipónico.
    O manuscrito da proposta foi agora apresentado numa sessão restrita do Simpósio realizado no Massachusetts Institute of Technology pelo American Supplier Institute. Num ambiente com colorações surrealistas, em pleno coração da catedral da tecnologia norte-americana, a um canto do enorme auditório Kresge, uma pequenissima plateia de 23 pessoas assistiu a uma tarde infindável de debate entre especialistas, metade dos quais eram japoneses, a que se juntavam vários outros asiáticos, alguns americanos (nomeadamente do Programa de Ligação com a Indústria do MIT), um alemão, um português e um jornalista 'intruso'.
    A discussão, por vezes, era imperceptível para a outra metade dos presentes já que os peritos japoneses se envolviam em animadas trocas de palavras na sua própria língua, nomeadamente alguns momentos mais acesos de discordância dentro do clã Taguchi, entre Genichi, o pai, e Shin, o filho. (É claro que, em japonês, o mais aceso debate é sempre muito morno segundo os padrões ocidentais).
    «A ideia é criar uma norma que assegure a qualidade através de todo o ciclo de vida do produto, desde o começo, com o design, até ao final. O objectivo é estabelecer um método que defina o que é a qualidade em cada fase do processo industrial e que nos permita dar uma avaliação da qualidade global do produto, encarado como um sistema», refere, num inglês «niponizado», Shuichi Fukuda, o presidente do Comité Técnico Internacional responsável por esta proposta. Fukuda é o «patrão» do Instituto Tecnológico Metropolitano de Tóquio e fez-se acompanhar de outros peritos da equipa, vindos nomeadamente do Laboratório Nacional de Investigação em Metrologia, da Fuji e da Nissan.
    Para Fukuda, «a avaliação da qualidade intrínseca de todo o sistema é essêncial e o seu ponto crítico começa com o design inicial». A normalização sugerida pelos japoneses visa combater o que eles designam de «arbitrariedade dessa primeira fase do design do produto». O que se pretende é que os engenheiros «captem» as funcionalidades que interessam efectivamente aos clientes (e não aquelas que eles pensam ser as adequadas) e que as traduzam num design «robusto». O conceito de robustez significa que o processo é desenhado de tal forma que é capaz de resistir ou de diminuir o impacto dos múltiplos «ruídos» - uns controláveis, outros não, uns vindos do exterior, outros de dentro - que afectam o processo. Isto pressupõe, naturalmente, a identificação minuciosa dos ruídos mais importantes.
    A normalização pretendida basear-se-á na definição de uma medida dessa «performance» traduzida através de um rácio S/R, em que «S» é o «sinal», ou input no processo, e «R», o tal ruído provocado pelo ambiente envolvente. Este rácio dá uma visualização quantitativa da medida em que as funções em cada fase do processo se aproximam ou distanciam da norma ideal definida.
    Este conceito de qualidade da engenharia do produto «é radicalmente diferente dos métodos tradicionais de inspecção da Qualidade dos produtos, que são morosos, dispendiosos e com baixa fiabilidade», sublinha Shuichi Fukuda. Com o alargamento do recurso ao «outsourcing» (adjudicação em fornecedores) e da emergência da cadeia de valor em rede, este tipo de normalização torna-se «vital», conclui Fukuda.
    A proposta japonesa baseou-se num trabalho de normalização para a área dos plásticos iniciado em 1987 pelo organismo japonês de «standards» industriais. A apresentação da proposta neste simpósio no MIT foi suportada por quatro casos premiados na 7ª Conferência de Engenharia da Qualidade, organizada em Junho passado no Japão pela Sociedade de Engenharia da Qualidade.


    Contactos:

  • Shuichi Fukuda, presidente do Comité Técnico
    Tokyo Metropolitan Institute of Technology
    Presença na Web (versão em inglês): www.tmit.ac.jp
    E-mail: fukuda@tmit.ac.jp
  • Masayoshi Koike
    National Research Laboratory of Metrology, Agency of Industrial Science and Technology, Ministry of International Trade and Industry
    Presença na Web (versão em inglês): www.nrlm.go.jp
    E-mail: koike@nrlm.go.jp
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