Sumantra Ghoshal, autor do Novo Manifesto para a Gestão
Criar valor é a missão das empresas
O mais conhecido académico da estratégia sedeado na Europa fala do futuro do management. O professor de liderança estratégica na London Business School quer Schumpeter de volta e Porter arquivado. Ghoshal é o segundo convidado desta rubrica, depois de Henry Mintzberg.
Jorge Nascimento Rodrigues com Sumantra Ghoshal
Uma entrevista para a rubrica «Para onde vai a gestão» da Janela na Web e para a revista portuguesa Executive Digest
Competição pelo mesmo bolo e meter o mercado dentro da empresa são patologias económicas a combater. A missão da firma é gerar novo valor e não apropriar o existente. O mercado deve ficar à porta da organização, onde é o capital social que manda. Michael Porter, o guru da vantagem competitiva, e os teóricos dos custos transaccionais empurraram a gestão para um beco sem saída.
O regresso a Joseph Schumpeter e ao elogio da renovação contínua, da inovação e da originalidade deve inspirar a nova vaga no management, agora que a reengenharia é uma moda do passado e as consolidações já fizeram o que tinham a fazer.
Uma entrevista exclusiva de Sumantra Ghoshal sobre o seu Manifesto para a Gestão redigido com o seu parceiro de sempre (o americano Christopher Bartlett, com quem redigiu The Indvidualized Corporation, o último "best-seller" desta dupla) e com o seu colega da London Business School, Peter Moran. «A New Manifesto for Management» surgiu publicado na Sloan Management Review, na sua edição de aniversário (da Primavera de 1999) e foi divulgado em Portugal pela Revista Portuguesa de Gestão editada pelo INDEG (no nº1, da nova série, Inverno 2000).
Depois da vaga da reengenharia, para onde é que vai a gestão neste final de século?SUMANTRA GHOSHAL - Nestes últimos dez anos já atravessámos três vagas. A reengenharia foi, sem dúvida, o ponto alto dos anos 90. Mas, depois, a meio da década, choveram as críticas - a reengenharia fez algumas coisas boas, mas os gestores passaram da reengenharia para a consolidação das empresas e dos grupos. Eu creio que, agora, se está a assistir a uma terceira vaga - se está a passar da consolidação para a renovação contínua, que é algo mais sofisticado. A renovação contínua pretende construir um elo entre o presente, o passado e o futuro. Aposta em que é indispensável mudar continuamente. Foi isso que verificámos na investigação que conduzimos para o livro The Individualized Corporation. A questão central que encontrámos em casos como a Sony, a Cisco, a BP e a General Electric, foi esta: como gerir para nos renovarmos continuamente. É esta atitude que temos visto em líderes empresariais, como Jack Welch, na GE, e John T. Chambers, na Cisco. Estas duas empresas têm hoje as mais altas capitalizações de mercado do mundo.
O que tem de ser mudado é a ideia do CEO como "grande estratega"
O que é que está errado com a trilogia dos 3S (estratégia, estrutura e sistemas, em inglês strategy, structure and systems) em que foram educadas gerações de gestores desde Alfred Sloan, e em particular com a ideia de que primeiro está a estratégia e tudo o resto vem a seguir? A estratégia está morta?
S.G. - Não, a estratégia não está morta. Está bem viva. E as estruturas a desenhar também. Os 3 S são necessários. O que dizemos é que é preciso ir para além - sublinho, ir para além, não contra - da trilogia da estratégia-estrutura-sistemas, um modelo que teve o seu tempo áureo. O que dizemos é que é preciso centrar a gestão numa nova trilogia, nos 3 P - propósitos, processos e pessoas. Nomeadamente, o que tem de ser mudado, desde logo, é o conceito tradicional do CEO como «grande estratega» e «controlador». São precisos gestores que começem por criar um propósito nas organizações em torno de como criar valor para a sociedade - esse propósito permitirá a emergência da estratégia a partir de dentro da organização.
Qual é a superioridade dos 3P? A ideologia (uma visão para o papel da empresa, um propósito para o negócio) está outra vez a comandar a gestão como sugere no seu «Um Novo Manifesto para o Management»?
S.G. - Há várias formas de responder a essa questão. Mas a ideia central é esta: o papel da gestão é gerir recursos escassos. Até há alguns anos atrás, dizia-se que o recurso escasso era o capital e a função da gestão gerir (bem) o dinheiro. Agora, o dinheiro é uma mercadoria. A «bolha» em torno da Internet em que vivemos nestes últimos anos mostrou isso à evidência. O recurso escasso agora é o capital humano, é o saber. Donde os 3S já não têm resposta para isso. Iniciei uma investigação precisamente sobre o capital humano e sobre o que é competir neste novo contexto. Será o tópico do meu próximo livro, a sair lá para 2002.
E quanto à teoria da vantagem competitiva criada por Michael Porter? Bem lhe pode chamar, no Manifesto, a «tirania da teoria académica», mas o que é certo é que, também, não vai ser fácil convencer uma geração de gestores e empreendedores que foram educados nessa cartilha desde os anos 80. O que é que está errado com Porter?
S.G. - Errado é uma palavra forte. O que digo é que a essência da teoria de Porter é a noção de apropriação do valor. Para ele, o objectivo da estratégia é a competição pela apropriação do valor - a questão é como "comer" o máximo de um dado valor criado. A missão dos competidores no mercado é tentarem apropriar-se da maior fatia desse valor. A meu ver, nesta visão, os interesses da empresa seriam incompatíveis com os da sociedade. Estamos no terreno dos jogos de soma nula.
A competição em torno da maior fatia do mesmo bolo é uma visão económica patológica
Qual é a saída? A concorrência no capitalismo não é isso mesmo?
S.G. - Pelo contrário, eu penso que a essência da estratégia é hoje cada vez mais algo dinâmico e não estático. A estratégia é cada vez menos a luta pela apropriação, mas sim o propósito de criação de valor - de um genuíno valor para os clientes e não só para os accionistas. Isto é uma visão profundamente schumpeteriana. O foco deve estar na criação de valor e não na apropriação. A competição contra todos os outros, é um caminho absolutamente inapropriado e daí resulta uma visão económica "patológica".
Mas capitalismo não é igual a mercado? Ou os gurus do mercado acima de tudo estão equivocados?
S.G. - Os gurus do mercado não estão errados, só que são unilaterais. A sociedade moderna é feita das duas coisas - de mercados e de organizações. Foi o Nobel Herbert Simon que explicitou que as nossas sociedades são economias de organizações e não economias de mercado. A empresa como organização económica foi a grande "invenção" social do capitalismo no século XX, como o disse Peter Drucker. As empresas são os principais actores do progresso económico. Por isso, cada parte desempenha o seu papel; mercado e organizações coexistem num processo simbiótico. No meio desta relação está o capital social, que é um recurso vital nas sociedades modernas. É o capital social que cria valor e começa a ser reconhecido como o motor do crescimento. Há algum tempo escrevi um artigo criticando a teoria dos custos de transação e contei a história de um tigre e de dois amigos que julgam que competindo na corrida se safarão - só que o tigre acabará por comer ambos. O mercado é o tigre - se o metemos no centro da filosofia interna da empresa, acabará por devorar a organização. Uma firma é também uma instituição social e não só económica.
Francis Fukuyama ainda recentemente veio filosofar sobre o capital social e a confiança como principais ingredientes do desenvolvimento nas sociedades modernas. Será que a filosofia está definitivamente a «invadir» o terreno da gestão da empresa?
S.G. - Mas o que é uma firma? Não é essencialmente um grupo de pessoas agindo colectivamente? Ideologia e filosofia têm de estar envolvidas onde há pessoas. A filosofia sempre esteve presente na gestão.
O management é uma luta pelo original. Se se converte em fórmula torna-se mercadoria
Henry Mintzberg, reflectindo ainda recentemente sobre o processo de formulação da estratégia (aliás na mesma edição da Sloan Management Review em que escreveu o seu Manifesto), escrevia sobre a necessidade de uma "unificação" das abordagens estratégicas, superando as dez ou mais escolas existentes no terreno da estratégia. Acha possível essa "grande unificação"?
S.G. - Henry é um velho amigo meu. Temos passado bons tenpos juntos e escrevemos inclusive alguns livros. É um tipo muito criativo. Mas, ao mesmo tempo, é um categorizador - gosta de criar categorias. Não estou certo que todas aquelas categorias existam. E sinceramente uma teoria de "grande unificação" não é a minha principal prioridade. A meu ver, o que é típico da estratégia não é o normativo; pelo contrário, é a originalidade. A prática do management não é, por isso, a da fórmula, mas é uma luta constante por ser original. A partir do momento em que se estabelece uma norma na gestão, transforma-se num mercadoria.
Qual foi o propósito (utilizando um dos seus 3P) deste seu Manifesto publicado na Sloan Management Review na edição de aniversário?
S.G. - Tal como Peter Drucker disse, as organizações são a principal invenção da sociedade moderna e no centro delas está a criação de valor. Mas quem lidera estas organizações não compreende isto, por vezes. Isso sucede também na política e sucede, naturalmente, nas empresas. Os líderes precisam de compreender o que se passa. O meu papel é de educar os estudantes e os práticos, o "povo" do mundo dos negócios. Daí o Manifesto.
E qual foi o impacto do Manifesto nesse "povo"?
S.G. - É dificil de avaliar. O mundo é um lugar muito grande (risos). Um número enorme de colegas meus e de práticos da gestão chegaram às mesmas conclusões independentemente de mim. Este tipo de mensagem está a implantar-se cada vez mais. É uma ideia que encontrou o seu tempo.
5 HERESIAS DO NOVO MANIFESTO PARA A GESTÃO As sociedades modernas não são economias de mercado e a empresa não é um "refúgio" para cobrir as "falhas" do mercado. São economias de organizações em que as empresas são o actor principal na criação de valor e no progresso económico O fundamento da actividade de uma empresa é um novo «contrato moral» com os empregados e com a sociedade, substituindo a exploração paternalista e a apropriação de valor pela "empregabilidade" e a criação de valor por formas originais Falando cruamente a essência da teoria da vantagem competitiva de Michael Porter é a competição pela apropriação de valor e não pela sua criação Ao contrário da visão tradicional dos gestores como "grandes desenhadores" da estratégia, o seu papel deve ser o de criar um propósito dentro da organização As empresas criam valor para a sociedade e para os clientes desenvolvendo novos produtos e serviços e descobrindo formas de melhor fornecer os actuais. Têm de ser "schumpeterianas"
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