Subcontratação com ética, fundamental
para a Responsabilidade Social das Empresas

Ouvindo Elliot Schrage, guru do tema

Um relatório pedido pelo Departamento de Estado norte-americano sugere
que a DIPLOMACIA ECONÓMICA apoie activamente as boas práticas
e os códigos de conduta socialmente responsáveis das multinacionais
na sua política de encomendas nos países emergentes e do Terceiro Mundo

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Julho 2004

Entrevista com Elliot Schrage em inglês
Relatório ao Departamento de Estado Norte-Americano «Promoting International Worker Rights Through Private Voluntary Initiatives: Public Relations or Public Policy» pode ser consultado no sítio na web do Centro universitário

Subcontratação responsável é a nova "buzzword" da gestão da cadeia de fornecedores à escala global - o que tecnicamente se designa por "supply chain management" - proposta num relatório ao Departamento de Estado norte-americano. O conceito é inspirado nas acções voluntaristas ao longo de dez anos postas em prática nomeadamente pela cadeia Starbucks junto dos seus fornecedores de café de qualidade na América Central.

O relatório aconselha a que a diplomacia económica da Administração norte-americana se articule com as iniciativas privadas no sentido de promover no terreno, e não só nas chancelarias, códigos de conduta ética nas relações de subcontratação tendo em conta os direitos humanos e as exigências ambientais - em particular o combate ao flagelo do trabalho infantil e escravo.

O relatório analisa diversas experiências em sectores como os da produção do café (estratégia da Starbucks na América Central) e do cacau (neste caso, em África), na indústria dos brinquedos (na China) ou de bolas de futebol (no Paquistão, por iniciativa da Adidas, Nike e Reebok). As violações dos direitos do trabalho e ambientais estão há muito tempo documentadas e as iniciativas para as diminuir por parte das multinacionais foram em larga medida resultado de uma conjugação de diversas pressões - dos boicotes de consumidores em países desenvolvidos, da oposição de organizações independentes, do surgimento de um novo tipo de accionistas ("socialmente responsáveis"), da produção de legislação mais restritiva e de acções judiciais mais mediáticas contra as empresas (por exemplo, nos casos da Nike, Gap e Coca Cola).

Falha no terreno

Elaborado pelo Centro de Direitos Humanos da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos, o trabalho foi coordenado por Elliot J. Schrage, considerado um dos especialistas internacionais mais conceituados nas relações entre a globalização e a subcontratação nos países emergentes e em desenvolvimento. «Em indústrias como a confecção, calçado, as 'commodities' agrícolas, a produção de brinquedos ou de produtos desportivos, o impacto, no terreno, das boas práticas e códigos de conduta pelas multinacionais é fundamental - regra geral é mesmo muito mais eficaz do que as acções dos governos locais ou o discurso das chancelarias», sublinhou-nos Elliot Schrage.

A subcontratação sustentável, de que falamos no relatório, tornou-se uma peça essencial da profissionalização do movimento da responsabilidade social. Regra geral, a RSC é medida através do impacto do tema na publicidade ou no marketing das empresas, e não no terreno

Para as empresas que se envolvem na globalização - quer na área do 'outsourcing' industrial ou do 'off-shoring' de serviços mais qualificado - e que começam a "vestir-se" com a roupagem da "responsabilidade social corporativa" (RSC), Elliot é muito directo: «A subcontratação sustentável, de que falamos no relatório, tornou-se uma peça essencial da profissionalização do movimento da responsabilidade social. Regra geral, a RSC é medida através do impacto do tema na publicidade ou no marketing das empresas, e não no terreno». E acrescenta: «A conduta que recomendamos oferece a possibilidade de ligar directamente os resultados práticos no terreno com os objectivos da RSC. Fá-lo com estatísticas, e não com anedotas ou conversa».

De facto, a crítica às multinacionais é sistemática - ou se limitam a campanhas de relações públicas em torno do tema sem qualquer tradução prática dos códigos de conduta (aprovados para accionista ver), ou o líder (ou líderes) do sector está (estão) ausentes retirando massa crítica e projecção às acções, ou as empresas têm dificuldades reais na operacionalização no terreno e não recorrem a apoio especializado.

Política Externa pró-activa

Mas não bastam as acções voluntaristas das empresas internacionalizadas. O relatório recomenda um empenhamento efectivo por parte da diplomacia económica bilateral ou multilateral dos países de origem das multinacionais em direcção às suas zonas geo-económicas de influência.

«A intervenção dos negócios estrangeiros pode ajudar a estabelecer exemplos de práticas sustentáveis e orientações de política externa que criem incentivos adicionais ao alinhamento dos interesses públicos e privados nesta matéria», conclui Elliot Schrage, que é também professor de gestão e de direito na Universidade de Columbia, nos EUA.

No relatório ao Departamento de Estado norte-americano identificam-se quatro áreas gerais de "parceria" público-privada em matéria de diplomacia económica:
1 - identificação dos "standards" de boas práticas de subcontratação globalizada e sua difusão;
2 - financiamento da investigação independente sobre os ingredientes da subcontratação sustentável que a tornam mais atractiva em termos financeiros e comerciais do que as práticas "predadoras" tradicionais;
3 - criação de incentivos à implementação das boas práticas - em concursos públicos, missões comerciais, regras de financiamento internacional, apoio jurídico;
4 - acção mais pró-activa no terreno por parte dos governos dos países de origem das multinacionais junto dos países emergentes e em desenvolvimento onde se concentra a subcontratação globalizada.

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