Paul Strassmann, perito em produtividade

Cuidado com o paradoxo das TI's

Segunda entrevista exclusiva na preparação da sua vinda a Lisboa (Maio 2001) publicada numa versão adaptada no semanário português Expresso

Jorge Nascimento Rodrigues

Entrevista recente (publicada em 2001 na revista Executive Digest)
Entrevista anterior (publicada em 2000 na revista Ideias & Negócios)
[Todos os links com interesse e informações adicionais sobre Strassmann
encontram-se nas duas entrevistas anteriores]

Paul Strassmann O paradoxo das tecnologias de informação (TI's) é este: os estudos empíricos sobre a produtividade da informação revelam que não há nenhuma correlação positiva entre o volume de despesas em TI's e o lucro gerado pela empresa ou organização. Apesar de não agradar aos vendedores da área e aos chefes de departamento relacionados com o assunto, paradoxalmente, em muitos casos, investimentos elevados (quer em termos absolutos como relativos) não conduzem a maior lucratividade. Pelo contrário.

O que coloca uma questão crucial: como é que os investimentos em TI's podem ser produtivos?

A resposta, por mais incrível que pareça, não é «tecnológica».

Paul Strassmann, um dos principais especialistas mundiais no tema, vem a Lisboa, no final deste mês (Maio 2001), para nos responder que a questão central é do domínio da estratégia e das políticas empresariais.

Esta preocupação é particularmente importante num período como o que começámos a atravessar depois do refluxo no optimismo da Nova Economia e nos efeitos «automáticos» da adesão à Web.


Qual é a importância real desse seu indicador da produtividade da informação?

PAUL STRASSMANN - Uso-o, porque ele se centra na verdadeira mais-valia económica - no que designam de valor acrescentado - produzida pelos geradores de informação na empresa: os executivos, os gestores, os vendedores, os cientistas, etc..

Mas porque é que não chegam indicadores mais usuais como o Retorno sobre o Investimento (ROI) ou o Retorno sobre os Activos (ROA)?

P.S. - A produtividade da informação é um ponto de partida que está para além do ROI ou do ROA, indicadores que se baseiam na ideia de que o único «input» que gera lucros é o capital financeiro. Ora, a minha principal permissa para a medição da produtividade da informação é que o capital (financeiro) é uma mercadoria hoje em dia que pode ser obtida por um preço de mercado (a taxa de juro, por exemplo) e que, por isso, aquilo que conta é o valor gerado pelos que detém e geram o factor distintivo - a informação na empresa.

Mas como mede a produtividade da informação?

P.S. - Através do rácio entre o valor acrescentado económico e o custo total da informação.

O estudo que fez a cinco casos portugueses confirma a sua conclusão mais geral sobre o paradoxo dos investimentos em TI's?

P.S. - Até certo ponto.

Uma das constações é que um dos casos, apesar de um maior investimento em TIs', tem uma produtividade da informação negativa, muito inferior a uma outra entidade que até investiu menos em termos absolutos e relativos?

P.S. - Não há correlação entre o que se gasta e a produtividade. Essa é uma conclusão geral.

Inclusive, na amostra, o banco que mais investe em TI's em termos absolutos não é o que tem maior produtividade. Como comenta este facto?

P.S. - Os maiores bancos sempre gastaram muito mais em TI's do que os outros, porque os gastos são indexados à facturação ou ao pessoal, e não aos lucros. O meu conselho é que se deve olhar sempre primeiro para outras causas da menor lucratividade - nomeadamente para as questões de ordem estratégica, antes de tomar o pulso às TI's como fonte de problemas. A evidência empírica é hoje indiscutível - a eficiência operacional, o principal enfoque das TI's nomeadamente na banca, que foi o sector da amostra que eu analisei no vosso país, jamais poderá remediar os erros estratégicos que se cometem, como uma baixa «performance» do crédito ou um péssimo «portfolio» de investimentos.

Como é que compara os resultados da amostra portuguesa que estudou com as conclusões que tem tirado a nível internacional?

P.S. - A amostra não permite generalizações. Contudo, verifiquei que o custo do capital em 1999 em Portugal era particularmente favorável comparado com outros países da União Europeia. O que dá à empresa portuguesa uma vantagem.

Quando tomou a responsabilidade dos gastos em TI's no Departamento de Defesa norte americano, quais foram as suas principais medidas?

P.S. - A minha abordagem foi melhorar os processos. Nunca computorizar o que era redundante, desnecessáriamente complicado e defeituoso.

Isso soa um pouco a «reengenharia», dissecar e mexer primeiro nos processos...

P.S. - A técnica que seguimos foi a da análise económico funcional, na qual cada função (como, por exemplo, a logística ou as finanças) foi analisada previamente, usando um método de modelação de processos e de simulação de abordagens e opções alternativas. Nunca usámos os métodos da reengenharia, que nos pareciam demasiado 'crús' e muito centrados nos cortes drásticos nos orçamentos. O nosso processo de modelização dos processos olhava não só aos custos, como também ao risco e às consequências de potênciais falhanços.

TRÊS «DICAS»
  • O investimento nas TI's tem de ser estratégico e de longo prazo, e não uma imitação seguidista do que os vendedores e consultores dizem;
  • Nunca invista em TI's se não vislumbra uma compensação clara e se não tem meios de medir os seus resultados;
  • Não assuma riscos que não pode, tenha em conta que muitos dos projectos de TI's falham ou não geram aquilo que foi prometido.
  • Acha que esse paradoxo continua bem vivo, mesmo depois dos investimentos empresariais massivos em software caríssimo como os ERP (enterprise resource planning) ou mais recentemente em intranets e extranets baseadas na Web?

    P.S. - Permanece. Não pode ser mudado, pela razão simples de que os investimentos em computadores não são, por si, isoladamente, decisivos. Influências estratégicas como a quota de mercado, os preços favoráveis, a qualidade atractiva e a marca são bem mais importantes do que o rácio dos gastos em TI's em relação à facturação. Na nossa reflexão não nos devemos concentrar nos gastos em TI's, mas sim nas maneiras concretas dos gastos em TI's poderem melhorar as variáveis estratégicas acima referidas.

    E pensa que a mais recente abordagem ligada ao B2B (comércio electrónico entre empresas) poderá induzir factores positivos na produtividade da informação?

    P.S. - É potencialmente um «contribuinte» positivo. O problema é que é difícil e caro de implementar, porque quer os sistemas de vendedores como os de fornecedores têm de ser estandardizados e melhorados. Além disso, o B2B tende a eliminar os escalões de intermediários (como grossistas e distribuidores), que são, em regra, eficientes e altamente eficazes em satisfazer as necessidades muito diversas dos clientes. Para pôr em campo estas funções levará tempo e custará muito mais do que a publicidade simplista feita pelos promotores do B2B.

    Será que a Nova Economia alterou o paradoxo? As 'start-ups' dos anos 90 tornaram-se mais produtivas em termos de informação do que as empresas da «velha» economia?

    P.S. - A maioria delas foram falhanços, pelo menos nos EUA. Por causa de não terem reconhecido que a marca, a quota de mercado, o serviço ao cliente e o conhecimento do cliente são, pelo menos, tão importantes como a automatização das funções de marketing.

    Será útil «alargar» essa análise da produtividade da informação ao sector público, à governação?

    P.S. - Nada há mais importante do que fazer exactamente isso.

    Há um estudo seu sobre o capital de saber (um outro indicador que usa) na Europa que está para ser publicado pelo Butler Group na Inglaterra. Qual é a posição de Portugal?

    P.S. - As empresas portuguesas, como um grupo, parecem ser muito eficazes. Realmente, olhando os dados comparativos, verifiquei que Portugal tem um ambiente mais favorável a este capital do saber do que a Alemanha, Irlanda, Espanha e Noruega.

    Como é que isso é possível?

    P.S. - O estudo vai ser divulgado em Junho. Na altura, se poderá saber.

    ESTUDO SOBRE BANCA PORTUGUESA
    Paul Strassmann virá a Portugal a convite do Centro de Estratégia, Eficácia e Eficiência Empresarial para orientar uma conferência sobre o tema «Governação e Produtividade da Gestão da Informação» (em Lisboa entre 29 e 30 de Maio de 2001).
    A pedido do Centro, para debate na conferência como casos de estudo, Strassmann avaliou a produtividade da informação numa amostra de cinco bancos portugueses cotados no PSI 20, com base em dados publicados para 1999. Nesse leque, o melhor dos bancos mostrava uma produtividade da informação superior a 30% e o pior deles um valor negativo de - 2,7%. A produtividade elevada no melhor caso era superior a outros dois bancos que inclusive investiram mais em TI's em termos absolutos. No caso do pior banco, é curioso notar que não se trata do banco que menos investiu em TI's quer em termos absolutos ou relativos.
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