O primeiro encontro da nova geração
de empresários portugueses

Fundadores de «start-ups» da nova economia portuguesa reuniram-se
pela primeira vez para trocar experiências e descarregar adrenalina
num encontro promovido pela revista Ideias & Negócios. No meio do debate sem «senhores doutores e engenheiros» e das trocas de cartões de visita
e sondagens de negócios ao almoço, começaram a desenhar-se alguns
dos «tiques» dos novos modelos de negócio desta geração

O '1º Ideias & Negócios Start Up' realizado a 10 de Dezembro de 1999 no Taguspark
(Parque de Ciência e Tecnologia da Região de Lisboa, em Oeiras)
visto por Jorge Nascimento Rodrigues

Uma versão adaptada foi publicada no semanário português Expresso,
no caderno de Economia de 18.12.99

 Empreender digital em português o que significa 
Comentários de participantes e leitores

Será a nova economia uma invenção de gurus, amplificada por um nicho de jornalistas especializados, ou tem «tiques» próprios que justifiquem ocupar-se cada vez mais espaço com ela nos «media» e nos eventos profissionais e sociais?

Pergunta ainda mais impertinente: será que existe algo similar em Portugal que justifique andar atrás desses empreendedores portugueses à primeira vista megalómanos que se querem cotar (imagine-se!) no Nasdaq, que abrem escritórios no Silicon Valley ou lojas de culto nas capitais do mundo, que se apresentam sem gravata e com os fusos horários trocados, que se recusam a apresentarem-se como «senhor doutor» ou «senhor engenheiro»?

Para testar o pulso a este novo tecido empresarial, Diogo de Vasconcelos e a revista que fundou, a Ideias & Negócios, reuniu, no Taguspark, o parque de Ciência e Tecnologia da Região de Lisboa, mais de uma centena e meia de convivas oriundos desse meio - muitos dos quais já passaram pelas páginas daquela revista e pelas do semanário Expresso - que, como nos dizia Miguel Monteiro, da Chip 7, «foram descarregar a adrenalina em conjunto», muitos deles trocando cartões de visita e apertos de mão pela primeira vez ao vivo. «Os novos empreendedores formam como que um movimento cultural na sociedade portuguesa. Esta primeira reunião de 'start ups' portuguesas serviu para dar um cunho mais humano a uma rede que tem de se desenvolver no nosso país e também para nos divertirmos todos um pouco», afirmou-nos o organizador.

Tiques novos

A reunião serviu como amostra do que pensa a nova economia em Portugal. Alguns curiosos na assistência ficaram «estupefactos» com casos que não pensavam que existissem em Portugal. Esses exemplos são sintoma de novos «tiques» que representam modelos de negócio típicos desta economia emergente. Termos mágicos como «nicho» e «criatividade» estão presentes no discurso (e na prática) de toda esta galeria.

Impressiona ouvir José Neves, da Swear, uma marca portuguesa de calçado «alternativo», explicar, sem grande rendilhado, a estratégia de nicho à escala global que as empresas da nova economia com êxito puseram em prática por opção bem pensada ou simplesmente por acidente de percurso e sorte: «O nosso objectivo foi atacar um nicho muito pequeno, suficientemente pequeno para não interessar aos tubarões, mas que fosse enorme a nível global». Dentro desta lógica a Swear, sedeada em Felgueiras - «o Silicon luso do calçado, onde nem sequer há uma estrada decente para os TIR» -, abriu lojas de culto em Londres e Tóquio e está presente em mais 33 países. Os pezinhos das Spice Girls e de gente da «Guerra das Estrelas» trazem «swear». Curiosamente, a primeira loja em Portugal ainda está por abrir. Mas na Web um mundo abre-se para a comunidade dos fãs em www.swear-shoes.com.

Vender criatividade é o outro lema. Quem explica a estratégia, em jeito de «slogan», é Epifânio da Franca, um «prof» universitário e investigador que criou a ChipIdea com dois alunos: «Há uma diferenca de fundo entre 'made in' e 'made by'. Nós estamos habituados a ouvir falar do 'made in' e da sua exportação. Mas o que faz a diferença hoje é o 'made by', é a concepção. A fabricação é secundária. O factor estratégico reside em deter a criatividade».

Não será por acaso que a Software Altitude (ex-Easyphone) ou a Critical Software mantém os seus núcleos de Investigação & Desenvolvimento em Lisboa e Coimbra, apesar de terem aberto janelas de marketing no Silicon Valley e noutras partes do mundo (no caso da Software Altitude).

Modelo de ruptura

A Software Altitute, a que já nos referimos noutros artigos, é provavelmente o exemplo de modelo de negócio claramente em ruptura com o tradicional e mesmo com muitas estratégias de jovens empresas que se posicionam na nova economia em Portugal.

Carlos Quintas não o esconde: «Foi um acidente de percurso que nos empurrou para o mercado global. Mas fizemos a viragem. Percebemos que o modelo tradicional de crescer no mercado doméstico e de só depois de atingir massa crítica internamente ir para fora não funciona na nova economia. Deixámos de fazer isto com o pêlo do cão. A lógica foi apostar num crescimento rápido, em mudanças do modelo de 6 em 6 meses, sem descanso, e sermos líderes à escala global no nosso nicho. Para isso, é preciso muito investimento e fomos buscá-lo primeiro ao capital de risco lá fora».

A dinâmica é ganhar quota global primeiro e ter lucros depois. E, com o ar mais sério do mundo, o líder da Software Altitude define o paradigma: «A valorização da empresa é inversamente proporcional ao que perde». Para quem julgasse que isso só funciona na América - nomeadamente com a Amazon.com -, Carlos Quintas chama a atenção para a data mágica de 2003 na Europa: «É uma data psicológica para a Europa. Os Estados Unidos vão deixar de ter a fatia de leão no comércio electrónico. A Europa vai Ter uma boa fatia. Quem na Europa se souber posicionar como líder nos seus nichos, tem o potencial de ver as suas vendas e resultados disparar».

A própria lógica das «start ups» procederem a aquisições de outras «start ups» vem no mesmo sentido de ganhar massa crítica. A Software Altitude já começou esse caminho entre nós. Um caminho que, nos EUA, já levou alguns analistas a considerarem - como caricatura - que empresas como a Amazon.com são mais casas de capital de risco do que outra coisa!

Os grandes aprendem a dançar

Com a cobiça sobre as «start ups» por parte dos tubarões - e em particular dos das telecomunicações - a chegar a Portugal, as interrogações que se seguem têm a sua razão de ser: Aprenderão os grandes a dançar ao som da nova economia? Com as aquisições que estão a fazer vão matar o empreendedorismo e a criatividade das 'start ups' que compram? Vão engoli-las ou manter a sua vivacidade?

Fernando Marques da Infordesporto (que foi adquirida pela PT Multimedia), António Ferreira da Esotérica (comprada pela Networks americana) e Paulo Bicudo da IP (adquirida pela Sonae) garantiram à assistência do encontro que não foram «engolidos». Nenhum deles criou a empresa com outros colegas «para a engordar como um porquinho para venda na feira dos grandes», mas surgida a oportunidade congratulam-se com a possibilidade de continuarem a ser empreendedores nos seus projectos e inclusive dentro dos grupos em que ingressaram.

No extremo, os grandes ensaiam as estratégias de criar eles próprios «start ups» que sejam «empresas de crescimento rápido» com individualidade e dinâmica próprias. Paulo Azevedo, da Optimus, veio fechar o encontro falando do modelo de «fast company». A mensagem que deixou foi directa: empreender dentro de grupos é possível e «pode ser divertido».

Veremos qual é a paisagem no 2º Start Up em 2000.

Empreender digital em português
Alguns conceitos de modelos de negócio próprios da nova economia estão a desenvolver-se em Portugal. Uma primeira amostra saída do discurso directo dos seus protagonistas neste primeiro encontro de «start-ups» nacionais.
  • Atacar um nicho global desde o princípio (exemplos de sucesso da Swear, Software Altitude, Intersis, Critical Software)
  • Criatividade made by Portugal. Fabricação zero (estratégia da ChipIdea)
  • Investigação & Desenvolvimento com o núcleo duro em Portugal e Marketing internacional a partir de pontos de alavanca mundiais (exemplos da Software Altitude e Critical Software no Silicon Valley e estratégia de vendas da Swear)
  • Estratégias de fidelização originais (caso da Swear com lojas «locais de culto» de cultura alternativa)
  • Aquisição de outras «start ups» para alargar competências na cadeia de valor (estratégia assumida pela Software Altitude)
  • Utilizar a Web com originalidade (exemplos da estratégia de lançamento de leilões...de refeições pela Pizza na Brasa em www.pizzanabrasa.pt e de um modelo de comunidade virtual pela Swear em www.swear-shoes.com)
  • Criar espaços dinâmicos de empreendedorismo dentro de grupos domésticos através da criação de novas empresas para novas áreas (exemplo da Optimus no grupo Sonae)
  • Procurar manter uma cultura de empreendedorismo após as aquisições das «start ups» por grupos ou multinacionais (casos da IP adquirida pela Sonae, da Esoterica adquirida pela Networks e da Infordesporto comprada pela PT Multimedia)

  • Comentários de participantes e leitores

    Finalmente, descobri a minha tribo e resolvi um problema existencial!
    Quando assistia ao Encontro comparei-o várias vezes com os seminários e colóquios realizados nas Associações industriais e comerciais deste Pais, às quais, por obrigação profissional, tinha de assistir. Mornos, chatos e sempre com a presença de algum governante, ou funcionário público, a quem a plateia reverenciava. As diferenças são notórias entre os actuais empreendedores e os tradicionais empresários. Destaco duas: a atitude perante a vida e os negócios e o nível cultural. Bem sei que os tempos são outros, mas o importante é que já temos de facto uma nova classe empreendedora ...E o meu problema existencial de não me identificar com o empresário gordo, herdeiro e engravatado ficou resolvido: ao juntá-los numa sala, o Ideias e Negócios fez com que descobrisse, finalmente, a minha tribo!
    (Já agora: o figurino do Encontro é óptimo.A próxima edição terá pelo menos o dobro dos participantes. Vejam se descobrem mais elementos da tribo, perdidos, fora do sector das TI. E repitam!)
    Rui Moreira de Sá
    EXPOLIDER SA (www.expolider.pt)

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