Sinais a Saber Ler - I

Economia no carro-vassoura

A GESTÃO tem acertado o passo pela Terceira Vaga, mas a teoria económica não, segundo o casal de futurólogos Alvin e Heidi Toffler, na apresentação de Rethinking the Future, uma colectânea de quinze artigos de outros tantos gurus, publicada agora em Londres pela editora Nicholas Brealey. Apesar de se falar da «mudança de paradigma» por todo o lado, e de «buzzwords», como o «capital intelectual» e a «economia do conhecimento», terem entrado já na linguagem das élites, "o que continua a faltar, escreve o casal, é uma ligação forte entre a emergente teoria da gestão da Terceira Vaga e o pensamento económico".

A teoria económica adequada à nova vaga continua "na sua fase pré-natal", sublinham, apesar da economia do saber ter sido revelada por Peter Drucker em 1969 - num livro marcante, intitulado The Age of Discontinuity -, apesar do padrão-ouro ter sido substituído pelo "padrão informação" logo em 1971, nas palavras de Walter Wriston, o velho banqueiro americano que mudou a face do Citicorp/Citibank, e do próprio livro A Terceira Vaga já ter sido escrito há 17 anos... Uma das tarefas de 97, e até final do século, segundo os Toffler será precisamente "elaborar o enquadramento intelectual que permita unificar a teoria da gestão com o pensamento económico".

As razões deste atraso histórico prendem-se com uma alegada falta de "aderência" da teoria económica à realidade, algo que não tem ocorrido com o «management». As «buzzwords» de gestão sucessivas (apesar de muitas delas serem modas passageiras) são, aliás, uma das consequências da agilidade que esta última tem: "Enquanto que os teóricos e consultores de gestão exploram muitos aspectos da realidade e rapidamente dão conta deles ao público, os economistas, com notáveis excepções, continuam na sua redoma de vidro, prisioneiros dos seus sucessos do passado", referem os Toffler.

Um bom exemplo do que se passa roda em torno do papel do saber na nova economia. Enquanto a gestão faz girar tudo quanto se escreve hoje à sua volta, apenas uma pequena escola de economistas se afoitou em tal terreno, desde o grupo de Paul Romer até ao herético Krugman.

«Glocal» de pernas para o ar

A ÚLTIMA década ficou marcada pela célebre máxima «pensar global, actuar local», que levou a um neologismo, o «glocal», algo dificil de escrever e mais complicado ainda de dizer. Mas este termo paradoxal marcou a forma de agir das élites cosmopolitas, permitindo-lhes ter uma visão internacionalista, sem perder o pé do terreno concreto onde actuaram economica, social ou politicamente. Muitas das reformas e modernizações, ainda que temperadas com as cores locais, beberam a sua força nesta postura ideológica. Por outro lado, mercê desta visão, muitas multinacionais conseguiram "localizar-se", quer em termos de implantações no terreno, quer em termos de marketing dos produtos.

O futurólogo John Naisbitt vem, agora, dizer que a máxima está a ser colocada de pernas para o ar. Paradoxo dos paradoxos, o êxito da globalização, do cosmopolitanismo e da comunicação na rede das redes, está a gerar o renascimento e redescoberta dos valores próprios pelas élites, as quais ambicionam, agora, afirmá-los globalmente, posicioná-los num lugar ao sol no Planeta. "Como o mundo está cada vez mais global, tendemos a pensar cada vez mais tribalmente. O velho motto está a ser colocado de pernas para o ar. Agora é a vez de «pensar local e agir global»", diz Naisbitt no seu mais recente escrito (publicado na colectânea Rethinking the Future, mencionada acima).