'An Rún Éireannach'

O Segredo Irlandês

Foi uma regra de senso comum: explorar as oportunidades concretas existentes e estar atento aos sinais emergentes vindos da economia real e das iniciativas dos empreendedores. Uma explicação de Colm O'Gorman, do University College Dublin, na Irlanda.

Dr Colm O'Gorman é Senior Lecturer do Department of Business Administration da University College Dublin Business Schools, em Belfield, Dublin

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb, Dezembro de 2004

Colm pode ser contactado no e-mail
A sua página na Web pode ser visitada
O artigo "Policies to promote new knowledge intensive industrial agglomerations", Entrepreneurship and Regional Development, Vol. 16, No. 6, 2004, pp.459-479, (with M. Kautonen) pode ser encomendado à revista através do sítio na Web
O cardápio imbatível mas conhecido

Muito se fala e escreve sobre o "modelo" irlandês de especialização internacional e naturalmente a maioria das "lições" que se enumeram são verdadeiras. O cardápio é atraente (ver caixa), o problema é que é dificilmente imitável a posteriori. Contudo, o verdadeiro segredo irlandês - "'An Rún Éireannach'", em gaélico - foi provavelmente uma regra de bom senso; essa, certamente, "clonável".

«O segredo é construir sobre o que se tem, explorando as oportunidades existentes e os sinais que vêm do tecido real. É mais eficaz apoiar o desenvolvimento de um 'cluster' emergente ou já estabelecido por razões acidentais ou históricas do empreendedorismo local, do que querer fabricar à pressão novas 'start-ups' e 'clusters'», refere-nos Colm O'Gorman, professor da Business School do University College de Dublin.

Autor de uma obra de referência sobre o empreendedorismo naquela ilha - Enterprise in Action: an introduction to entrepreneurship in an Irish Context (disponível para encomenda aqui) -, Colm acaba de publicar as conclusões da sua investigação sobre o segredo irlandês na revista Entrepreneurship and Regional Development, edição de Novembro de 2004, num artigo intitulado "Policies to promote new knowledge-intensive industrial agglomerations", escrito em parceria com um finlandês da Universidade de Tampere.

Conhecimento tácito local

Respondendo à pergunta do porquê de uma aposta pragmática, Colm responde: «É a única forma de potênciar o conhecimento tácito imbuído no sistema económico local e nas redes que historicamente se criaram. É, por isso que 'copiar' experiências alheias regra geral falha». A realidade diz que, em regra, os 'clusters' são factos emergentes e não criados em proveta política. A iniciativa empreendedora é, muitas vezes, acidental e até surge nos sítios "errados" e inesperados para escândalo dos exegetas das condições puras definidas por Michael Porter.

«Em vez de se tentar transpor o modelo, a nossa investigação sugere que a abordagem mais frutuosa para uma política pública é a de compreender em profundidade os processos de desenvolvimento local».

«Os estudos empíricos demonstram que muitas aglomerações intensivas em conhecimento não foram o resultado de políticas de intervenção directa, mas de factos acidentais e da história que provocou um processo cumulativo», diz O'Gorman, que acrescenta: «Em vez de se tentar transpor o modelo, a nossa investigação sugere que a abordagem mais frutuosa para uma política pública é a de compreender em profundidade os processos de desenvolvimento local».

Mais do que andar a alimentar ilusões em completar 'clusters' historicamente "incompletos" (na lógica de Porter), ou dar uma ênfase excessiva ao voluntarismo em tapar "falhas de mercado" ou querer forçar ligações entre a Universidade e as empresas, os responsáveis irlandeses apostaram em ingredientes óbvios para uma pequena economia: olhar sempre para fora (a estratégia de exportação é um imperativo); andar à cata dos nichos em que os grandes não se metem; facilitar a mobilidade dos recursos humanos qualificados; explorar a pequenez do país, onde há uma enorme proximidade geográfica local e regional; dar prioridade à logística internacional (particularmente aos aeroportos); apostar na diversidade da economia real.

Este último aspecto é, por vezes, pouco referido: «Há evidência empírica - diz O'Gorman - que a diversidade da malha económica é um motor fundamental de inovação», tanto mais que é conhecido o lado negro de uma dependência excessiva em relação às multinacionais estrangeiras radicadas numa pequena economia, como é a irlandesa.

CARDÁPIO IMBATÍVEL
A convergência histórica de várias políticas públicas de mudança da especialização internacional da Irlanda ainda hoje provoca estupefacção nos fora internacionais e muita dor de cotovelo. Aposta atempada na educação com a criação de recursos humanos qualificados, em muitos casos reconhecidos como superiores a outros em língua inglesa, como os do Reino Unido e dos EUA.
  • Exploração do cordão umbilical da língua inglesa e da emigração para os EUA na estratégia de captação de investimento directo norte-americano.
  • Intervenção rápida no apoio ao desenvolvimento de um sector local de software virado para o exterior no período emergente desta nova indústria a nível internacional - a Irlanda é hoje o 2º exportador mundial de produtos de software, depois dos EUA.
  • Potenciação da natureza em "rede" da sociedade irlandesa.
  • Aposta no NASDAQ no período de ebulição deste mercado norte-americano de acções com o lançamento de uma série de IPO de empresas tecnológicas irlandesas em Nova Iorque.
  • Capacidade dos gestores das sucursais irlandesas em criarem unidades estrategicamente relevantes dentro da cadeia de valor das multinacionais que investiram no país.

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