O renascimento das cidades
na era da nova economia

Jorge Nascimento Rodrigues com Saskia Sassen, especialista em economia urbana
e autora de «As Cidades na Economia Mundial» e «Globalization and its Discontents»

A digitalização e a globalização estão a revolucionar completamente o espaço urbano. Não é mais possível pensá-lo com base nos velhos modelos.

Saskia Sassen, de origem europeia, nascida em Haia, na Holanda em 1949, durante muitos anos especialista de planeamento urbano na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, e actualmente professora de Sociologia na Universidade de Chicago, deslocou-se a Lisboa a 15 de Março de 1999 para proferir uma conferência no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, a convite da Comissão de Coordenação Regional de Lisboa e Vale do Tejo.

Em entrevista exclusiva, ela referiu-se aos principais traços da sua análise inovadora sobre as cidades, que tem desenvovido em obras, como As Cidades na Economia Mundial (Título original: The Global City, publicado em 1994 e com tradução no Brasil, pela Studio Nobel, no ano passado), e A Globalização e os seus Descontentes (compra do livro), editado pela The New Press, no ano passado.

Saskia Sassen Os métodos tradicionais da sociologia urbana estão ultrapassados? Os seus trabalhos dão ideia de que os estudos urbanos perderam o combóio da globalização e da nova economia...

SASKIA SASSEN - Eu não colocaria assim a questão de um modo tão rude. Para muitos casos de cidades, esses estudos funcionam perfeitamente. E funcionam ainda para o estudo de certos tipos de questões em cidades globais. No entanto, os métodos da sociologia urbana tradicional falham em incorporar esses dois factos maiores da actualidade que refere - a globalização e a digitalização. Essas duas dinâmicas fortissimas têm impactos muito pronunciados nas cidades e nas velhas hierarquias urbanas. Veja o caso da cidade global de que eu falo nas minhas obras - ela é claramente função de uma rede. Não pode ser olhada em isolado. O crescimento de cidades como Londres, Nova Iorque ou Frankfurt é, em boa medida, alimentado por uma rede global que abrange umas 30 cidades no mundo entre as quais assistimos a uma circulação intensissima de recursos e de pessoas. Além dissom a digitalização reconfigurou ainda mais o espaço de organização da economia das cidades e dos países.

Uma das suas observações é que esses dois factos geraram o renascimento económico e cultural de muitas cidades que se transformaram, de novo, em aglomerações com nítidas vantagens competitivas em relação à fuga para os subúrbios por parte das indústrias e até de muitas multinacionais. Quer explicar como aconteceu essa inversão de tendência?

S.S. - Em primeiro lugar, pode parecer paradoxal, mas a digitlização facilitou a dispersão geográfica, mas, ao mesmo tempo, deu força também à inportância vital das funções de coordenação e controlo das empresas e dos mercados - os próprios mercados financeiros têm 'actores' reais, são 'geridos' por empresas de serviços e implicam funções de gestão central de todo o tipo. Essa 'centralização' requer gente de topo, de talento, não só dentro das sedes, mas, em geral, em toda a envolvente de serviços criando um meio inovador - em tecnologia, contabilidade, apoio jurídico, prospectiva económica, serviços especializados às empresas. Os grandes centros são concentrações massivas deste tipo de recursos. Qualquer cidade pode ter fibra óptica, estar 'cablada', mas se não tem o resto - os recursos humanos e materiais concentrados e a rede social real que maximiza a interconexão - para que é que serve? Para tirarmos o máximo partido da digitalização não é necessária só a infraestrutura. É indispensável todo o complexo de outros recursos.

Essa visão tecnocrática da nova economia é, de facto, um dos erros estratégicos que muita gente comete. Qual pode ser a sua implicação para a 'gestão' das cidades?

S.S. - No fundo, a questão é o que significa 'informação'. Há dois tipos de informação. Uma são dados: a que nível fechou a Wall Street, ou será que o Japão declarou insolvente este ou aquele banco. Mas há outro tipo de informação bem mais complexa e difícil, que exige interpretação, avaliação e discernimento. O que exige, 'negociar', se assim se pode dizer, uma série de dados e de interpretações com vista a obter conhecimento. O acesso ao primeiro tipo de informação é hoje imediato e global, graças à revolução digital. Pode ser-se 'broker' nas montanhas do Colorado e ter acesso a esse primeiro tipo de informação. Mas é o segundo tipo que exige uma mistura complexa de elementos - o que eu chamo a infraestrutura social para a conectividade global. Podemos reproduzir a infraestrutura técnica digital em qualquer parte. A questão é o resto. Concretizando: Singapura reproduziu esse tipo de infraestrutura técnica avançadissima, mas terá a infraestrutura social de conectividade que tem Hong Kong?

Há um reverso da medalha. A par desse renascimento das cidades globais ligadas à nova economia, parece haver um definhar progressivo do papel estratégico das velhas cidades industriais e das velhas cidades portuárias que vivem do export-import de mercadorias. Como é que essas cidades, outrora centros fundamentais, poderão dar a 'volta' no próximo século?

S.S. - Eu não diria que essas cidades estão condenadas em geral. Por exemplo, alguns portos tornar-se-ão estratégicos, em virtude do crescimento do comércio global. Roterdão, na Europa, é cada vez mais importante, e não Génova ou Marselha. Mesmo as mercadorias vindas do Mediterrâneo sobem por barco até Roterdão e depois são redistribuídas por via ferroviária e por TIR até à Suíça por exemplo. Porquê? Porque Roterdão tem o último grito em recursos e Génova e Marselha não. Num aparte - parece que, ultimamente, a Suíça quer 'comprar' Génova e desenvolvê-la como um 'offshore' marítimo suíço!!! Eu falaria, por isso, de um desenvolvimento desigual - uns reemergem e outros declinam. O que é que os governos e os movimentos locais podem fazer? Têm de ter em vista que os mercados tendem para concentrações espaciais. A única saída é um papel estratégico activo.

Uma das tendências preocupantes nas áreas metropolitanas de que nos fala nas suas obras é a de um fosso cada vez maior entre, de um lado, os ricos e uma classe média alta (de profissionais da economia baseada no conhecimento) vivendo em condomínios ou nas zonas chiques recuperadas, e o resto da classe média cada vez mais 'empurrada' para os subúrbios, incapaz de comprar casa na cidade, obrigada a 'comutar' longas horas para chegar ao trabalho e sem grande esperança em melhorias reais do seu nível de vida. Como é que isso aconteceu?

S.S. - Assistimos em todas as cidades globais a uma expansão dessa zona - os distritos carissimos para escritórios, para residências ou para o comércio chique. Isto tem inflacionado os preços do imobiliário de um modo inacreditável, o que impõe uma pressão insuportável para todos os sectores económicos que não conseguem gerar os altos lucros da nova economia e para a bolsa da classe média, que tiveram de abandonar a cidade. Neste aspecto, há ainda uma segunda razão adicional: mesmo a nova economia está a gerar uma população de gente muito mal paga numa imensidão de serviços. Inclusive muitos trabalhos são hoje feitos por imigrantes e minorias que se alojam na cidade, o que empurra a classe média ainda mais para subúrbios 'brancos'. Mesmo em cidades em que a classe média é ainda maioritária, ela deixou de estar visível. Os actores estratégicos do espaço urbano são outros - os com poder e dinheiro e os sem poder e sem dinheiro mas que afirmam a sua presença. Há progressivamente esse dois mundos na grande cidade - a cidade da nova nobreza urbana e a cidade das minorias. Esta presença da imigração na 'remodelação' do meio urbano é um assunto que desenvolvo no meu próximo livro Immigration Policy in a World Economy, que recusa uma visão simplista do problema.

Outra das tendências que nos revela é o crescimento da economia informal dentro do espaço urbano. Como é que as autoridades locais podem lidar com o problema?

S.S. - É um fenómeno complexo e que varia de cidade para cidade e mesmo de sector económico para sector. Alguns sectores baseados na economia informal são realmente um abuso em ternos de legislação laboral e de concorrência. Mas, o problema não se esgota aí, e não pode ser resolvido de um modo simplista, uma vez mais. Muitas vezes, a economia informal é uma das novas formas de crescimento económico que as comunidades em desvantagem têm à mão, como os pobres ou os imigrantes. São, também, como eu documento para o caso de Nova Iorque, uma resposta à procura por parte do próprio sector formal da economia. No topo da economia formal, nós temos a desregulamentação. Na parte inferior, temos a desregulamentação à moda dos pobres, a informalização.

As múltiplas geografias de Lisboa
Poderá Lisboa retomar o seu papel estratégico de outrora na Península Ibérica e face ao Atlântico?

SASKIA SASSEN - Para responder adequadamente eu preciso de um maior conhecimento sobre a vossa capital. Mas, em princípio, eu argumentaria que tudo terá a ver com as diferentes geografias de que Lisboa é parte integrante. É parte de uma divisão europeia de funções, de uma divisão de funções também na própria Península Ibérica, e de uma divisão de funções atlântica. Em segundo lugar, tudo terá a ver com a diferença específica que Lisboa representa ou queira representar: a nível cultural? em virtude de uma orientação atlântica explícita? Penso que Lisboa é óptima para o que se chama o novo tipo de turismo urbano - tem a ver mais com o espaço urbano, com a sua animação, diversidade, pontos de atração, mais do que com os museus de que a cidade dispõe pensados de um modo tradicional. Vejam o que está a acontecer com Bilbao: milhões de pessoas que lá se deslocam só para ver o edificio de arquitectura de vanguarda do Museu Guggenheim, desenhado pelo canadiense Frank O'Ghery...


OBRA DE SASKIA SASSEN EM PORTUGUÊS:
O livro As Cidades na Economia Mundial de Saskia Sassen em tradução portuguesa no Brasil pode ser encomendado directamente para a Studio Nobel através do email: studionobel@livrarianobel.com.br

ARTIGOS RECENTES DE SASKIA SASSEN:
Global Financial Centers, publicado na revista Foreign Affairs, volume 78, nº 1, Janeiro/Fevereiro 1999. Tese: O triunfo de Nova Iorque e Londres.

OUTRA AUTORA FUNDAMENTAL A NÂO PERDER:
Rosabeth Moss Kanter é outra autora fundamental para a compreensão de uma estratégia ganhadora das cidades. A sua obra World Class (compra do livro) é de referência indispensável. Veja aqui uma entrevista de Jorge Nascimento Rodrigues com a especialista da Harvard Business School.