segundo W.W.Rostow
Os políticos e os economistas têm andado «distraídos» de uma bomba ao retardador. O historiador económico mais reputado dos anos 60, criador do conceito de «etapas» de desenvolvimento económico, volta, quarenta anos depois, à carga com um problema novo – o do declínio da população nos países desenvolvidos e nos emergentes
Jorge Nascimento Rodrigues com o «pai» das etapas do crescimento
Entrevista publicada em versão adaptada na revista portuguesa Executive Digest
Página de W.W.Rostow na Web
Lista de livros (não actualizada) sobre o problema populacional
Momentos Especiais (da vida de Rostow) | As Cinco Etapas do Crescimento
Obras de Referência
ARTIGOS RECENTES (não disponíveis na Web) «Modern Japan's Fourth Challenge: The political economy of a stagnant
population», publicado em The Japanese Economic Review, vol 51, 3 (Revista
na Web aqui)«Population in the 21st Cenrtury», publicado em Technological Forecasting
and Social Change, Fall 2000 (Revista na web aqui)
Aos 84 anos (em 2001), Walter Whitman Rostow continua activo academicamente. A sua principal preocupação hoje em dia é a demografia, o que o levou a escrever, há pouco mais de dois anos, uma obra de referência - The Great Population Spike and After: Reflections on the 21st Century (compra do livro), algo muito oportuno, agora que abrimos o novo século.
Mas a principal bomba demográfica já não é a da superpopulação global, mas sim a falta de rejuvenescimento da população em zonas do globo vitais do ponto de vista do desenvolvimento económico. Em virtude deste alerta contra o envelhecimento, muitos analistas cognominaram Rostow de «anti-malthusiano».
Nos anos 60 do século passado, agitou o mundo da história económica e da economia política com uma teoria sobre o processo de desenvolvimento da Revolução Industrial, falando de um percurso de mais de 200 anos em «etapas», desde os idos 1750 até meados do século XX. O livro que, então, publicou - «As Etapas do Crescimento Económico» (The Stages of Economic Growth - compra do livro) - tornou-se rapidamente célebre.
Muitos responsáveis de política económica tentaram, depois, conseguir realizar essa passagem da primeira para a segunda vagas (utilizando as expressões de Alvin Toffler) em duas gerações, «encurtando» o tempo de mudança. Os «tigres» do Pacífico, e depois os «tigres» da Europa e da América Latina, tentaram ser a ilustração viva desse galgar de «etapas».
Mas não há milagres. Os países que, no século XX, descolaram para o industrialismo só conseguiram fazê-lo sustentadamente com base na educação e no empreendedorismo.
Se tivesse de reescrever a sua obra mais célebre «As Etapas do Crescimento Económico» (1960), o que é que mudaria?W.W.R. - Introduziria um tema novo - a queda surpreendente da fertilidade desde 1970 que fez cair as taxas para valores inferiores a 2,1 (o limiar da renovação da população) em 60 países. Neste «lote» estão todos os países industrializados e muitos em desenvolvimento, incluindo a China. Outro «lote» se seguirá nos próximos 25 anos e - se a tendência não for corrigida - a população baixará significativamente, com excepção provável da África a sul do Saara, onde a taxa de fertilidade não tem caído, ainda que a SIDA esteja dramaticamente a actuar.
A história dos últimos 30 anos validou a ideia muito popular de que é possível «saltar» por cima de algumas etapas do desenvolvimento de que falava no seu livro, ou pelo menos de as encurtar significativamente?
W.W.R. - Os novos países em desenvolvimento que surgem em cada época têm sempre à sua disposição um «arquivo» de tecnologias muito mais vasto do que os pioneiros. Deste modo, um país como a Coreia do Sul conseguiu alcançar o Japão em menos de 40 anos, desde que iniciou o «take-off» em 1961. Ora, o Japão levara 80 anos a atingir uma economia afluente, desde que iniciou a sua descolagem em 1885. Por outro lado, se recuarmos mais ainda, vemos que a Inglaterra, o verdadeiro país pioneiro do «take-off», levou 170 a 180 anos a alcançar esse mesmo estádio, desde que descolou em 1783!
Mas a imagem que temos dos «tigres» asiáticos valida ou não essa ideia de saltar etapas?
W.W.R. - A questão essêncial é que só se consegue saltar o ‘gap’ rapidamente - ou seja, tirar proveito do «arquivo» de que falo atrás - se, e só se, houver um nível educacional muito amplo e uma motivação empreendedora, algo que, por exemplo, não vemos na África a sul do Saara.
É possível identificar casos na Europa de um salto rápido?
W.W.R. - A Espanha desde 1958, e presumo que o vosso país também. A Irlanda, obviamente. Antes, a Itália tinha-o feito depois de 1896 e conseguiu alcançar a Europa industrializada.
A Nova Economia - nascida com a emergência do digital nas últimas décadas - terá algum impacto na sua teoria sobre as etapas do crescimento?
W.W.R. - Não estou, ainda, seguro das suas consequências. É certo que a ciência trabalha hoje a inovação de um modo mais veloz, se comparado com inovações anteriores, como os caminhos de ferro.
Será que o Japão conseguirá sair da crise em que se prendeu desde 1989?
W.W.R. - A meu ver a principal crise japonesa não é essa que está a pensar - mas a demográfica. Exactamente - demográfica. A mão-de-obra iniciará o seu declínio absoluto este ano (2001). A população, no seu conjunto, declinará a partir de 2007. O que chamamos de «baby boomer» foi muito curto no Japão, muito mais curto do que na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. É absolutamente necessária uma política que faça subir a taxa de natalidade dos actuais 1,38 para os 2,1 (o tal limiar de que falei).
Mas o Século do Pacífico de que se falou na década de 80 está enterrado?
W.W.R. - Não creio que esteja morto. Mas é certo que a estagnação do Japão tem tido consequências importantes para o resto da Ásia. Mas tome nota que o problema populacional está a emergir rapidamente na Europa e o seu futuro depende vitalmente do lançamento de uma política demográfica adequada. Eu desenvolvi o tema, como sabe, no meu livro The Great Population Spike and After.
Estaremos a aproximar-mo-nos de um período de abrandamento do crescimento das economias desenvolvidas neste início de século?
W.W.R. - Espero algum abrandamento no curto prazo. Mas muito dependerá da forma como os países industrializados enfrentarem os problemas, incluindo o da população, a que me referi. E, diferentemente, dos anos 30, deverão – terão – de fazê-lo em conjunto.
MOMENTOS ESPECIAIS Walt Whitman Rostow é um novaiorquino nascido no início do século XX. Conta hoje com 84 anos, mas continua a levar uma vida académica activa na Universidade do Texas em Austin, onde é professor emérito de Economia Política.
Formou-se em Yale em 1936 e tirou o doutoramento em 1940. Frequentou Oxford em Inglaterra. A sua carreira universitária começou em 1940 na Universidade de Columbia. Leccionou, mais tarde, em Oxford (1946-47), em Inglaterra, e entre 1950 e 1961 foi professor de história económica no Massachusetts Institute of Technology, em Cambridge (Boston). Desde 1969 que se radicou na Universidade do Texas em Austin.
Mas a par desta sua carreira académica de historiador económico e especialista em economia política, Rostow teve um curioso percurso político na área da «intelligence» geo-estratégica e do planeamento estratégico.
Ele havia sido major dos serviços secretos durante a 2ª Guerra Mundial. Depois do fim do conflito, entrou no Departamento de Estado norte-americano para a área dos assuntos económicos austro-germânicos. Em 1947 tornava-se adjunto do secretátio executivo da Comissão Económica americana para a Europa. É, dessa época, que ele guarda uma recordação especial e uma conclusão premonitória: «Trabalhei na gestão da alocação do carvão americano, alemão e polaco, e tendo tido o privilégio de ter observado de perto a Europa de Leste, concluí, na altura, que o ‘império’ de Estáline naquela parte da Europa não perduraria e que quebraria na terçeira geração. E escrevi-o mais tarde na minha obra de 1960», refere-nos Rostow, sendo a obra a célebre «As Etapas do Crescimento Económico», que tinha como pós-título sugestivo «Um Manifesto não-comunista».
Voltaria à política activa com John Kennedy, que em 1961 o nomeou assessor de Segurança Nacional. E em Dezembro do mesmo ano passava a conselheiro do Departamento de Estado e a presidente do Comité de Planeamento desse departamento, funções que exerceu até 1966 (mesmo depois do assassinato de Kennedy em 1963).
Do período de convivência com o presidente mais emblemático da América do pós-guerra, Rostow guarda um momento particularmente crítico – o do fiasco da Baía dos Porcos (em 1961, em Cuba). «Fui arrastado para esse fiasco quando a nossa tropa ainda estava nas praias de Cuba e trabalhei muito perto de Kennedy para ‘liquidar’ essa aventura», confessa. Guarda momentos de particular satisfação quando esteve no Comité de Planeamento: «Foi muito divertido, de facto».
Em 1966, Johnson (que sucedera a Kennedy) voltaria a chamá-lo para assessor de Segurança Nacional, onde esteve até 1969.
Depois destes quase 25 anos de política, não regressou.
AS CINCO ETAPAS O esquema histórico do desenvolvimento económico do capitalismo industrial por «etapas» foi apresentado publicamente por Walter Whitman Rostow no Congresso Internacional de História Económica em Estocolmo em 1960.
O que hoje pode parecer um exercício de «arqueologia» económica, teve um impacto enorme nos anos 60 e 70. A ideia das «etapas» do desenvolvimento, e em particular o conceito de «take-off», influênciou largamente os políticos, economistas e estudantes dos países então emergentes que pretendiam «industrializar-se».
O «take-off» é estatisticamente visível através de três indicadores nos séculos XVIII e XIX – o aumento evidente das taxas de crescimento da produção industrial (de 1,5% ao ano para 2,6% e depois para 2,9% e 3,5%, nos períodos sucessivos entre 1705/1785, 1780/1830, 1820/1840 e 1840/1860, segundo as séries construídas por Rostow) e por habitante; a duplicação da taxa liquída de poupança (mostrando o esforço de acumulação); e a sucessão de indústrias motrizes (têxtil, siderurgia, caminhos de ferro) – e de uma verificação «qualitativa» constatável num processo «auto-sustentado» (como lhe chamou o académico).
As cinco «etapas» surgiram do estudo empírico do desenvolvimento da Revolução Industrial nos países pioneiros.
Segundo Rostow, a primeira «etapa» decorreu, no caso de Inglaterra, entre 1700 (em que dominava a economia agrária, a primeira «vaga» como lhe chamaria Alvin Toffler mais tarde) e 1750 quando se começaram a reunir as condições básicas para a descolagem (ou «take-off») do industrialismo, altura em que se abriu uma segunda «etapa». Ou seja, em 50 anos deu-se uma mudança «silenciosa».
A terceira «etapa» do «take-off» ocorreria, em Inglaterra, uns trinta anos depois, por volta de 1783. O industrialismo chegaria a uma quarta «etapa» de amadurecimento do modelo a partir de 1850.
A quinta «etapa» foi designada por Rostow como «era do consumo de massa» e ocorreu um século depois, por volta de 1950 a 1960, em países como a Inglaterra, os Estados Unidos, o Canadá, a França, a Alemanha e a Suécia.
OBRAS DE REFERÊNCIA The Stages of Economic Growth – a non-communist Manifesto, 1960 (reedições em 1971 e 1990) Politics and Stages of Growth, 1971 The World Economy, 1978 Rich Countries and Poor Countries, 1987 History, Policy and Economic Theory, 1989 Theorists of Economic Growth from David Hume to the present with a perspective of the next century, 1990 The Great Population Spike and After: Reflections on the 21st Century, 1998 Concept and Controversy: 60 years of taking ideas to market, 2000
|
|
|
|
|