Revelações 2004

Casos de Empreendedorismo Português seleccionados

Por Jorge Nascimento Rodrigues, Janelanaweb.com, Fevereiro 2004
Versão reduzida publicada no semanário português Expresso


História 3 - Elogio da Geração das «Start-Ups»
por um português na Florida

«Não devemos menosprezar a dinâmica das 'start-ups'. São, normalmente, empresas muito dinâmicas com um crescimento acelerado que têm impacto quer a montante como a jusante», diz o professor José Carlos Príncipe, há 17 anos na Universidade da Florida, Estados Unidos

Perfil de José Príncipe

Uma malha de "start-ups" é "um dos nichos necessários para um tecido económico moderno" e uma geração empenhada nesse tipo de iniciativa empreendedora é "psicologicamente fundamental", afirma José Carlos Príncipe, um português há 17 anos na Universidade da Florida, em Gainesville, nos Estados Unidos, onde é fundador e director do Laboratório de Neuroengenharia Computacional. "Não devemos menosprezar a dinâmica das 'start-ups'. São, normalmente, empresas muito dinâmicas com um crescimento acelerado que têm impacto quer a montante como a jusante. A montante temos as universidades e os laboratórios que estão sentados num pote de tecnologia que não sabem ou não têm interesse em utilizar. A jusante, muitas dessas jovens empresas são, depois, compradas por empresas maiores já estabelecidas, trazendo inovação tecnológica para os médios e mesmo grandes grupos", diz, com ênfase, este professor de 53 anos que lida com modelação de redes neuronais artificiais e com processamento avançado de sinais.

O equilíbrio dos últimos anos, em que os doutorados e mestrados acabavam por encontrar saída profissional graças à sua condição social, está a ser alterado pela injecção de um número crescente de pós-graduados, oriundos de uma faixa muito mais ampla da sociedade portuguesa, que ultrapassa a capacidade de absorção desta.

Para quem olha o nosso país a partir dos Estados Unidos, o papel das vagas de "start-ups" na renovação do tecido empresarial local e regional e na emergência das revoluções tecnológicas é uma ideia de senso comum, inclusive fortemente acarinhada pelos media. Basta recordar que uma revista, com o impacto mundial da Fortune, ainda recentemente fechou o ano andando à procura de jovens empresas "cool" (tendo descoberto uma portuguesa, a Outsystems - LINKAR história 4 de 2003 -, como então noticiámos). O professor português da Florida discorda, por isso, da "ideia redutora de que as jovens empresas criadas por empreendedores não criam massa crítica", rotulando esse tecido económico de atomizado e sem impacto substantivo nas economias locais e regionais. Admira-se, também, que os media em Portugal ignorem, em larga medida, essa economia real - revelando um pendor excessivo para o futuro da cor da bandeira dos velhos grupos financeiros ou para as ambições políticas locais dos gestores de topo das multinacionais e dos grupos cotados.

Um equilíbrio rompido

A massa cinzenta portuguesa nas universidades ou no fim de licenciatura, os milhares de doutorados e mestrados mal aproveitados ou no estrangeiro, são o "alvo" da chamada de atenção do professor da Florida. José Príncipe fala de uma alteração de fundo na situação portuguesa que está a ocorrer: "O equilíbrio dos últimos anos, em que os doutorados e mestrados acabavam por encontrar saída profissional graças à sua condição social, está a ser alterado pela injecção de um número crescente de pós-graduados, oriundos de uma faixa muito mais ampla da sociedade portuguesa, que ultrapassa a capacidade de absorção desta". Ora, o incentivo ao empreendedorismo destes cérebros pode ser um dos antídotos ao inevitável aumento da sua fuga, nomeadamente para os Estados Unidos, ou ao engrossar de um desemprego de novo tipo, altamente qualificado, para o qual ainda não há números fidedignos.

Uma das alternativas que tem sido citada é o emprego desses cérebros em centros de competência locais, fruto de "outsourcing" de recursos de conhecimento em Portugal por parte das multinacionais. "É um modelo de aproveitamento. O meu problema é que o país tem pouco controlo sobre a longevidade destes investimentos. Mas é claro que, enquanto o pau vai e vem, folgam as costas. Por isso devem ser aproveitadas essas oportunidades", comenta o nosso interlocutor. Alguns exemplos mundiais de "outsourcing" de competências em países como a Índia e a China revelam hoje que muitos dos quadros que passaram por essas "escolas" criam depois as suas "start-ups", algumas delas fazendo mossa aos próprios antigos empregadores, não só nos mercados locais como no mundo.

Adrenalina empreendedora

José Príncipe fala com entusiasmo da adrenalina das "start-ups" - ele próprio, já depois dos 40, foi fundador e continua vice-presidente da área de investigação na NeuroDimension, uma "start-up" criada em 1993, na Florida. "Por experiência própria afirmo que liderar 'start-ups' é enormemente gratificante e proveitoso. O entusiasmo, a camaradagem, o permanente desafio para ser o primeiro a criar novas realidades, são muito semelhantes a dirigir um laboratório de investigação", sublinha. Argumenta, ainda, que "a avaliação desta aventura só pode ser feita a médio prazo e devemos pensar que é uma das únicas alternativas viáveis para modernizar o país e criar riqueza sem colonização estrangeira".

Os gestores de topo das grandes empresas e do "velho capital" devem estar de olho nas "start-ups". Nos Estados Unidos, esse grupo transformou-se no que é designado por "business angels".

Olhando para Portugal - país que não perde de vista, pois "não passo mais de 4 meses sem o visitar" -, este actual presidente da Sociedade Internacional das Redes Neuronais aponta o dedo a um grupo social que deveria ser mais pró-activo em relação aos empreendedores. Fala do dever dos gestores de topo das grandes empresas e do "velho capital" para estarem de olho nas "start-ups". Nos Estados Unidos, esse grupo transformou-se no que é designado por "business angels", gente abastada de sucesso que pode criar sinergias entre o mundo do empreendedorismo e o tecido económico mais maduro.

José Carlos Príncipe
  • 53 anos
  • A família, mulher e duas filhas, nasceu em Portugal, mas está naturalizada norte-americana
  • Licenciado em engenharia eléctrica na Universidade do Porto em 1972
  • Fez mestrado e doutoramento na sua área na Universidade da Florida entre 1974 e 1979, neste último caso com uma bolsa Fullbright
  • Inicia a carreira de professor na Universidade de Aveiro em 1980
  • Torna-se professor associado na Universidade da Florida em 1987 durante um período de sabática
  • Funda o Laboratório de Neuroengenharia Computacional (CNEL) na Universidade da Florida em 1991
  • É presidente da International Neural Network Society
  • É membro do comité científico da Food and Drug Administration
  • As suas áreas de interesse são: teoria dos sistemas adaptativos, neuroengenharia, dinâmica não-linear
  • Já supervisionou na Universidade da Florida três mestrados e um doutorando português. «Neste momento não tenho nenhum aluno português, mas ando à procura», confessa
  • Recebe uns 200 e-mail por dia, mesmo depois do filtro "anti-spam"
  • Usa regularmente o sistema de mensagens instantâneas via Web e câmara na Web
  • Os seus "gadgets" pessoais são: um IBM "thinkpad", um telemóvel, e uma máquina fotográfica digital
  • E-mail: principe@cnel.ufl.edu
  • Sítio na Web do CNEL: www.cnel.ufl.edu
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