Revelações 2004

Casos de Empreendedorismo Português seleccionados

Por Jorge Nascimento Rodrigues, Janelanaweb.com, Fevereiro de 2004
Versão reduzida publicada no semanário português Expresso


História 2 - Software israelita com sal português

Fernando Pereira, um português em San Diego, dirigindo à distância uma equipa de cérebros em Israel

Mais uma "start-up" de alta tecnologia com um pouco de sal português está em foco na Califórnia e em Nova Iorque. O seu nome pouco diz ao leitor português - baptizada OpTier prepara uma versão beta de um software para optimização de sistemas distribuídos que deverá ser lançado em meados do ano com aplicações piloto em empresas da Califórnia e da Wall Street de Nova Iorque. Entretanto assegurou este mês uma segunda ronda de financiamento de capital de risco por parte da Lightspeed Ventures Partners, de Menlo Park, no Silicon Valley. O condimento luso é Fernando Pereira, que com israelitas criou esta jovem empresa.

Fernando poderia ter sido um pacato professor de física nos arredores de Lisboa, mas aventurou-se no software e, depois de uma carreira por grandes empresas e multinacionais da informática e da consultoria em tecnologias de informação, apanhou o vício das "start-ups". Em Portugal criou com um sócio a Minisoft (nome na mesma onda da famosa "micro" criada pelo homem mais rico do mundo) e depois em Inglaterra fundou a Cardume Software para proteger intelectualmente um programa que criara, que metia em inglês notáveis espécies da nossa dieta alimentar - "tuna", atum, foneticamente aparentado com "tuning" que se relaciona com a afinação da linguagem das bases de dados, e "codfish", bacalhau, que se aproxima de "codd", uma figura importante nas bases de dados.

Ora foram estes "peixes" de software made in Portugal que lhe cruzaram o caminho com Yori Lavi, então a trabalhar na Compuware - Fernando apresentara o seu "TunaSQL" pela primeira vez numa feira em Los Angeles e, por influência do seu amigo israelita, acabaria por o vender à multinacional em finais de 1998, o que mudou geograficamente a vida de Fernando. De Linda-a-Vellha saltou para a Compuware instalada em Detroit no Michigão. «Fui para a neve e o frio durante dois anos», comenta o nosso interlocutor, que acabou como residente, com a família, nos Estados Unidos. Até que, em 2001, uma outra oportunidade na Compuware em San Diego o «levou de volta ao sol», ironiza com alívio.

A geografia desta "start-up" é sinal dos tempos de globalização em certos sectores: o dinheiro do capital de risco vem da Califórnia e de Israel, o CEO é um emigrado a viver em Nova Iorque, a massa cinzenta em "outsourcing" está em Israel, e um português comanda operações de desenvolvimento a partir da sua casa na costa do Pacífico!

Acabou, no ano passado, por ser desafiado pelo ex-colega israelita para fundar a nova empresa, cujo produto ainda é segredo e que foi financiado nos últimos seis meses por empresas de capital de risco israelitas e californianas num montante de 12 milhões de euros. «É sempre mais estimulante do que trabalhar num grande grupo» - assim justifica Fernando Pereira a aceitação do convite do amigo Yori.

Geografia da globalização

A OpTier, cujo sítio na Web ainda adverte que a empresa está na fase "discreta", tem sede em Nova Iorque, mas tem a equipa de desenvolvimento de 20 especialistas em Ramat Gan, perto de Tel-Aviv, em Israel, com quem Fernando trabalha «com as horas todas trocadas» à distância de 10 fusos horários de diferença a partir de San Diego. A geografia desta "start-up" é sinal dos tempos de globalização em certos sectores: o dinheiro do capital de risco vem da Califórnia e de Israel, o CEO é um emigrado a viver em Nova Iorque, a massa cinzenta em "outsourcing" está em Israel, e... um português comanda operações de desenvolvimento a partir da sua casa na costa do Pacífico!

Fernando Pereira é mais um exemplo de um português sub-40 que não olha à geografia para prosseguir o seu voluntarismo empreendedor. Mais uma história "lá fora" reveladora de uma nova geração lusa cosmopolita.

Apesar de vir a Portugal todos os anos com a família, este luso em San Diego afirma que «não está nos seus planos imediatos regressar a Portugal» e refere que a criação de uma equipa de desenvolvimento na Europa provavelmente não recairá sobre o seu país natal...mas na Roménia, esta semana visitada pelo primeiro-ministro português. «A Roménia é hoje uma alternativa, na Europa, aos 'pesos pesados' mundiais do 'outsourcing' - Índia, China e Brasil. Portugal é mais competitivo na qualidade do trabalho do que a Roménia, mas fica muito longe em custos e quantidade de pessoal qualificado disponível - sobretudo neste ponto», refere-nos.

Fernando Pereira é mais um exemplo de um português sub-40 que não olha à geografia para prosseguir o seu voluntarismo empreendedor. Mais uma história "lá fora" reveladora de uma nova geração lusa cosmopolita.

Fernando Luís Nunes Pereira
  • 39 anos.
  • Co-fundador da OpTier em 2003.
  • Cursou Física na Faculdade de Ciências de Lisboa, mas não concluiu.
  • Vício das "start-ups": Minisoft (em Portugal), Cardume Software (Reino Unido) e OpTier (Estados Unidos).
  • Vive actualmente em San Diego (Califórnia).
  • Horas no computador: 8 a 10.
  • Correio electrónico: 20 "e-mails" normalmente; várias centenas se está em fase de algum projecto.
  • Uso de mensagem instantânea via Web: sobretudo via Apple iChat.
  • "Gadgets" de uso profissional diário: computador pessoal Mac, portátil Mac, telemóvel, iPod (para ouvir música digital descarregada a partir da Web em formato MP3 ou outro).
  • Local de trabalho: por vezes o café onde há uma rede sem fios, tal como em casa onde tem uma rede sem fios para os computadores e a televisão através do sistema e serviços TiVo (gravação de vídeo digital).
  • E-mail: fernandoluis@mac.com
  • Sítio na Web: www.optier.com
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