Revelações 2003

Casos de Empreendedorismo Português seleccionados

Por Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com
e gurusonline.tv, Dezembro de 2003

Versão reduzida publicada no semanário português Expresso


História 4 - OutSystems, a "start-up" cool escolhida
pela Fortune em 2003

«Espanha dá dimensão às PME», recomenda Paulo Rosado, o fundador da OutSystems, uma das seis start-up "cool" escolhidas pela "Fortune"

Sítio da OutSystems
Reportagem da Fortune, edição de 24 de Novembro de 2003

Fortune Magazine - November 24, 2003 - Vol. 148, No. 11 (Sumário da edição)

A primeira reacção do repórter da revista "Fortune" ao dar-se conta do "contexto adverso" português em que Paulo Rosado criou a OutSystems foi de admiração. Aparentemente, a "start-up" de produto de alta-tecnologia nascera no "sítio errado", o que, ainda, lhe aumentou o apetite pela história. David Kirkpatrick, um nova-iorquino, andava à procura de jovens empresas tecnológicas "cool" para uma reportagem de balanço do ano na revista mais lida pelos gestores de todo o mundo, e ficou incrédulo com o que ouviu, em menos de cinco minutos, do empreendedor português de 38 anos.

A história conta-se em poucas linhas. Por pura coincidência, à mesa de um pequeno almoço, em Berlim, no âmbito de uma conferencia internacional, o repórter exclamou alto e bom som, ao ouvir Paulo Rosado explicar a proposta de valor da "start-up" que havia criado em Lisboa: "Mas isso é mesmo pragmático". Para os americanos, depois de um quinquénio de "vapourware" (treta, diríamos na gíria) no marketing e vendas de software e de cansaço e prejuízo com um sobre-investimento em novidades, soluções que dão retorno rápido no investimento são, logo, consideradas ouro.

David fez o trabalho de casa e ficou impressionado com as explicações da Brisa, um dos clientes de referência da OutSystems em Portugal. Daí à saída de Paulo Rosado na edição da "Fortune" foi um pequeno passo. O semanário português EXPRESSO que divulgou as "aventuras" empresariais de Paulo no seu regresso do Silicon Valley em meados dos anos 90 e, mais recentemente, aquando da criação da OutSystems, foi ouvir a história deste empreendedor que acha que os portugueses têm de "fazer uma passagem pelo estrangeiro" para largarem "o mito do coitadinho", e que, em vez de lamúrias, devem ver "o mercado espanhol como uma grande oportunidade para as 'start-ups' portuguesas".

«Quem vai para fora livra-se do mito do coitadinho»

Como surgiu a reportagem na "Fortune"?

Encontrei o repórter numa conferência em Berlim, pois ficámos na mesma mesa a tomar o pequeno almoço. Expliquei-lhe em poucos minutos o que era a OutSystems e ele achou graça ao pragmatismo da abordagem. Nunca pensei que ele fosse escrever um artigo, pois o David Kirkpatrick trabalha na edição americana da revista. Passado algum tempo telefonou-me a perguntar se eu tinha alguma objecção a que referisse a empresa.

O que é que apaixonou o David, no meio de tantas "start-ups" americanas "cool" (como designa na reportagem) que ele conhece? Além do mais não sendo Portugal um paraíso para a alta tecnologia, como ele próprio frisa no artigo...

Lisboa para ele está ao mesmo nível de Paris em termos de tecnologia e não creio que tivesse ideias pré-concebidas. O interesse da história jornalística foi avaliado puramente em termos de mérito da empresa, do pragmatismo da nossa proposta de valor, e do cansaço dos americanos com o "vapourware". Mais tarde, quando ele se apercebeu do facto de em Portugal estarmos num contexto adverso, isso só lhe aumentou o interesse.

Do ponto de vista de mercado, o que é que convenceu a "Fortune"? A aplicação na Brisa, de que aliás se fala no artigo?

Não só. Houve os casos da Optimus e da EDP, na altura. Mas é claro que o telefonema da "Fortune" para Luís Pinheiro (da Brisa) ajudou. Quando responsáveis de Tecnologias de Informação, que já viram de tudo, que passaram pelo período da "bolha" e que mostram ter a cabeça no lugar, falam do nosso produto com tanto positivismo, é óbvio que isso é um óptimo cartão de visita.

Mas, devido à falta de imagem tecnológica de Portugal, tem a sensação que criou a empresa no sítio "errado"?

É claro que estar aqui obriga a um esforço redobrado e por vezes não consigo evitar de desabafar, como todo o bom português. Mas não estou arrependido. Tenho uma equipa que seria muito difícil juntar noutro sítio. Por outro lado, já temos em Portugal um conjunto de empresas - infelizmente ainda pequeno - com excelentes profissionais de tecnologias de informação, o que nos dá uma base inicial de clientes para, depois, internacionalizar.

O que é que tem convencido os vossos clientes?

A nossa plataforma é um ovo de Colombo que centraliza as operações numa plataforma única gerida pelo departamento de tecnologias de informação (TI) da empresa, mas mantendo a flexibilidade e rapidez de implementação. Um dos problemas nas empresas são os sistemas "sombra", que são aplicações departamentais que nascem à revelia do departamento de TI central, por incapacidade deste em dar resposta aos requisitos. Muitos desses sistemas são desenvolvidos por pessoal interno das unidades de negócio utilizando tecnologias díspares. Empresas de grande dimensão podem chegar a ter centenas destes sistemas "sombra". A sua manutenção é um quebra-cabeças e um sorvedouro de dinheiro. Com o nosso "Hub Edition" metemos ordem nisto.

Como é que conquistaram o vosso primeiro cliente?

Sem dúvida, devido a uma mistura de capacidade de visão das áreas de marketing e de tecnologias de informação da Optimus e da nossa reputação. Foi com eles que lançámos a primeira versão, onde se correu o risco que sempre se toma nesses momentos - o de apostar num produto de uma empresa portuguesa. Quando surgiu a Vodafone Live!, do concorrente, a Optimus conseguiu lançar uma oferta concorrente num espaço de três meses. Foi um projecto incrível, em que a determinada altura, os nossos especialistas de desenvolvimento trabalhavam lado a lado com os homens do marketing deles, a testar e a alterar diariamente o sistema final.

No fundo, a vossa solução contribui para a gestão do conhecimento disperso nas empresas?

A nossa plataforma permite não só a integração dessa torre de Babel como o acesso por toda a gente - e não só por um conjunto limitado de empregados - à informação existente. Definitivamente, nós somos dinamizadores não só de estratégias de gestão do conhecimento, como do tão falado "empowerment" dos empregados.

Da sua experiência de empreendedor em tecnologia em Portugal, desde há seis anos, que lições tirou?

No Silicon Valley aprendi essencialmente a construir produtos de software, mas em Portugal, de facto, aprendi a criar e desenvolver empresas. A minha primeira empresa, a Intervento, foi uma grande escola, porque quem lança uma empresa sem dinheiro, aprende a funcionar com pouco. Depois, a minha passagem pela Altitude Software, deu-me essencialmente a capacidade de perceber os factores críticos de sucesso neste tipo de empresas.

Que recomendações daria a um jovem empreendedor português?

O factor que tenho identificado como marcante para o sucesso de um empreendedor em Portugal é a passagem pelo estrangeiro - ir para fora. Quem vai para fora livra-se do mito do "coitadinho", e, de repente, apercebe-se que é possível fazer tão bem ou melhor do que os outros. Esta lavagem de atitude é fundamental.

E para as jovens empresas, ir para fora, é, também, essencial?

Por exemplo, eu vejo o mercado espanhol como uma grande oportunidade para acabar com um dos graves problemas das "start-ups" em Portugal: a falta de dimensão do mercado local. Não há razão para não pensarmos num mercado ibérico como o nosso mercado local. Nomeadamente, agora, que noto uma grande capacidade económica em Espanha, que não sinto nem na Holanda nem na Alemanha.

Em que ponto está a vossa internacionalização?

Temos dois clientes, a Telefonica Móviles, que recomendou a nossa plataforma para todas as suas filiais na Europa, América Latina e África, e a GoldenBytes, na Holanda. Temos outros clientes estrangeiros já em testes piloto. Para 2004 temos intenção de entrar no Reino Unido. No ano seguinte, estamos a encarar seriamente a hipótese de entrar nos Estados Unidos.

Conhecidas as dificuldades de tesouraria das PME, como têm financiado o vosso crescimento?

A experiência anterior tinha-me ensinado que uma empresa de produto precisa de um investimento mínimo à cabeça, e um milhão de euros era o mínimo. Estivemos meses sem facturar concentrados na criação do "Hub Edition", e não podíamos depender de clientes, porque, nesse caso, o produto passava a estar demasiado ligado a um cliente e deixava de ser genérico. Uma "software house" do nosso género teria necessitado do triplo, em Inglaterra. Em Outubro de 2001, uma capital de risco holandesa, a NeSBIC CTe Fund, do grupo Fortis, investiu 1 milhão na OutSystems. Agora, precisamos, de novo, de injecção de investimento para reforçar o processo de internacionalização.

Como vê o mercado latino americano?

Bom, não o vejo como um único mercado, mas sim como uma colecção de países com dinâmicas muito diferentes. A OutSystems está numa fase em que tem de se concentrar em mercados chave como sejam o Reino Unido e os EUA. Não iremos ter presença directa na América Latina, mas, no entanto, vamos suportar os nossos parceiros principalmente no Brasil, México e Chile. A Telefonica Móviles seleccionou a nível global a plataforma OutSystems Hub Edition, como já referi, e não podemos ignorar a forte presença dos nossos parceiros portugueses no Brasil.

Paulo Rosado
  • 38 anos.
  • Licenciado em Engenharia Informática.
  • Foi em 1992 para o Silicon Valley com a ideia de tirar um doutoramento.
  • Mestrado em Ciências da Computação na Universidade de Stanford.
  • Trabalhou para a Oracle no Silicon Valley.
  • Cria a Intervento em Lisboa em 1997.
  • Integra-se na Altitude Software com a venda da Intervento em 1999.
  • Funda a OutSystems-Software em Rede, SA em Março de 2001.
  • A capital de risco NeSBIC CTe Fund holandesa do Grupo Fortis investe nesta "start-up" portuguesa 1 milhão de euros em Outubro de 2001.
  • Lança a primeira versão do "Hub Edition" em Junho de 2002 com um cliente piloto em Portugal, a Optimus.
  • Proposta do produto: Plataforma de desenvolvimento multicanal que permite às empresas ligar os seus sistemas actuais em intranets ou extranets com empregados, clientes e parceiros, através de canais de Web, SMS e WAP.
  • Versão 3.0 será lançada no 1º trimestre de 2004.
  • Principais clientes: Optimus; Brisa; Transgás; EDP Valor; Ana Aeroportos; Telefonica Móviles; Golden Bytes (Holanda).
  • OutSystems é considerada pela "Fortune" umas das seis "start-ups" "cool" de 2003.

  • Empresa portuguesa que mais admira:
    Existe um conjunto de empresas que respeito mas nenhuma pela qual tenha uma admiração especial.
    Empresa que internacionalmente mais admira:
    Cisco. Pela sua cultura de aposta nas pessoas e competência, extraordinária visão e capacidade de recuperação da adversidade. Sabia que a Cisco avalia a cultura das empresas que tenciona comprar, em parte, pelo tamanho do gabinete do CEO?
    País em que gosta de viver depois de Portugal:
    Existem muitos onde não me importaria de viver temporariamente: Espanha, EUA, Dinamarca ou Brasil para dar alguns exemplos.
    Horas em computador:
    Média de 3 por dia.
    Numero de e-mails recebidos por dia:
    Cerca de 50.
    Uso de messenger:
    Com colegas de trabalho.
    Uso de vídeo-conferencia:
    Não uso, ainda.
    Gadgets diários com que anda nos bolsos:
    Uma caneta e um telefone GPRS/WAP com o OutSystems M(obile) Office. Permite-me acesso ao meu Outlook quando estou fora e evita-me ter que andar com um PDA extra.
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