Revelações 2003

Casos de Empreendedorismo Português seleccionados

Por Jorge Nascimento Rodrigues


História 3 - As filhas da AutoEuropa

As star-ups criadas por jovens quadros empreendedores que passaram pelo maior complexo industrial do "cluster" automóvel em Portugal ligado à multinacional europeia VW

Há uma primeira geração de pequenas empresas de base tecnológica ligadas ao sector automóvel que foram como que "incubadas" informalmente pela AutoEuropa nos últimos quatro anos. "Start-ups" têm sido criadas por ex-quadros técnicos e estagiários de engenharia atraídos pelo "bichinho" empresarial e pelo caldo de cultura automóvel que aprenderam dentro da multinacional de Palmela e particularmente no circuito europeu e latino-americano (destaque para o Brasil) que fizeram em projectos ligados ao sector.

As oportunidades internacionais que constataram nos anos passados "lá fora" e a insatisfação empreendedora têm empurrado uma geração da Península de Setúbal abaixo dos 35 anos para a criação de empresas em áreas de tecnologia intensiva como a robótica, a automação e a metrologia. E muitas delas começam com o vírus "global" logo à nascença, fruto da transcontinentalidade do "cluster" automóvel.

Jorge Nascimento Rodrigues em Palmela no complexo da AutoEuropa, Julho de 2003

Start-ups portuguesas com presença na Web
QLS - Industrial Metrology | OMS

Os entrevistados
Eurico Dias - hobby dos robôs; 33 anos, quadro técnico de carreira; entrou em 1993 na AutoEuropa, saiu em 2001; criou no Montijo a Iasys em 2001;
Jorge Branquinho - 36 anos; entrou em 1993 e especializou-se em metrologia; saiu em 1995 para a Zeiss ;criou em 1999 a QLS, que se vai estabelecer no Seixal este ano;
Orlando Martins - paixão pelos robôs também; 32 anos; entrou em 1994, tendo começado como operador; criou a OMS em 2000, em Vendas Novas;
Luís Flores - investigador em robótica; 30 anos; entrou em 1998 como estagiário; saiu em 2002; criou a Introsys em 2003.

A multinacional do automóvel que fez este mês (Julho de 2003) treze anos em Palmela é conhecida pelos números macro-económicos arrasadores do seu papel na economia portuguesa - 8% das exportações e quase 2% do PIB - e por ser o principal pólo do "cluster" automóvel em Portugal e um dos nós estratégicos à escala ibérica.

A AutoEuropa "arrastou" diversos grupos estrangeiros de componentes para o seu parque industrial e é cliente de referência para outros grupos estrangeiros e portugueses particularmente no Norte e Centro do país. Mas há um aspecto menos mediático da "revolução social" que o pólo automóvel de Palmela imprimiu. Apesar da difícil situação da Península, a criação de micro e pequenas empresas altamente especializadas para o sector automóvel é uma janela de oportunidade que está a ser explorada desde operadores de linha autodidactas a finalistas de engenharia.

Revolução social

Os casos contam-se pelos dedos das mãos, mas são simbólicos. Eurico Dias, Jorge Branquinho e Orlando Martins são "históricos" da empresa - entraram com vinte e poucos anos em 1993 e 1994, nos primórdios da AutoEuropa.

Orlando começou como operador de linha, mas sempre teve uma paixão pela automação e a robótica, o que o levou a subir nas funções. «Fiz a minha própria auto-formação no laboratório e aprendi com as cabeçadas 'on the job'. Depois começaram a faltar projectos novos e decidi aceitar um desafio na Alemanha de uma outra empresa para o projecto do Ford Focus e mais tarde na Bélgica», sublinha. As responsabilidades que assumiu "lá fora" despertaram-no para a iniciativa empresarial. Em 2000 arrancou com a OMS-Soluções de Automação, em Vendas Novas, e volta ao regaço da AutoEuropa, agora como fornecedor. No Verão do ano passado desenvolveu para a multinacional um grande projecto ligado à medição.

Jorge Branquinho, o mais velho desta fornada inicial, começou na área de ferramentaria em Palmela e percorreu a escola de formação do grupo na Alemanha e em Espanha. O nicho pessoal que encontrou foi a metrologia, o que o levaria a desenvolver uma carreira na Carl Zeiss (o fornecedor da AutoEuropa em equipamentos deste tipo). A Zeiss levou-o a dirigir projectos em toda a América Latina: «Durante quatro anos calcorreei aquele continente em projectos da Ford, VW, Mercedes Benz, Volvo, Audi e BMW. Voltei à Alemanha e propus aos alemães criar uma equipa em Portugal. Em determinado momento, em 1999, senti que não estava a ter o apoio necessário para levar para diante os projectos do jeito que mereciam e criei a Quality Lisbon Services», diz-nos Branquinho. A empresa irá instalar-se em breve no Parque Industrial do Seixal em instalações próprias e em 2001 abriu uma filial no Brasil e para o ano projecta entrar em Espanha.

A paixão pelos robôs

Eurico Dias, por seu lado, foi um típico quadro de carreira da AutoEuropa. Entrou como técnico de manutenção na área de portas, mas com a formação em electrónica passou para o laboratório da área e tornou-se líder da equipa, tendo subido, depois, a supervisor e a supervisor sénior. Mas tinha um "hobby" - os robôs. «Eles pareciam dar vida ao que eu penso e ao que programo», confessa Eurico, que aceitou em 2000 um desafio da Stadco (um fornecedor inglês da AutoEuropa) para fazer consultoria no projecto da Ford Amazon em Salvador da Bahia, no Brasil. No regresso, o "hobby" transformou-se no negócio da sua vida - criou com um sócio, Rui Ferreira, a IASYS- Integração de Sistemas e Automação Industrial, no Montijo, que trabalha para o mercado europeu.

O caso mais recente, ainda de fraldas, é fruto da paixão de Luís Flores pelos robôs. Ele é de uma geração mais nova, mas fez parte de uma primeira fornada de estagiários na AutoEuropa provenientes da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Começou em Palmela com o projecto de final de curso em 1997, participou no primeiro projecto chave-na-mão de robótica para soldadura de tejadilhos em 1998, e acabou por fazer um percurso durante seis anos na Alemanha, Bélgica e Reino Unido na programação de robôs para vários modelos da Ford. Veste as duas peles, «de engenheiro de chão-de-fábrica e de investigador», como gosta de sublinhar, e é um fã da nova corrente da robótica liderada por Rodney Brooks do MIT. Este ano resolveu criar com o irmão e com o pai (o famoso criminologista Moita Flores) a Introsys, que dá, agora, os primeiros passos em direcção ao mercado europeu.

O próximo rebento
É mais um projecto de final de curso de engenheiros de tecnologias de informação (TI) da Faculdade de Ciências e Tecnologia do Monte de Caparica que pode vir a gerar na Península de Setúbal mais uma "start-up" naquela área tecnológica ligada ao "cluster" automóvel. O estágio recente na AutoEuropa dos finalistas Nuno Ramos, Carlos Nunes e Luís Marques gerou um sistema de gestão da qualidade no departamento de soldadura das carroçarias na multinacional de Palmela que nem os próprios «tinham ideia das proporções que viria a tomar», refere Carlos Nunes. «O que era para durar apenas seis meses, prolongou-se por quase um ano. Detectámos uma série de outras funcionalidades não previstas inicialmente que sugerimos e programámos para o sistema», acrescenta Nuno Ramos.
O programa "customizado" que criaram já despertou interesse noutras empresas do grupo VW, nomeadamente em Espanha. O ganho de produtividade na gestão da qualidade foi significativo - o que só se sabia no dia seguinte, através do sistema anterior, agora está "online". O sistema permite, em permanência, apurar os dados de análise da qualidade da soldadura por meio de ultra-sons e gera automaticamente e trata do ponto de vista estatístico as falhas nas juntas. Permite, depois, gerir "just-in-time" as actuações sobre essas falhas.
O boca-a-boca no sector tem aberto oportunidades de divulgação na Europa e no Brasil. «Vamos analisar várias propostas em mãos e avançaremos para a que nos der mais garantias de uma parceria com sucesso», diz Luís Marques, para concluir que essa opção dará o "empurrão" no início de actividade da futura empresa, cujo processo de criação já está em curso.

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