Revelações 2003

Casos de Empreendedorismo Português seleccionados

Por Jorge Nascimento Rodrigues


História 1 - O Senhor «Acessibilidade»
Francisco Godinho, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (Portugal), criador do Acessibilidade.Net

O galardão português "Personalidade do Ano da Sociedade da Informação" premiou o trabalho de sete anos de Francisco Godinho, o jovem engenheiro electrónico transmontano que, desde meados dos anos 90, abraçou em Portugal a luta para tornar o software e a Internet acessíveis a todos os cidadãos com actividade limitada. O prémio coincidiu, oportunamente, com o Ano Europeu das Pessoas com Deficiência e foi atribuído em Maio de 2003 pela Associação para a Promoção e o Desenvolvimento da Sociedade da Informação, com apoio do semanário português Expresso.

Godinho tornou-se uma referência nesta área desde que coordenou em 1999 a petição pela Acessibilidade da Internet que viria a ser aprovada em 30 de Junho daquele ano pela Assembleia da República portuguesa. Lançou, também, o grupo português pelas iniciativas em acessibilidade que teria um papel relevante na aprovação de um plano de acções no quadro do programa eEurope lançado durante a Presidência portuguesa da União Europeia e foi animador da petição para a acessibilidade do governo electrónico nos países ibero-americanos.

Governo lança acções

A par deste prémio, o jovem brigantino de 35 anos recebeu, esta semana, uma "prenda" extra: a aprovação de um pacote de medidas porque se vinha batendo, analisadas na Comissão Interministerial para a Inovação e o Conhecimento, sob proposta da Unidade de Missão Inovação e Conhecimento (UMIC). O governo lançou esta semana um conjunto de medidas que "actualizam" a Iniciativa Nacional para os Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade da Informação, lançada em 1999. Godinho participara então nessa iniciativa do ministro da Ciência Mariano Gago, e integrou, agora, o grupo de trabalho junto da UMIC dirigida por Diogo Vasconcelos.

Entre as medidas que vão ser postas em prática há várias estratégias defendidas por Francisco Godinho - como uma RTP mais acessível com um mínimo de 5 horas de programação com legendagem ou linguagem gestual até 2005; o desenvolvimento do marco electrónico de correio Braille, um serviço lançado pelo jovem transmontano no sítio na Web Acessibilidade.net; a elaboração de normas nacionais de acessibilidade com o Instituto Português de Qualidade; e um canal de distribuição de obras em suporte digital regulado pela Biblioteca Nacional.

Medidas mais ousadas

Godinho pretende, no entanto, ir mais longe em áreas como o ensino ou a televisão. Cita, por exemplo, o caso do Chile «onde há um sistema rotativo entre as estações de televisão para a tradução gestual dos noticiários» e acha que com o adiamento da televisão digital terrestre poderia ser testado na televisão por cabo «um canal para conteúdos adaptados à população com incapacidade».

No campo do ensino fala de «uma medida ambiciosa e pioneira a nível mundial de criação de uma licenciatura em engenharia de reabilitação e de acessibilidade». Refere, com agrado, que o presidente da Associação das Universidades da Região Norte, o reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), defendeu, também esta semana, junto de todas as universidades portuguesas a introdução nos curricula dos cursos de engenharia e informática das matérias relacionadas com a acessibilidade. Godinho espera que «este tipo de iniciativa provoque reacções idênticas no espaço da União Europeia».

Godinho é coordenador do Centro de Engenharia de Reabilitação em Tecnologias de Informação e Comunicação da UTAD sediado em Vila Real desde 2001 e foi promotor da Aliança Nacional para a Acessibilidade do Software. Ao finalizar, deixa uma mensagem de esperança sobre o "interior" raiano: «Estou numa região e numa universidade cuja relação afectiva muito prezo e com condições para desenvolver aquilo que profissionalmente me inquieta. Já passei a fase de acreditar que as grandes oportunidades só estão nas grandes cidades ou nos países mais desenvolvidos».


História 2 - Bailado tridimensional estreia no Funchal
O caso da Arquimedes madeirense, pioneira na tecnologia 3D estereo

O Funchal foi "inundado" em Junho de 2003 de tecnologia tridimensional estereográfica. A primeira apresentação de uma aplicação desta tecnologia decorreu na ExpoEmpresas, um certame realizado no Tecnopólo da Madeira. Trata-se de um filme realizado para o Instituto Regional de Emprego do arquipélago em que em torno de um globo terrestre orbitam várias áreas de informação que vêm até próximo do espectador. Mais arrojada, ainda, foi a apresentação em final de Junho de um bailado tridimensional estereográfico com base em coreografias dos brasileiros Henrique Amoedo e Ivonice Satie. A utilização desta tecnologia em espectáculos de dança será uma estreia a nível mundial. Estes bailados serão, depois, apresentados no continente, em Julho, a começar por Ponte de Lima e Viana do Castelo. Um CD promocional e um sítio na Web sobre estes bailados tridimensionais serão, ainda, lançados em Maio.

O palavrão técnico é provavelmente conhecido por quem já visitou alguns parques temáticos no estrangeiro, nomeadamente nos Estados Unidos, e assistiu a uma projecção deste tipo. «O 3D estéreo é uma técnica de projecção que permite ao espectador ter a ilusão de que as imagens têm volume e que se movem livremente para além e aquém da tela até bem próximo de si», explica Alfredo Reis, de 32 anos, um continental que rumou de Beja para a Madeira há três anos onde instalou a Arquimedes- Produções Estereográficas, uma pequena empresa que é considerada pioneira em Portugal e uma das mais avançadas a nível europeu. Pelo facto já recebeu o Prémio internacional Euroawards em 2002. Alfredo e a sua equipa juntou ao tridimensional uma forte dose de realidade virtual e do que se designa por realidade virtual "estendida".

A tecnologia 3D estéreo tem aplicações para além do entretenimento. «Imagem e publicidade, televisão, cinema, arquitectura e decoração, e ainda a formação profissional e os jogos», sublinha-nos Alfredo que trouxe consigo de Beja dois co-fundadores, Nelson Silva, produtor, e Elsa Charrua, responsável pela área de formação e pelas finanças. Aliás, na área das aplicações para formação profissional, a Arquimedes vai apresentar a 5 de Junho, no Funchal, um livro virtual, em que as páginas ao virar passam próximo do público e os conteúdos saem do livro para cima das pessoas.

Para a área de televisão, a empresa está a finalizar uma série de programas dedicados à formação na área de informática que foi baptizada de "Ilha Digital". Este filme usa um casal de apresentadores reais inseridos em cenários com uma mistura de realismo e futurismo, animados e gerados em três dimensões.

Na ainda curta carreira da Arquimedes, um dos projectos emblemáticos foi o "Projecto M" em que participou a cantora e actriz alemã Nina Hagen dando voz aos personagens virtuais. A jovem empresa fechou o ano de 2002 com uma facturação de 400 mil euros. «O tridimensional estéreo é um meio novo cujas aplicações ainda têm um longo caminho pela frente», conclui Alfredo Reis que estima o desenvolvimento de uma área de negócios em torno desta tecnologia nos próximos anos.

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