Retrato da (in)satisfação do empregado português

Os movimentos pela Qualidade motivam os trabalhadores portugueses, mas a consciência de exclusão das tomadas de decisão, a falta de reconhecimento e recompensa e as difíceis relações com as chefias toldam o ambiente nas organizações.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Novembro 2003

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O empregado típico português das grandes empresas proclama o seu envolvimento e lealdade com a organização e valoriza como factores da sua mobilização pessoal as orientações e movimentos para a qualidade, o papel da estratégia e da política da gestão de topo e as expectativas que são criadas. A qualidade surge manifestamente à frente dos dois outros indicadores mais "imateriais" de mobilização dos empregados, o que revela que o movimento no terreno, iniciado desde os anos 80, ganhou raízes entre nós.

Mas, na outra face da moeda, as opiniões revelam que a gestão típica portuguesa não reconhece nem recompensa o esforço dos colaboradores (eufemismo para trabalhador, na actual gíria da gestão), que as organizações sofrem de problemas crónicos de relacionamento dos subordinados com as chefias e que as pessoas sentem que não é dada possibilidade de participação na tomada de decisões. Preocupante, também, o facto dos inquiridos nas grandes organizações revelarem menos sensibilidade a temas, hoje em dia fundamentais, como a cooperação e comunicação internas e a propensão à mudança e inovação.

O fosso entre as "buzzwords" da moda - capital intelectual, gestão de talentos, poder aos empregados ("empowerment"), trabalho em equipa, alinhamento organizacional - no discurso dos consultores e dos gestores e a realidade é gritante.

O que significa que o fosso entre as "buzzwords" da moda - capital intelectual, gestão de talentos, poder aos empregados ("empowerment"), trabalho em equipa, alinhamento organizacional - no discurso dos consultores e dos gestores e a realidade portuguesa é gritante. O que revela uma oportunidade: a actuação "cirúrgica" sobre as dimensões que podem tornar as palavras da moda em actos. Com um "prémio" para os gestores e os accionistas - as várias dimensões que influenciam a satisfação do empregado têm um impacto de 28% sobre o lucro, muito próximo do efeito (35%) que a satisfação do cliente tem sobre a rentabilidade.

Esta radiografia do sentir do mundo do trabalho português é produzida, desde o ano passado, pelo Observatório Nacional de Recursos Humanos, uma entidade privada de parceria entre a Associação Portuguesa para a Qualidade e duas empresas, a Qual-Formação e Serviços em Gestão da Qualidade, de Coimbra, e a Qmetrics, de Lisboa, a que aderiu, a Associação Empresarial de Portugal, e, mais recentemente, a Associação Portuguesa de Gestores de Recursos Humanos. Este barómetro foi idealizado por Pedro Saraiva, fundador da Qual, doutorado pelo conhecido Massachusetts Institute of Technology norte-americano e um dos "evangelistas" da Qualidade no nosso país, e por Manuel Vilares, um especialista em estatística, líder da Qmetrics, que foi presidente do INE entre 1986 e 1992. Pedro Saraiva e Manuel Vilares são professores universitários e empresários na área da consultoria ligada à qualidade.

No quadro que publicamos referimos os principais resultados deste barómetro até Outubro deste ano com base em 4580 questionários respondidos num universo de seis grandes organizações em diversos sectores - Siemens, Celbi, STCP, Cires, TNT e Transportes Luís Simões. Os traços gerais do perfil "português" de RH não se alteraram entre os resultados divulgados sobre 2002 e os actuais.

«A ferramenta que criámos permite identificar de um modo muito pragmático domínios concretos de intervenção prioritária em matéria de recursos humanos, transformando-a numa ferramenta de gestão», afirma Pedro Saraiva, um dos "pais" do Observatório, que enfatiza: «As estatísticas não mentem!»

Além deste barómetro nacional, o Observatório, produz, confidencialmente, a radiografia de cada um dos seus aderentes e permite traçar com objectividade as estratégias de intervenção nas dimensões que mais influenciam o comportamento do empregado em relação à sua organização. Os dados obtidos empiricamente a partir do terreno - nos inquéritos - são comparados com valores agregados de referência e trabalhados por um modelo "proprietário" que utiliza um software internacional.

As estatísticas não mentem

«A ferramenta que criámos permite identificar de um modo muito pragmático domínios concretos de intervenção prioritária em matéria de recursos humanos, transformando-a numa ferramenta de gestão», afirma Pedro Saraiva, que enfatiza: «As estatísticas não mentem! Percebe-se depois muito bem o que se passa na realidade». Esta metodologia de análise distingue-se da forma tradicional de estudo da satisfação do empregado, que, em regra, se limita a fazer «uma análise descritiva dos resultados». As análises mais comuns não permitem identificar e quantificar relações de causalidade entre as dimensões analisadas e os comportamentos identificados. «É neste ponto que reside a originalidade da nossa ferramenta de metrologia das percepções e referenciais da qualidade», sublinha, por seu lado, Manuel Vilares. A ferramenta permite, ainda, prever os resultados financeiros obtidos pelo impacto futuro das acções "cirúrgicas" de melhoria sobre as várias dimensões que afectam o comportamento do trabalhador.

São objectivos do Observatório envolver mais aderentes do universo das grandes organizações, incluindo a Administração Pública, e integrar casos de PME.


QUADROS DE REFERÊNCIA

TOP 5 do barómetro da satisfação
(escala de 1 a 10)
Dimensões mais votadas
Envolvimento 7,5
Lealdade 6,9
Qualidade 6,8
Política e estratégia 6,2
Expectativas 6
Dimensões menos votadas
Reconhecimento e recompensa 4,8
Cooperação e comunicação 5,4
Relações com as chefias 5,4
Atitude face à mudança e inovação 5,4
Fonte: Observatório Nacional de Recursos Humanos,
dados do inquérito até Outubro de 2003

Questões de RH críticas
  • Sentimento de que se está mal pago
  • Sentimento de injustiças salariais entre colegas
  • Não é dada possibilidade de participação na tomada de decisões

  • Contactos do ONRH
    Professor Pedro Saraiva - e-mail: eq1pas@eq.uc.pt
    Qmetrics - www.qmetrics.pt
    APQ - www.apq.pt

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