Reinventar o Design Industrial

Tese de Mestrado de Paulo Maldonado

Importar a Gestão Estratégica para o Design Industrial e trazer à profissão e à disciplina novas oportunidades no mundo empresarial

Jorge Nascimento Rodrigues leu «O Design: Uma Visão Estratégica» e falou com o autor

O Design Industrial atravessa, de novo, um período de reinvenção estratégica. A oportunidade surge com a nova plataforma da Internet e da World Wide Web, que permite 'matar' três coelhos de uma só cajadada no processo de criação: envolver o utilizador na definição do próprio design do produto ou serviço, permitir o trabalho cooperativo em rede independentemente do local físico onde se encontram os criativos e outros participantes, e desenvolver um portfolio de aplicações complementares do mesmo design.

Acresce que o momento é o ideal para 'importar' para o design industrial a reflexão estratégica própria da gestão e para procurar, graças uma vez mais à Web, um novo processo 'produtivo' do design que juntando várias 'vozes' (leia-se diversos protagonistas e não só designers) lhe dê o formato de um 'jogo'.

Estes pontos de vista, porventura pouco ortodoxos aos olhos de alguns leitores e de alguma parte da comunidade designer, formam parte da tese de mestrado em Design Industrial de Paulo Maldonado, um arquitecto que resolveu partir da doutrina da gestão mais recente e da reflexão sobre o impacto da última vaga de tecnologias para procurar «a definição de uma nova visão estratégica do design».

Paradoxalmente, o movimento que ele propõe poderá significar partir a redoma de vidro em que alguma comunidade designer se refugia e ao mesmo tempo dar-lhe um papel estrategicamente central aos olhos de muitos decisores que continuam a ver os criativos como adornos para compôr o ramalhete.

Para o efeito, Paulo Maldonado digeriu desde pensadores da gestão mais 'dura' aos gurus do mais recente continente digital, desde Peter Drucker, a Tom Peters, Michael Porter, Gary Hamel, ou Chuck Martin e Don Tapscott, gente que raramente andará pelas estantes ou pilhas de livros no chão dos nossos criativos. Fê-lo no quadro de uma pós-graduação em Design na Fundação Gomes Teixeira da Universidade do Porto e de um mestrado na Faculdade de Arquitectura daquela Universidade, cuja dissertação em torno de «O Design: Uma Visão Estratégica» defendeu recentemente.

Misturou nessa proveta os gurus de 'management' com os pensamentos de Christopher Lorenz, um sénior do jornal «The Financial Times», reconhecido como autoridade em design e estratégia, que foi dos primeiros nos anos 80 a formular a guinada que teria de ocorrer dentro das empresas, se se quisesse explorar «o potêncial estratégico do design» como arma competitiva numa época de globalização, obsoletismo rápido dos produtos e serviços, forte mutação tecnológica e crescente exigência de diferenciação por parte dos consumidores.

Diz-nos Paulo Maldonado, recordando Lorenz: «O design não poderia continuar a ser lateral ao processo produtivo e de consumo, não poderia ser relegado para entrar no fim, fazendo o papel de tentar encaixar melhor o produto ou serviço desenvolvido pelos engenheiros. O design tem de ser central, a par da gestão e do marketing, tem de se situar no princípio de qualquer acção e em estreita colaboração com aquelas duas disciplinas e com a engenharia. As razões para esta mudança prendem-se com algumas das capacidades estruturais dos designers, que fazem a diferença ao associarem-se a outras competências».


O poder ao utilizador

Perceber-se-á melhor a ruptura que Lorenz propunha então, se olharmos os últimos vinte e cinco anos da história do design industrial. Como nos dizia recentemente Clement Mok, o fundador da Studio Archetype, um dos melhores gabinetes de design norte-americano, nós assistimos «a três mudanças de fundo», que deram a volta à profissão e à disciplina.

Nos anos 70 surgiu o 'amigável com o utilizador' (o célebre 'user friendly'), pela mão da Apple no Silicon Valley. Pensar em função do utilizador passou a ser a Magna Carta do design e da engenharia. Mok iniciou-se nesta vaga, pois era um dos chefes criativos da Apple.

Uma década depois, as empresas globais mais competitivas da época, como a Sony, a Ford ou a Philips (estudadas por Christopher Lorenz em A Dimensão do Design, que foi editado entre nós pelo Centro Português de Design na Colecção Design, Tecnologia e Gestão), deram un novo estatuto ao designer, tirando-o do «ghetto» do estilismo para a participação na direcção estratégica (por exemplo, o chefe do gabinete de design da Sony passou em 1985 a director na hierarquia da empresa e em 1988 a membro do conselho de administração).

O período actual permite o passo seguinte. Os slogans da nova época poderão ser 'o poder ao utilizador' e a 'criação em rede a várias vozes'. «A economia digital veio revolucionar a lógica anterior, ao criar condições para que os consumidores possam estar presentes nos diversos momentos do processo, desde a concepção e produção, até à comercialização e distribuição dos produtos e serviços. O designer pode recear perder a mão ao abrir o processo criativo a mais vozes. Mas estamos convictos que o futuro da profissão estará na partilha de decisões, mesmo projectuais», conclui Paulo Maldonado.

Paulo Maldonado é sub-director do Departamento de Design Industrial da Universidade Lusíada em Lisboa e 'inaugura', nesta página, a divulgação de um «Made in Portugal» em termos de novas ideias de gestão.