Fugir da prisão dos «clusters»

COMPETITIVIDADE PORTUGUESA À REVELIA DE MICHAEL PORTER

As metanacionais portuguesas nasceram no "sítio errado", nesta "periferia"
à beira-mar plantada claramente à revelia do "diamante" de Michael Porter
e das estratégias tradicionais "evolutivas" de internacionalização.
O seu principal inimigo não é a falta ou debilidade de "clusters" nacionais,
mas a inexperiência na gestão de organizações com dimensão internacional.
Na mesma semana (Abril 2002) em que o professor de Harvard (Porter) veio
a Portugal reviver os "clusters", um professor português do INSEAD
(José Pinto dos Santos) fala de um fenómeno "anómalo".

José Pinto dos Santos do INSEAD (França) apresenta o livro From Global to Metanational
no Taguspark (Portugal) discutindo o tema com seis metanacionais portuguesas
(Altitude Software, Euronavy, ChipIdea, Critical Software, Biotecnol, Neosis)

Jorge Nascimento Rodrigues numa mesa redonda organizada pelo Taguspark, Parque
de Ciência e Tecnologia localizado em Oeiras (Região Metropolitana de Lisboa, Portugal)

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Outro artigo sobre as metanacionais portuguesas
Um artigo sobre a escola finlandesa das "born global"

Capa do livro From Global to MetanationalSe o nosso país estivesse condenado a só poder ter empresas internacionalmente competitivas se nascidas no seio de "clusters", «raramente nos poderíamos dar ao luxo de ter multinacionais», afirma ironicamente José Pinto dos Santos, um professor português do INSEAD em França que com o prestigiado guru Yves Doz acabou de publicar um livro polémico em que se fala de um novo tipo de multinacional, que baptizaram de "metanacional".

Este novo tipo de firma com postura cosmopolita e expressão internacional é uma "anomalia" segundo a teoria tradicional da internacionalização. Não percorreu a escadaria clássica da internacionalização (da exportação para o contentor até à deslocalização e implantação de subsidiárias locais), nem reproduz no estrangeiro a sua cultura de origem.

No sítio errado

Estas empresas em vez de se projectarem no exterior, têm por objectivo central "cheirar", descobrir, aceder, mobilizar e alavancar o saber disperso e fragmentado hoje existente pelo mundo fora no contexto da actual sociedade e economia do conhecimento. «O saber deixou de estar concentrado na meia dúzia de 'clusters' historicamente conhecidos», sublinhou Pinto dos Santos. As metanacionais organizam-se internacionalmente em função das bolsas de conhecimento na sua área e focalizam-se, em regra, em nichos e segmentos emergentes.

Elas nasceram, nos últimos 10 a 15 anos, nos sítios menos esperados - longe dos "clusters" tradicionais de inovação. Surgiram nos "sítios errados", dizem estes autores do INSEAD, que estudaram uma série de metanacionais que tiveram o berço onde menos se poderia esperar para o desenvolvimento de um sector emergente, como aconteceu com a hoje muito mediática Nokia, a empresa finlandesa que, aliás, deu origem em finais de 1994 a esta investigação feita no INSEAD. «Eles queriam perceber como poderiam ser líderes mundiais a partir da Finlândia e vieram ter connosco. Essa motivação pragmática juntou-se à nossa vontade de investigar estas anomalias à teoria tradicional», diz o professor daquela escola francesa.

Um país condenado?

«De acordo com a teoria muito difundida do professor Porter, Portugal não teria condições de ter multinacionais, salvo honrosas excepções em ínfimos 'clusters'», prossegue Pinto dos Santos, que veio a convite do Taguspark apresentar a sua obra From Global to Metanational - How companies win in the knowledge economy e discutir as suas conclusões com seis empresas portuguesas que são sérias "candidatas" a esta nova etiqueta. «É claro que onde tivermos 'clusters', não os deveremos desaproveitar. Mas como temos muito poucos, temos de procurar outras saídas, o que muitos empreendedores têm feito», comenta.

O nosso país estaria condenado à sina de só poder ganhar vantagem competitiva em alguns sectores da sua especialização histórica ou de indústrias maduras (como o automóvel), ainda por cima vivendo o drama adicional de não ter, em regra, "clusters" completos (na definição teórica). Inclusive "clusters" embrionários, muito promissores, como o do automóvel, em torno do desenvolvimento de um tecido de fornecedores de componentes de raiz nacional ou nascido do investimento directo estrangeiro, correm o risco de problemas estratégicos de futuro, como o sublinhou, neste debate, Jaime Quesado, director geral da Agência para o Investimento no Norte de Portugal. «A evolução destes sectores colocam-nos interrogações, se não houver a capacidade de cosmopolitizar estas empresas», concluiu.

Cinco das seis empresas escolhidas para discutir o tema com Pinto dos Santos revelam bem o paradoxo destes empreendedores portugueses - criaram "start ups" em áreas onde não há "clusters" em Portugal, em que não têm concorrência interna sequer, onde a imagem internacional de Portugal como "nação tecnológica" ou inovadora é péssima, vendem muito pouco dentro do nosso país, exportam soluções e produtos com a sua marca para os quatro cantos do mundo (não são fabricantes 'brancos' nem exportam para o contentor), não se "afunilaram" no mercado ibérico nem no de língua portuguesa, tendem a recrutar equipas internacionais para trabalhar em Portugal, e mobilizam saber em várias partes do mundo, tendo inclusive localizado funções vitais (como o marketing e vendas) ou centros de investigação em países estrangeiros, inclusive fora da Europa.

Em três dos casos - Biotecnol (biotecnologia, sediada no Taguspark) fundada por Pedro Pissarra, ChipIdea (design de "chips", sediada também no Parque de Oeiras) criada por Epifânio da Franca, e Critical Software (software crítico, localizada em Coimbra) por João Carreira - nasceram da formação e vivência "metanacional" dos seus fundadores, académicos e investigadores do nosso meio universitário com fortes ligações internacionais e prestígio junto dos pares na comunidade científica mundial da área e em potenciais clientes ou investidores de referência.

Nos casos da Altitude Software (líder em "contact centers", sediada em Lisboa) liderada por Carlos Quintas e da Euronavy (tintas ecológicas, localizada em Setúbal) de Mário Paiva , os fundadores descobriram nichos de actuação mundial onde inovaram e resolveram reorientar a estratégia das empresas.

Dentro de Portas

Finalmente, o sexto exemplo, a Neosis (sistemas para o sector do retalho e distribuição, localizada no Taguspark), criada por António Máximo, foi considerada por Pinto dos Santos como um modelo exemplar de metanacional "dentro de portas". «Também se pode ser metanacional vendendo fundamentalmente no mercado doméstico», frisa o professor do INSEAD para ressaltar o cosmopolitanismo desta empresa que bebeu conhecimento em vários pontos da Europa e que foi a primeira "software house" portuguesa a estar presente na CeBIT.

O problema central destas jovens empresas metanacionais «é não ter, regra geral, profissionais com experiência de gestão e organização internacional como o têm as multinacionais ou os grandes grupos transnacionais», frisa Pinto dos Santos, aspecto a que deverão dar a máxima prioridade. «Um projecto metanacional muito promissor pode falhar exactamente pela parte operacional», conclui.

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