Dinheiro folgado não é bom conselheiro

Entrevista exclusiva com Robert W. Pricer, especialista em PME
e capitalista de risco

Jorge Nascimento Rodrigues em directo com Robert W. Pricer numa antecipação do estudo polémico que este professor americano da Business School da Universidade de Wisconsin-Madison e «venture capitalist» vem revelar ao 29º European Small Business Seminar organizado pela European Foundation of Management Development em Cascais entre 15 e 17 de Setembro de 1999

 Conclusões do estudo | Site Oficial do 29º Seminário | EFMD 

Uma capitalização excessiva em empresas recém-nascidas alimenta objectivos irrealistas que depois não são alcançados e empurra os fundadores para uma estratégia de «despesismo» nos custos fixos. Ao contrário do que se pensa em muitos meios, e se reclama, por vezes, em termos de dinheiro «fácil» para as recém-nascidas, a falta de capitalização adequada não impede o sucesso de uma jovem pequena empresa ('start-up', no calão do empreendedorismo).

Bem pelo contrário, como o demonstra um estudo de campo realizado nos Estados Unidos por Robert W. Pricer, director do Centro de Desenvolvimento de Pequenas Empresas da Business School da Universidade de Wisconsin-Madison e também administrador de uma «capital de risco», o Weinert Venture Capital Fund.

O leitor poderá ficar admirado, mas as menos capitalizadas na fase inicial, tendem a apresentar, em média, taxas de crescimento dos lucros líquidos e do retorno sobre o investimento no primeiro quinquénio várias vezes superiores às bem nutridas de dinheiro oficial ou de risco.

Bob Pricer, de 57 anos, vem divulgar o estudo a Portugal, onde vai participar no 29º Seminário Europeu de Pequenas Empresas, que decorrerá, este ano de 1999, em Cascais e no Estoril. Estes seminários anuais são realizados pela EFMD-Fundação Europeia para o Desenvolvimento da Gestão, e contam, no caso português, com o apoio do IAPMEI e a organização da Formedia, que apresenta o evento na Web.

Em antecipação a esta sua intervenção polémica, este especialista em capital de risco e professor em criação de empresas, sua gestão e financiamento, revelou-nos as principais conclusões.

Robert Pricer Este seu estudo vem virar do avesso a opinião corrente de que as empresas recém-criadas necessitam de uma boa almofada financeira para crescerem rapidamente e terem sucesso, seja dinheiro de subsídios oficiais, como acontece regularmente na Europa, sejam outras injecções de capital «fácil» alheio aos fundadores. Muitos políticos e responsáveis de associações empresariais, na Europa, reclamam constantemente este tipo de apoios logo à nascença. O que é que está errado?

ROBERT PRICER - De facto, mesmo no campo da literatura económica, quer no plano teórico, quer na análise empírica, tem-se assumido que a subcapitalização das 'start-ups' é indesejável e que implica um menor sucesso. O estudo agora realizado à evolução até 1997 de mais de 400 empresas nascidas em 1993 nos Estados Unidos, deu-nos resultados indiscutivelmente contrários a essa opinião corrente. Por exemplo, as firmas menos capitalizadas mostraram um crescimento médio do retorno do investimento liquido seis vezes superior àquelas consideradas adequadamente capitalizadas! O que daqui ressalta é que a escassez de capital nas recém-nascidas não é um factor necessariamente negativo, mas inclusive pode ser um travão importante ao optimismo irrealista dos fundadores.

Mas qual é a explicação para esse aparente paradoxo?

R.P. - A razão poderá estar no facto de que, com acesso fácil ao capital, os fundadores das empresas recém-criadas tendem a ser hiper-optimistas nos seus objectivos e acabarão por ter um padrão de comportamento baseado logo no arranque em altos investimentos em activos fixos e em estratégias que recorrem a custos fixos elevados. Este tipo de estratégia folgada aumentará o risco da jovem empresa não alcançar os rendimentos necessários para cobrir este elevados custos logo à nascença. O empreendedor, naquela fase inicial de euforia, tende a minimizar ou sub-avaliar os riscos reais que a jovem empresa enfrenta.

Qual é o «segredo» que as menos capitalizadas usam?

R.P. - Quando uma firma é menos capitalizada no início, os fundadores serão forçados pela necessidade a transformar custos fixos em variáveis em muitas áreas e funções. Por exemplo, certas funções tenderão a ser subcontratadas pontualmente a outras empresas; em vez de se criarem postos de trabalho permanente recorrer-se-á a contratação por projecto; em vez de se criar logo uma força de vendas interna poder-se-á recorrer a distribuidores, etc..

O paradoxo das 'star-ups'
Isto pode parecer uma heresia para alguns teóricos do empreendedorismo e uma provocação para os reclamantes profissionais de subsídios, mas o estudo empírico realizado por Robert Pricer junto de 432 firmas nascidas em 1993 é uma pedrada no charco. O trabalho de campo vai ser apresentado em Portugal no 29º Seminário anual organizado pela EFMD, que, este ano de 1999, terá como tema o «Apoio ao desenvolvimento de PME - as melhores práticas e inovações na área do financiamento». A equipa de Pricer seleccionou de uma base de dados americana (a Kauffman Financial Statements Database) com mais de 60 mil empresas (que ainda não foram à bolsa, a que os americanos designam de 'privadas' por oposição às que já foram e que designam de 'públicas', que vem de público accionista e não de Estado) um lote de 432 em todo o tipo de sectores que haviam nascido em 1993. A partir daí seleccionou 316 no quartil superior em termos de alavancagem financeira elevada e baixa e estudou o seu comportamento anual até 1997 (inclusive) em termos de taxas de crescimento do retorno do investimento líquido em activos e do próprio lucro líquido. Os resultados são absolutamente inesperados. Entre as 108 menos capitalizadas, o crescimento médio no primeiro indicador foi de 66% e no segundo de 72%, comparando com taxas incrivelmente mais pequenas para as 108 empresas mais capitalizadas. Nestas últimas com dinheiro «fácil», o crescimento do retorno foi apenas de 11% e dos lucros líquidos de 23% naquele período inicial de vida entre 93 e 97! A partir destes dados, Pricer procura reformular a teoria sobre o financiamento inicial das 'start-ups' e deixa dois conselhos para o período de arranque:
- adopte uma estratégia de investimento em activos fixos mais realista e menos aventureira;
- desenvolva uma estratégia de 'outsourcing' nas funções e tarefas onde isso for possível.

Mas, então, o que é que é mais importante para uma 'start-up': o crescimento dos lucros e a retribuição rápida aos fundadores, ou o crescimento da quota de mercado antes que a janela de oportunidade se feche, mesmo que à custa de prejuízos?

R.P. - Não é fácil de responder. Obviamente que em áreas de novas tecnologias é desejável ganhar quota de mercado o mais cedo possível e criar barreiras à entrada a eventuais concorrentes. Contudo, salvo raras excepções, a investigação indica que essa não é uma boa estratégia para as recém-nascidas. O problema que se coloca é saber se o mercado vai ser suficientemente grande para suportar os custos dessa estratégia. É preferível começar por atingir o ponto em que o fluxo de caixa «paga» os custos, antes de embarcar em planos de expansão. Se este ponto não é atingido, quando se desenham estratégias hiper-optimistas e se embarca em investimentos fixos elevados, o que acontece é que a pequena empresa começa a operar de uma forma que requer um financiamento crescente contínuo, a certo ponto insustentável. Se o ponto de equilíbrio for mais baixo, mesmo que as projecções ultra-optimistas não sejam atingidas, a 'start-up' fica protegida da falência. Se as projecções forem alcançadas, melhor: a jovem empresa poderá crescer com uma estrutura de custos e de receitas provada, e isto aumentar-lhe-á as hipóteses de sucesso.

Sendo assim, quando é que o capital de risco deve entrar para potenciar uma estratégia de crescimento numa jovem empresa?

R.P. - Se definir o que nós chamamos nos EUA de 'venture capital' como um fundo para investir nas primeiras fases de empresas com alto potencial de crescimento, a minha resposta como capitalista de risco é esta: só num conjunto muito seleccionado de empresas. Tome nota, que nos EUA, esse capital só é usado por 5% de todas as 'start-ups'. A razão para esta selecção muito fina está nas altas taxas de retorno que os capitalistas de risco exigem: por exemplo, para 'capital semente', elas andam entre os 75 e os 125% em termos de taxa anual composta; para financiamento à primeira fase (de entrada no mercado) a taxa anda entre os 35 e os 60% anuais. Estas taxas são assim tão elevadas, em virtude do grau de falhanço nestas jovens empresas. Por isso, só mesmo as que tenham um potencial de crescimento extraordinário conseguem ser financiadas. Também por essa razão, muitas capital de risco só entram, depois, na altura da fase de expansão de mercado e em MBO (management buy-out, na expressão anglo-saxónica, ou seja, a aquisição de uma empresa por um grupo de quadros seus ou por uma equipa de gestores de fora), situações em que os mercados já estão provados e o risco é obviamente menor. Ultimamente, esta tendência para entrar nesta última fase tem-se acentuado.

Mas pensa que estas suas conclusões devem ser aplicadas à economia digital, onde a pressão de ser primeiro no mercado e de consolidar uma quota de liderança é vital?

R.P. - Absolutamente, sem tirar uma vírgula. E olhe que já estamos a verificar uma mudança no comportamento no investimento em firmas de 'hi-tech' aqui nos EUA. De facto, no passado, recém-nascidas como a Amazon.com conseguiam atrair fundos enormes na base desses argumentos que expôs, tal como já o tinham feito as empresas de biotecnologia. Mas, agora, os investidores em 'start-ups' descobriram que essa corrida ao mercado nem sempre funciona. Porquê? Pelas razões que já lhe expus: estes investidores verificam que o financiamento excessivo empurra os empreendedores a construir empresas baseadas em projecções de receitas e custos totalmente irrealistas. Veja o caso da euforia de empresas com o '.com' que nunca fizeram um centavo, nem têm expectativa de o vir a fazer no futuro próximo.

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