A Próxima Vaga de Gurus

Foto: 6 Gurus
Jorge Nascimento Rodrigues com Stuart Crainer

Está na forja uma nova colheita de gurus em «management». Novos nomes vão afirmar-se no cenário da literatura e consultoria de gestão no virar do século. O que esta vaga traz de diferente é a deslocação do epicentro de produção teórica da «catedral» da gestão - a Harvard Business School, em Boston, nos Estados Unidos - para um mosaico de pólos, em que a Europa e especialistas europeus podem jogar uma cartada decisiva.

Essa é a opinião de Stuart Crainer, um escritor e jornalista de gestão inglês, que está a desenvolver uma investigação sobre esta nova vaga de gurus para a revista inglesa «Management Today» (o trabalho do autor pode ser consultado, na versão integral inglesa).

Crainer "descobriu" seis promessas a fixar, em que a origem europeia e norte-americana se reparte igualmente. São eles: Christopher Meyer, que dirige o Centro de Inovação em Negócios da Ernst & Young (www.ey.com/cbi/), em Cambridge, Boston, David Arnold, um inglês que conseguiu "entrar" e subir em Harvard, Don Sull, um americano que escolheu a London Business School, Fons Trompenaars, um holandês, Julian Birkinshaw, outro inglês que escolheu a Suécia, e Peter Cohan, que dirige a sua própria empresa de consultoria em Marlborough, no Massachusetts, e que escreveu um dos 10 livros de gestão mais lidos no ano passado, «The Technology Leaders - How America's Most Profitable High-Tech Companies Innovate Their Way to Sucess» (Compra do Livro).

Alguns nomes são, provavelmente, desconhecidos do leitor português, mas é bom que os aponte e lhes siga a trajectória daqui para o futuro. O próprio ano de 1998 poderá ou não validar esta «hipótese» de pesquisa.

Mas já há algum tempo que o monopólio de Harvard vinha sofrendo algumas arranhadelas. Olhando para algumas das «buzzwords» mais quentes dos últimos anos, como a «reengenharia» lançada por Michael Hammer e James Champy ou a «organização que aprende» de Peter Senge, vemos que o seu berço, ainda que situado na área de Boston, nos Estados Unidos, se encontrou fora de Harvard.

Ultimamente, outras escolas como a Sloan School of Management (do Massachusetts Institute of Technology) têm afirmado investigação de ponta, como o projecto em torno da organização empresarial do século XXI dirigido por Tom Malone.

Mas o fenómeno efectivamente novo, segundo Crainer, é a emergência da Europa como «ambiente» de produção teórica crescentemente reconhecido no terreno do management. Casos como Gary Hamel, Sumantra Ghoshal, Arie de Geus e Charles Handy são apontados como pertencendo a uma galeria de gurus que estão a notabilizar a London School of Business (www.lbs.ac.uk) e um certo modo de pensar "europeu", ainda que o primeiro tenha escolhido o Silicon Valley para sediar a sua empresa de consultoria mundial...

Coincidência ou não, Arie de Geus, Charles Handy e Fons Trompenaars (uma das seis revelações feitas por Crainer) passaram pela "escola" europeia da Shell. Gary Hamel é tido como «candidato» bem colocado à corrida da sucessão de Tom Peters no trono da «indústria» dos gurus.

Ghoshal, de Geus e Handy lançaram livros marcantes no ano que passou - respectivamente «The Individualized Corporation», «The Living Company» (Compra do Livro) e «The Hungry Spirit». A afirmação de alguns destes autores gerou uma oportunidade para algumas editoras europeias de gestão, e nomeadamente inglesas.

Contudo, Stuart Crainer não foi na peúgada destes nomes mais conhecidos. Procurou promessas e encontrou alguns factos curiosos.

Chris Meyer (CHRIS.MEYER@ey.com), o mais velho do grupo de revelações, dirige em Cambridge, desde 1995, o Centro de Inovação em Negócios da consultora Ernst & Young, onde dirige uma equipa que procura identificar os desafios futuros ao mundo dos negócios, recorrendo à teoria dos sistemas complexos. Um dos seus melhores artigos sobre o tema pode ser consultado na revista «on line» Perspectives on Business editada por esta consultora - ver The Connected Economy: Beyond the Information Age (www.ey.com/cbi/journal/features/thecon.htm).Criou, para explorar a temática, o Bios Group. A moral da história, que alguns analistas querem tirar a ferros, é que a McKinsey deixou de ser a única referência em novidades teóricas no campo das grandes da consultoria. Meyer prepara com o futurista Stan Davis, autor de «Future Perfect» escrito em 1987 e republicado em 1996 (Compra do Livro), e de «2020 Vision», escrito em 1992 (Compra do Livro), um livro para lançar este ano, de título «Blur».

David Arnold, por seu lado, é inglês, mas escolheu uma carreira na Harvard Business School, nos Estados Unidos. Notabilizou-se como autor do «The Handbook of Brand Management» (Compra do Livro), editado pelo The Economist. Vindo de uma licenciatura em literatura e sendo um especialista em dramaturgia, ele passou por gestor de marketing do Ashridge Management College inglês, antes de se tornar num dos especialistas em marketing internacional em Harvard. Arnold reclama para esta sub-disciplina do marketing uma clara autonomia e o reconhecimento da sua maioridade num mundo dominado pela globalização. "Há uma crise típica da meia idade no marketing. Será que lhe vai acontecer o mesmo que ao planeamento estratégico enterrado há uns anos atrás?", interroga-se, para apontar uma saída para a renovação desta área. Ele investiga, actualmente, o tipo de estratégias de marketing mais adequadas aos mercados emergentes e estuda a evolução dos canais internacionais de distribuição.

Por sua vez, Don Sull protagonizou uma «fuga de cérebros» ao contrário. Vindo dos Estados Unidos radicou-se na London Business School. Passou antes por Harvard e trabalhou na McKinsey - tudo credenciais de luxo. Desenvolve investigação sobre uma força de bloqueio de respeito - a "inércia activa", ou seja, a tendência para se continuar a agir de um modo tradicional mesmo face a uma crise aguda, o que entrava a mudança organizacional.

Quanto a Fons Trompenaars é holandês e está muito ligado à corrente da cultura organizacional, na linha de Edgar Schein e Geert Hofstede. É um dos autores que insiste na importância da gestão da diversidade cultural. Dirige na Holanda o Center for International Business Studies, ligado ao Institute for Management Studies (www.ims-online.com), uma rede mundial, e é professor na Universidade Erasmus de Roterdão. O seu livro «Riding the Waves of Culture - Understanding Diversity in Global Business» (Compra do Livro), lançado em 1994, é considerado de leitura obrigatória sobre o tema.

Depois vem Julian Birkinshaw, que é inglês, mas migrou para a Suécia, país nórdico que o atraíu pela "dose de concentração de transnacionais", segundo as suas próprias palavras. Trabalha na Escola de Economia de Estocolomo ligada à Universidade da capital sueca (Stockholm School of Economics - www.hhs.se/secs). É o «benjamim» do grupo, tem menos de 35 anos, e investiga, como não é difícil de suspeitar, o modo de funcionar das transnacionais. Segundo ele, as subsidiárias podem ser inovadoras e empreendedoras se as transnacionais se organizarem como verdadeiras redes de saber.

Finalmente, Peter Cohan (Peter-Cohan@msn.com), americano de gema, é autor de um dos «best-sellers» mais vendidos no ano passado, a que nos referimos acima. Ele teve um percurso curioso - começou por trabalhar com James Champy na Index, depois com Michael Hammer e com Michael Porter. Não admira, por isso, que o objectivo do seu trabalho actual seja "destilar as duas abordagens, a reengenharia e a teoria da vantagem competitiva", limando os pontos fracos de cada uma delas.