A Brincar com o Risco

Jovem especialista português em Finanças
dá cartas em Los Angeles e na Wall Street

Jorge Nascimento Rodrigues com Pedro Santa-Clara na Anderson School of Management
da Universidade da Califórnia em Los Angeles

Provavelmente nunca lhe passou a si pela cabeça que as leis da física teórica pudessem ter utilidade para a sua bolsa. Mas, na verdade, a física mete, cada vez mais, a colherada na área financeira. Brincar matematicamente com o alto risco é a paixão de muitos especialistas, cujos modelos, aparentemente impenetráveis e aborrecidos para nós, são o segredo do êxito de alguns fundos de risco (os hoje tão em foco 'hedge funds').

Na roda desta élite de investigadores está um jovem português, radicado na Califórnia, que aos 30 anos já estava a dar aulas de finanças e a investigar na Anderson School of Management da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), uma das três escolas norte-americanas de referência nesta área (juntamente com a Sloan School of Management do MIT e a Universidade de Chicago dos célebres 'boys').

Prof. em LA aos 30 anos
Pedro Santa-Clara Pedro Santa-Clara em princípios de 1996 foi a uma conferência em São Francisco que funciona anualmente como uma espécie de 'mercado' da oferta e procura de jovens doutorados na área das finanças. Ali recebeu várias propostas, e enamorou-se de Los Angeles.
«A UCLA-Universidade da Califórnia em Los Angeles é uma das três universidades de referência nesta minha área. Para quem queira fazer investigação como eu a única hipótese é procurar os locais onde se aglomera a massa crítica da área. LA tinha o clima ideal. E por aqui tenho ficado desde Julho de 1996. A Universidade tem continuado a manifestar todo o interesse em manter-me», refere-nos, no meio de um almoço ligeiro numa das áreas de restauração dentro do enorme «campus».
Aos 30 anos, era o primeiro jovem português a dar aulas de finanças na Anderson School of Management da UCLA e a entrar para o 'clube' restrito de investigadores num segmento da pesquisa económica hoje na vanguarda, ou não estejam em jogo muitos biliões de dólares.
Doutorado em Finanças pelo INSEAD em França, tirou a licenciatura na Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa em 1989, onde chegou a leccionar durante algum tempo.
Vive, actualmente, com a mulher e três filhos pequenos perto de Los Angeles, donde não vai ser fácil trazê-lo para a Europa.

Pedro Santa-Clara ganhou notoriedade ultimamente na comunidade académica internacional das finanças e também entre os «práticos» do terreno na Wall Street com alguns «papers» que vem publicando.

Colherada da Física

Um dos seus últimos artigos teóricos foi roubar à Física a teoria das «cordas» (teoria dos 'strings', como é conhecida entre os físicos), que postula esta coisa incrível que pode ser imaginada: por mais que uma corda em tensão sofra ao longo da sua extensão um bombardeamento aleatório de grãos de areia vindos de todos os lados, não quebrará. Os choques causam um certo grau de deformações na corda, mas a tensão faz com que ela se mantenha contínua.

O que é que isto tem a ver com o alto risco financeiro? Explica-nos Pedro Santa-Clara, que nos recebe no seu gabinete da Anderson School no «campus» da Universidade: «A curva que une as taxas de juro para diferentes horizontes temporais - desde o curto prazo até aos 30 anos, por exemplo - oscila para cima e para baixo fruto da instabilidade do mercado. Mas embora tenha essas variações aleatórias, nem todas as deformações são possíveis. A teoria financeira restringe o tipo de movimentos possível. Uma das regras é que a curva deve manter-se contínua». E prossegue: «O modelo físico das 'cordas' permite-nos uma visualização, uma analogia».

Juntamente com um colega de origem francesa, um geofísico da UCLA e do CNRS francês, Didier Sornette, têm para publicação na reputada revista inglesa «Review of Financial Studies», um «paper» que dá pelo título de 'The Dynamics of the Forward Interest Rate Curve with Stochastic String Shocks', que já recebeu boas críticas de revistas de referência, como a «Risk Magazine», orientada para os mercados europeus, e o «Journal of Finance» da Associação Americana de Finanças. «A metodologia que apresentamos está a ser já utilizada por alguns bancos de investimento importantes da Wall Street», refere-nos Santa-Clara, que nos revela que com outros consultores gere várias centenas de milhões de dólares para um dos grandes fundos de risco.

Uma paixão com efeito prático

As principais aplicações dos modelos que desenvolve dirigem-se para a valorização de opções sobre taxas de juro, para a gestão de carteira de títulos e, em geral, para a gestão de risco por bancos. O impacto pode ser importante em instrumentos financeiros muito usados, como as opções sobre obrigações, sobre 'caps', 'floors' e 'swaptions'.

É toda uma área ainda muito 'verde' na Europa, comenta o nosso interlocutor, que sublinha, no entanto, «a proximidade de uma explosão no Velho Continente com o boom futuro de fundos de pensões em virtude da inevitável reforma da segurança social».

À primeira vista esta investigação em torno de modelos matemáticos de dinâmica das taxas de juro, levada a cabo por Santa-Clara em Los Angeles, é algo totalmente árido, mesmo «abstruso», comenta a rir-se. «Mas é a minha paixão. Apesar de altamente abstracta, é uma área intelectualmente muito estimulante. Usamos um conjunto de ferramentas matemáticas sofisticadas que têm uma enorme aplicação na prática. É provavelmente das áreas da teoria com maior impacto na economia real», refere-nos com visível satisfação.

«Uma economia real que tem sofrido, nos últimos anos, uma profunda alteração», acentua o nosso interlocutor. A World Wide Web deu um ainda maior impulso à finança popular, uma tendência a que não tem sido dada a necessária atenção mediática. «Calculam-se nos Estados Unidos uns dois a três milhões de 'traders' diários que usam a Web para fazer as suas aplicações pessoais. Ir aos 'sites' na Web ligados à intermediação financeira tornou-se diariamente um hábito - você pode fazer a partir do teclado tudo o que necessita. Há aqui uma cultura muito forte de envolvimento na gestão dos fundos pessoais», conclui Pedro Santa-Clara.


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COMENTÁRIOS DOS LEITORES

99/03/06, Nova Iorque - marcel.engenheiro@gte.net

A Desilusão das teorias matemático-financeiras

No universo de investimentos, as teorias exagerada, e na minha opinião desnecessariamente, complexas e com a agravante de serem excessivamente dependentes de fórmulas matemáticas altamente complexas, têm sido alvo de grande apetência por parte de certos fundos, ditos sofisticados.

"Sofisticados" porque devido aos elevados montantes mínimos impostos pela Securities and Exchange Commission estão isentos de supervisão por parte desta autoridade nacional, e consequentemente não conferem ao investidor as mesmas protecções tipicamente exigidas pelos pequenos e médios investidores. Ou seja, sofisticado tem mais a haver, de acordo com a legislação em vigor nos EUA, com o tamanho da carteira do que com "conhecimento de causa".

Mas isto tudo para chegar ao ponto nevrálgico da questão que eu quero levantar. O excesso de confiança que instituicões financeiras, e os recém chegados ao "Investment game", como o Senhor Santa-Clara, põem na sua dependência e atracção por todas as coisas complexas. Se é complexo tem que ser bom! A grave lacuna deste tema, ou moda, que tem ganho muitos adeptos desde os finais dos anos 80, chegou ao rubro com o autentico "CRASH" que vivemos no final do ano passado.
O processo de queda instigado pela sobrevalorizacção do mercado americano, ajudado pela "falência" da tesouraria Russa, pôs a nú a arrogância de uma minoria representada pelos incompetentes do Long Term Capital, que nunca o chegou a ser - estupidez e incompetência institucional, e ainda arrogância em acreditar que através destas teorias verdadeiramente abstrusas se pode conseguir a "Long Term" obter resultados ditos "superiores". "Superiores", só na sua capacidade em ter levado o mundo financeiro até à boca do inferno..
Isto porque se não fosse o nosso tio "Greenspan" aqui no good ol' US of A a ter acalmado as criancas, ao ter aberto as torneiras da liquidez mundial através de duas descidas das taxas de juro num prazo quase inédito de poucas semanas talvez hoje o estado da economia mundial estivesse numa situação um pouco mais problemática. Eu diria até muito mais problemática.

A realidade é que numa situação totalmente inédita, o sr. Greenspan convocou, em Outubro 98, os Chefes da Finança Mundial para uma assembleia de emergência, em Nova Iorque. Isto tudo porque os dois prémios Nobeis, professores catedráticos e as suas muitas tropas jovens de 30 anos de idade que estudam e acham muito estimulante a aplicação de teorias matemáticas complexas da casa do "Long Term Capital", formada à quase quatro anos com um capital inicial de 4 Billiões de US dólares, estavam "I am sad to tell you" à porta da falência.
"Oh My God, how is this possible?" devem ter pensado as suas excelências, o Sr. Calciavetta do banco UBS, o sr Weill do recém formado Citigroup, o sr. Corzine da Goldman, Sachs e o sr. Komanski da Merrill Lynch, para só mencionar alguns. A crua e fria realdade é que só nesse momento estes senhores se aperceberam da totalidade das exposições a descoberto que muitas destas institutições tinham contraído como contrapartes do Long Term Capital, e, ainda mais escandaloso, como instituições de crédito que são, das centenas e centenas de milhões de dólares que lhes concederam em linhas de crédito. Onde é que estava o controlo interno, os auditores, e ainda mais importante a ética ou responsabilidade profissional? (Pergunta o turista em Nova Iorque ao Wall St man. Excuse me sir could you tell me where I could find ethics or professional responsibility? Responde o Wall St man: I'm sorry I'd love to help you but I'm from out of town.)
To make a long story short, a Long Term Capital com apenas 4 billiões do seu próprio dinheiro controlava cerca de 1 trillião em activos. CARAMBA é muito pastel! Os grandes bancos e casas financeiras, a pedido do tio Greenspan foram obrigadas a entrar com mais cacau, or else! Or else, estas grandes casas de prestígio teriam que declarar perdas não enormes, mas enormíssimas, no próximo relatório de contas. Isto porque seriam forçadas a liquidar a esmagadora maioria das posições contraídas pelo Long Term Capital com perdas jamais vistas.
E porque é que o sr Greenspan estava todo aflito, esta você, leitor, a pensar. AHH Sim, a hora da verdade! Porque esta liquidação forçada, numa altura em que ninguem queria comprar nada poderia pôr o mundo financeiro, como nós o conhecemos, num estado de caos jamais visto. DERROCADA TOTAL!!
Com os EUA como a única ilha de prosperidade económica no planeta Terra, seria apenas uma questão de tempo até este virus do mundo financeiro atingir a economia real. Depois é que era lindo. Nem o tio Grenspan nos salvava desta. Nesta altura estava eu em Londres com um amigo que trabalha na sala de operações cambiais do Bank of America. Falava-se então na perda de emprego massivo no BofA, no não pagamento do muito desejado Bónus de fim de ano que pode chegar a vários múltiplos do salário anual. O rumor começava também a circular em círculos oficiais que isto poderia pôr fim, ou na melhor das hipóteses adiar o nascimento do Euro marcado para o 1/1/99. Holy shit this was Big!!???!!

O resultado deste episódio histórico foi que os bancos e casas financeiras como não tinham saída entraram com mais cacau, e muito mais. Em troca tornaram-se proprietários da esmagadora maioria da firma Long Term. Formaram um comité com autoridade parar gerir e supervisionar as crianças do Long Term Capital e manter os Chefes informados. Grandes transacções imobiliárias foram canceladas ou os preços reduzidos em 20 ou 30% na cidade de Nova Iorque. Promessas de financiamento para grandes compras de prédios e construção pendentes estavam a ser sumariamente canceladas. SORRY FOLKS!!! Alguns "Hedge Funds" faliram e temia-se em toda a Wall Street que houvesse talvez mais Long Term Capital's pelo mundo fora.
O spread entre papel dos mercados emergentes como Brasil ou México ou Coreia do Sul e o papel de duração semelhante americano chegou a 13%, SIM 13%. Um nível nunca antes atingido. O yield do papel de 30 anos da Tesouraria Americana atingia entretanto o seu nível mais baixo de todos os tempos, 4.6% e qualquer coisa. Sinal óbvio de que a festa não vai bem e do refúgio dos investidores a nível mundial no dollar e na "In God we trust" credibilidade do papel Americano. Entretanto o tio Greenspan, baixa as taxas, como se fosse chefe de uma estação de bombeiros a correr parar apagar o fogo. Os mercados reagem em simpatia, e o mundo acaba de assistir àquilo que eu só posso descrever como talvez a maior manipulação financeira de todos os tempos. Eu acho que os grandes bancos nunca viram tanto dinheiro a chover em tão pouco tempo. Free money that is. Como diz o velho ditado, quando chove dinheiro põe os baldes na rua!!!!

E o sol volta a brilhar

Algumas semanas mais tarde os grandes patrões da UBS entregam as suas cartas de demissão ao respectivo conselho de administração. O banco anuncia milhares de despedimentos. A seguir é a vez de Merrill Lynch anunciar milhares de despedimentos. O venerado Bankers Trust em Nova Iorque é vendido, ou forçado a vender-se, ao Deutsche Bank com a benção imediata do tio Greenspan. "Mais vale vender as jóias de família antes que a casa vá abaixo" !!!

Moral da história. Grandes ambições de querer tentar dominar ou antecipar a realidade do mundo económico-financeiro através da aplicação de complexas teorias matemático-financeiras a yield curves, ou a correlações entre evoluções de taxas de credores estatais que "prima facie" se devem comportar de forma semelhante, por exemplo, é apenas uma grande ilusão. O mundo em que vivemos é vastamente mais complexo, político e acima de tudo imprevisível, do que as teorias prevêm, ou podem antecipar. A matemática é uma ciência exacta em que nada fora das leis que a regem pode ter impacto sobre os seus princípios. A aplicação de uma ciência exacta a um mundo naturalmente imperfeito não só está longe de alguma vez conseguir o seu ideal, mas ainda mais importante é uma prática que tem posto irresponsavel e perigosamente o nosso sistema económico-financeiro mundial desnecessariamente em perigo grave de não funcionar como deve, e de ser mesmo derrubado.
Como é que isto pode ser, está você a pensar. Porque tipicamente o campo de actuação em que este tipo de aplicação matemática complexa se tem dado bem encontra-se em mercados cambiais, taxas de juro por exemplo, em que pequenas descrepâncias por si só não valem o esforço de ninguem. Mas, e aqui é que está o gato, quando o seu efeito é ampliado com quantias enormes de "leverage" ou alavancagem que ninguém supervisiona ou legisla, porque são todos supostamente "sofisticados", misturado com um bocadinho de ganância de que temos todos culpa, tem a grande desvantagem de aumentar o risco e perigo para o resto das contrapartes e potencialmente, como no caso do Long Term Capital, para o resto do sistema. A excessiva confiança que a aplicação e dependência na popularidade desta complexa ciência exacta que é a matemática quando misturada com grandes rácios de alavancagem tem um efeito de pólvora que quando mal usada é sempre sempre devastador. Para parafrasear o seu sujeito o sr Santa-Clara "É provalvelmente das áreas da teoria com maior impacto na economia real" NO Kidding !!!
Como se vê pelo exemplo do Long Term Capital pode ter mesmo !!!!!!

É uma pena que na nossa sociedade alguns grandes cérebros aparentem ser tão facilmente atraídos pela cenoura do lucro fácil que não oferece mais-valias para o resto da sociedade. Que despedício de talento. What a low calling in life. Talvez as universidades devessem oferecer juntamemte com cadeiras em complexidade financeira Bla Bla etc etc, cadeiras em "Conceitos de Virtude". É ironico que os maiores investidores e especuladores de todos os tempos, o Mr. George Soros e o Mr. Warren Buffett, nunca utilizaram tais metodos abstrusos.