Do efeito colateral do IVA ao papel da volatilidade das Bolsas

Ou de como na realidade a curva de Pareto ainda se pode agravar mais para a maioria da população

Físicos simulam efeitos na economia usando princípios da física estatística. Dois investigadores franceses provocam polémica ao revelar o que afecta
a distribuição da riqueza no sentido de uma maior concentração ou de um maior equilíbrio. As opções nos impostos e a volatilidade dos mercados financeiros são dois "actores" da maior importância.

Jorge Nascimento Rodrigues

Science & Finance web site
Artigo «Wealth Condensation in a simple model of economy», co-autoria
de Jean-Philippe Bouchaud e Marc Mézard, publicado na revista «Physica»
de Fevereiro 2000

Artigo mencionado na Harvard Business Review, edição de Abril 2002, por
Mark Buchanan in «Wealth Happens»

Livro de Jean-Philippe «Theory of Financial Risks» (compra do livro)
Sobre Vilfredo Pareto | Centro Walras-Pareto em Lausana

Entrevista integral em inglês com Jean-Philippe Bouchaud disponível
em Gurusonline.tv versão em inglês: «REVISITING PARETO'S 'TAIL' -
- RESEARCHERS APPLIED STATISTICAL PHYSICS PRINCIPLES TO EXPLAIN
WEALTH DISTRIBUTION»

Físicos da "complexidade" - a moda teórica emergente - metem, sem querer, a colher na política económica, ao concluírem que «tudo o que favoreça as trocas parece ser um meio eficiente de reduzir desigualdades», pelo que medidas de política fiscal que limitem as trocas poderão ser mecanismos de maior concentração de riqueza. A ilação é óbvia para o campo do Imposto sobre o Valor Acrescentado, cujo efeito "colateral" do seu aumento poderá ser o de reduzir as trocas. Contudo, o estudo não se centra neste aspecto de interesse conjuntural no nosso país.

O artigo científico publicado na revista Physica com um título aparentemente inofensivo - «Condensação de riqueza num modelo de economia simples» - foi, agora, tirado do "gueto" de um publico muito restrito entendido em física e matemática, para o mundo dos gestores e dos decisores. Um artigo («Wealth Happens») do escritor americano Mark Buchanan na revista Harvard Business Review, na sua última edição de Abril (2002), revela para a realidade norte-americana as implicações deste estudo liderado por Jean-Philippe Bouchaud, de 40 anos, físico francês do Serviço de Física do Estado Condensado (Service de Physique de l'État Condensé )do Centre d'Études de Saclay, em Paris.

Bouchaud é conhecido dos mercados financeiros. Ele lançou em 2000 um "best-seller" em inglês e francês intitulado Teoria dos Riscos Financeiros. Prémio IBM para jovem cientista em 1990, ele fundou a Science-Finance, uma empresa de investigação académica e comercial nas áreas dos mercados financeiros e da gestão de risco, hoje integrada na Capital Fund Management, também francesa. «A física estatística é a ciência dos efeitos colectivos complexos. A economia não é a ciência dos efeitos colectivos humanos?», interroga-se para nos sugerir, de imediato, o porquê desta colherada de física na distribuição da riqueza. A física estatística é, aliás, uma disciplina dura que "invade" cada vez mais outras áreas, desde a dinâmica populacional ao tráfego urbano até aos terramotos.

A "cauda" de Pareto

Bouchaud simulou com Marc Mézard, outro físico francês, o que afecta o crescimento e a distribuição da riqueza, testando a célebre curva da sua distribuição exposta pelo economista italiano Vilfredo Pareto em 1896/7. Pareto formulou na sua obra Curso de Economia Política («Cours d'Économia Politique», em 3 volumes), escrito no período em que leccionou na Universidade de Lausana, na Suíça - antes da sua guinada política do princípio do século XX - ,uma "lei" para a distribuição da riqueza que seguia um padrão logarítmico.

De um modo simples, de cada vez que se duplica o montante de riqueza, o número de pessoas que a detém diminui num factor constante. A representação gráfica desta "lei" produziu uma curva em forma de "cauda" caída, em que, no limite dela, por exemplo, uma pequena percentagem de pouco mais de 1% da população poderá deter 10% da riqueza de um país - como sucede nos EUA, em que 300 mil pessoas detém essa fatia de topo. Em países de desenvolvimento intermédio ou em desenvolvimento, com uma classe média fraca, a curva de Pareto ainda pode "cair" mais abruptamente e ficar em grande parte "rastejante" - menos de 1% pode deter mais de 50% da riqueza.

O modelo "puro" de Bouchaud e Mézard confirmou a "cauda" de Pareto. Nas simulações, verificaram que dinheiro, conexões e trocas geram mais riqueza. Já é velho o ditado de que «dinheiro atrai dinheiro», mas os físicos juntaram-lhe dois outros ingredientes fundamentais - a dinâmica de trocas existente numa dada economia e a conectividade entre os agentes. E o que concluíram é que quanto mais conectada e em rede for a malha de um tecido económico maior distribuição de riqueza poderá haver. «A conectividade ajuda a fazer 'pingar' mais riqueza de cima para baixo», sublinhou-nos, com ironia. Em suma, se só minorias - por exemplo, grupos de interesse - usufruírem do efeito de rede a distribuição da riqueza piora.

Entortar a lei

A "cauda" de Pareto pode ser "entortada", no sentido de ficar mais "rastejante" - maior condensação de riqueza numa minoria - ou mais "levantada" (maior fracção da população com níveis de riqueza média). A volatilidade dos mercados financeiros é um dos mecanismos que acentua a concentração de riqueza, diz o estudo. «É óbvio que um punhado se saiu muito bem. Mas, em média, e no longo prazo, a volatilidade cria maiores desigualdades», referiu-nos Bouchaud.

Ao contrário da ilusão "capitalista popular" da classe média de que investir em época de "bolha" aumenta, a prazo, a sua riqueza pessoal, a volatilidade bolsista com o seu comportamento em iô-iô serve para "transferir" as ex-poupanças (ou mesmo rendimentos correntes ou fruto de empréstimos) deste segmento da população para um punhado de investidores bem informados que não se deixam cegar pela ganância e que sabem ler os sinais do mercado. Nos EUA, a volatilidade "moveu" 6 biliões de dólares de uns bolsos para outros.

Se o produto dos impostos sobre a riqueza não for globalmente distribuído, mas aplicado, por exemplo, para reduzir a dívida ou financiar projectos específicos, o resultado pode ser um aumento das desigualdades

Em contraste, as políticas de impostos directos são um mecanismo de "violação" benigna da curva de Pareto. «No nosso modelo puro, os impostos sobre o rendimento reduzem as desigualdades. No limite, até poderiam matar a cauda de Pareto, se uma taxa marginal aumentasse», sublinhou. Mas, na realidade, o seu efeito automático não é o que seria desejável. A grande riqueza provêm sobretudo dos ganhos de capital (lucros, dividendos, juros, mais valias, etc.) e uma parte da média riqueza provém do facto de vários segmentos de actividade profissional e empresarial se "auto-isentarem" desse efeito regulador dos impostos sobre o rendimento.

A simulação não permite ainda concluir sobre o efeito de dois mecanismos - o de cortar nas taxas de impostos para as camadas de rendimentos altos e para as empresas e o sistema financeiro. «Até à data, o nosso modelo ainda não é tão rico - se assim o podemos dizer - a ponto de poder lidar com esses problemas. O desenvolvimento do modelo para poder responder a essas e outras decisões políticas poderá levar anos», alegou o nosso interlocutor.

O estudo descobriu ainda "um resultado curioso", nas próprias palavras deste físico. «Se o produto dos impostos sobre a riqueza não for globalmente distribuído, mas aplicado, por exemplo, para reduzir a dívida ou financiar projectos específicos, o resultado pode ser um aumento das desigualdades», concluiu Jean-Philippe Bouchaud.

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