Fuga de Serviços é só meia verdade

Prossegue o debate sobre o «outsourcing» com um artigo polémico do FMI

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de janelanaweb.com, Novembro de 2004

Working paper 4/186 | Sítio na Web de Shang-Jin Wei
Estudo similar promovido pela Organization for International Investment nos Estados Unidos, «Insourcing Jobs -- Making the Global Economy Work for America», pelo Professor Matthew Slaughter daTuck School of Business

As estatísticas desmentem os media e os relatórios bombásticos de algumas consultoras em termos de "fuga" de serviços dos países desenvolvidos para os emergentes, nomeadamente Índia e China - o que se designa tecnicamente por "offshoring" de processos de negócio para distinguir do "outsourcing" tradicional (a "deslocalização" fabril).

Na verdade, os países desenvolvidos mais fustigados por esta "fuga" são, também, os campeões no fluxo contrário de "insourcing" internacional, e muitos deles estão a gerar excedentes muito significativos na rubrica dos serviços às empresas na balança de pagamentos. A este respeito os casos dos Estados Unidos e do Reino Unido são significativos (ver quadro dos campeões), afirma-se num estudo do Fundo Monetário Internacional divulgado, agora (Outubro de 2004), em Amesterdão num painel sobre Política Económica.

Não se pode olhar em isolado para o peso absoluto do 'outsourcing' de serviços. É indispensável avaliar o excedente ou o défice dos fluxos nos dois sentidos e também o seu peso no PIB do país.

O estudo intitulado "Fear of Service Outsourcing: is it justified?" (Working Paper do FMI nº 4/186), elaborado por Shang-Jin Wei e Mary Amiti, argumenta que falar de "fuga" de serviços é uma meia-verdade, sendo necessária uma análise rigorosa. «Não se pode olhar em isolado para o peso absoluto do 'outsourcing' de serviços. É indispensável avaliar o excedente ou o défice dos fluxos nos dois sentidos e também o seu peso no PIB do país», sublinhou-nosShang-Jin Lei, que é chefe da Unidade de Comércio Internacional do Departamento de Investigação do FMI, em Washington DC.

A culpa é do efeito de stresse

As mais de 2634 noticias nos EUA e 380 no Reino Unido sobre a catástrofe do "offshoring" de serviços nos primeiros cinco meses deste ano, pecam por unilateralismo, afirma Shang-Jin. Estas noticias provocam o que o artigo designa por "efeito de stresse" na classe média dos países desenvolvidos, e em particular nos trabalhadores do conhecimento e qualificados ligados aos serviços empresariais, o que, segundo o FMI, estaria a alimentar uma vaga crescente de oposição política ao "comércio livre", agora nos serviços.

As estatísticas revelam, no entanto, que quer o Reino Unido, como os Estados Unidos, ou Singapura e Hong Kong, na Ásia, fazem uma fortuna nesta área - os excedentes (saldos positivos entre os fluxos de "outsourcing" e de "insourcing" de serviços empresariais) gerados colocam-nos no "top" mundial. Aliás, os dois "tigres" asiáticos, bem como o Luxemburgo, na Europa, transformaram a exportação de serviços empresariais num dos negócios centrais da sua especialização internacional, representando 10% ou mais do PIB.

Portugal - apesar da sua enorme dependência na área dos serviços de informação e informáticos - gera, também, excedentes nos outros serviços empresariais, ainda que o peso no PIB seja pequeno (ver destaques).

O paradoxo da Irlanda

É verdade, no entanto, que os grandes emergentes da Ásia se estão a revelar como caça excedentes nesta área - a China poderá ser classificada como terceiro mundial se lhe juntarmos Hong Kong (de contrário, é sexto), e a Índia já está acima de Singapura. O caso da Índia tem sido fortemente badalado pelos media, mas, em termos absolutos, ainda exporta menos serviços empresariais do que a Holanda.

O estudo revelou um caso surpreendente, o da Irlanda. Apesar da sua capacidade de atracção de serviços em "outsourcing" (número um mundial em termos absolutos na área de serviços de informação e computacionais vendidos ao estrangeiro), o país revela um elevado défice na balança de serviços às empresas (superior ao da Alemanha ou do Japão), e tem uma elevada intensidade de importação de serviços empresariais (ver quadros).

Destaques sobre PORTUGAL
  • Elevada dependência na área de serviços de informação e informática: 14º no "outsourcing" nesta área à escala mundial, segundo o estudo de Shang-Jin Wei para o FMI
  • Excedente na balança de outros serviços às empresas - 0,2% do PIB em 2002 e 0,17% em 2003, segundo dados do Banco de Portugal (Boletim Estatístico, Outubro de 2004)
  • Salto no excedente na balança dos outros serviços às empresas entre 2001 e 2002 - quintuplicou (de 59 milhões de euros para 277), graças ao aumento acentuado na venda internacional da rubrica de serviços jurídicos, contabilidade e consultoria de gestão e relações públicas
  • Bom desempenho na balança de outros serviços às empresas também nas rubricas de publicidade, estudos de mercado e opinião pública, e em serviços de intermediação comercial

  • TOP 6 dos campeões do excedente
     (saldo positivo da balança dos serviços às empresas, 
    em mil milhões de dólares, 2002)
     Reino Unido 23,6 
     Estados Unidos 21,7 
     Hong Kong + China 17,7 
     Hong Kong 15,7 
     Índia 6,8 
     Singapura 3,9 
     China 2,0 
     Nota: Inclui serviços de informação e computacionais

    TOP 6 dos exportadores de serviços
    às empresas
     ("insourcing" em mil milhões de dólares em 2002) 
     Estados Unidos 58,8 
     Reino Unido 36,7 
     Alemanha 27,9 
     França 20,9 
     Holanda 20,0 
     Índia 18,7 

     Campeões da exportação de serviços 
    às empresas
    ("insourcing" em % do PIB)
     Singapura 14,9 
     Hong Kong 11,5 
     Luxemburgo 9,8 

    TOP 6 dos importadores de serviços
    às empresas
     ("outsourcing" em mil milhões de dólares em 2002) 
     Estados Unidos 40,9 
     Alemanha 39,1 
     Japão 24,7 
     Holanda 21,0 
     Itália 20,3 
     França 19,1 

     Campeões da importação de serviços 
    às empresas
    ("outsourcing" em % do PIB)
     Angola 35,0 
     Moçambique 17,0 
     Irlanda 15,4 

    Fonte: Working Paper FMI 4/186, com base em dados de 2002

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