Conversa com o Guru das Start-Ups: "Dicas" para ir a votos
nos mercados de capitais, segundo John Nesheim

"Dicas" para ir a votos (com sucesso)
nos mercados de capitais

John Nesheim, o guru californiano das "start-ups" tecnológicas, com
Jorge Nascimento Rodrigues no meio das montanhas de Saratoga (Silicon Valley)

Versão mais reduzida foi publicada no semanário português Expresso

O site do Grupo Nesheim
 Entrevista Exclusiva para a rubrica Gurus à Mesa da Ideias & Negócios 
Dez Mandamentos para os Fundadores de Start-Ups
High Tech Start Up - a obra do autor

Se pensa que a caminhada até à primeira oferta pública em Bolsa - o célebre "IPO" (em inglês) agora no discurso da moda - é um passeio fácil, desengane-se.

Não basta a sua brilhante ideia, a sua excelente pessoa e a arrogância de que "dot-com" na etiqueta e no logotipo faz milagres junto dos capitalistas de risco e outros investidores de vulto. Além disso, os tempos mudaram de feição, pelo menos nos Estados Unidos - a euforia de há um ano atrás passou à história e a comunidade do dinheiro apurou o filtro.

John Nesheim Os capitalistas de risco começam, entretanto, a farejar outras aplicações (estão de olho na biotecnologia e nos novos materiais) e querem estar mais seguros de que a magnífica ideia ou "start-up" que lhes é apresentada tem duas coisas fundamentais: uma vantagem competitiva indiscutível e uma equipa de gestão capaz. A razão disto?
"É o ciclo, estúpido!", ri-se John Nesheim, um californiano de ascendência norueguesa a caminho dos 58 anos, que é considerado, na América, entre os nórdicos na Europa e na Ásia, o guru das "start-ups" de alta tecnologia.

As "dicas" que ele dá para uma jovem empresa ir a "votos" (no mercado de capitais) são muito respeitadas - e estão aqui já a seguir.

DEZ MANDAMENTOS PARA O FUNDADOR DE START-UP
  • Num plano de negócios o essencial não é muita conversa sobre a sua brilhante ideia - mas a exposição cristalina logo no primeiro parágrafo do resumo de qual é a vantagem distintiva do que se propõe
  • Quase tão importante como o anterior - não é a sua extraordinária pessoa que vai convencer os homens da finança, mas se o seu projecto tem ou não uma equipa de gestão pronta para entrar em campo
  • Tenha, também, uma ideia luminosa de como os homens da finança poderão fazer "cash" até daqui a cinco anos - desenhe uma estratégia de saída para eles
  • Esteja preparado para responder a duas perguntas incómodas: Para além da tecnologia, o que é que tem a oferecer que valha a pena? Que competências tem para mudar todo o plano, se o mercado for diferente do que imaginava?
  • Calcule o dinheiro que tem de "queimar" na fase inicial do projecto - e multiplique por 2 para ser realista
  • Esteja mentalmente disponível para largar a maior parte do bolo - em média, os fundadores não ficam com mais de 4% depois do IPO
  • O pior que pode acontecer é a sua querida "start up" transformar-se num "zombie" - nem fecha, nem consegue ser apetitosa para ser comprada, nem vai ao IPO
  • Tenha na manga um plano "B" alternativo e prepare-o com os seus principais colaboradores ou co-fundadores e com a sua família - por isso, mantenha-se em contacto com o mercado de trabalho e as tendências
  • Proteja a propriedade intelectual da sua "jóia" logo de início - institua um protocolo de confidencialidade que todos os empregados deverão assinar
  • Se não quer aplicar os 9 anteriores, não se meta, então, em "alhadas" - continue calmamente a receber o ordenadinho ao final do mês e a aturar o seu chefezinho
  • Mudança de ciclo

    "A janela de oportunidade para os IPO de sucesso continua ainda aberta mas com uma fresta muito estreita. As 'start-ups' tecnológicas têm de ter algo mais do que uma boa história. O ciclo inverteu-se, a época de 'boom' terminou", começa por nos dizer Nesheim, autor de High-Tech Start-Up (compra do livro), o manual mais procurado este ano pelos candidatos a empreendedores, que é actualmente "best seller" em todo o Silicon Valley e na lista da revista "Business Week".

    Capa do livro High-Tech Start-Up Ele fala, ironicamente, de que a "start-up" tem de ter uma "vantagem desleal" e que tecnologia não basta - é preciso mais, pois mesmo a alta tecnologia se copia logo que o mercado começa a ouvir falar da sua originalidade.

    "Os capitalistas de risco fecharam a carteira de cheques para as 'dot-com' que continuam a usar o modelo de negócio da euforia em torno da Web de há algum tempo atrás. Já é tarde para quem queira copiar o que fizeram as primeiras 'start-ups' da Net", aconselha este engenheiro de formação que desde meados dos anos 70 acompanha a Terceira Vaga no Vale do Silício, tendo vivido os altos e baixos da "informática" e agora da cibereconomia.

    E continuando com este duche de água fria: "O que decididamente passou à história é a ideia de que as 'dot-com' podem ir para um IPO sem haver uma ideia clara da sua lucratividade. A Wall Street está a fazer a Amazon.com passar um mau bocado, como toda a gente sabe. Está a ficar muito claro que as promessas feitas aos investidores têm de ser cumpridas depois do IPO". E deixa um aviso aos europeus e asiáticos: "As 'start-ups' dos vossos países que se atrasaram no ciclo vão sofrer".

    Novos protagonistas

    Nesheim aconselha a que os empreendedores da alta tecnologia começem a andar de olho nos gigantes. Depois do arrefecimento do clima bolsista americano no último trimestre deste ano, aceleraram-se as estratégias de aquisição ou participação em "start-ups" apetitosas por parte das grandes empresas da "velha" economia (que estão a migrar para o novo terreno) e dos novos grupos nascidos com a Revolução da Informação nos últimos vinte e cinco anos. "Só que agora essas compras serão feitas a preços mais baixos e basear-se-ão num escrutínio muito apertado do seu interesse estratégico", adverte o nosso interlocutor.

    Contudo, refere com alguma ironia, "as possibilidades de atingir ou ultrapassar as expectativas numa aquisição são inferiores a 17%, segundo a minha investigação". Não é de admirar, por isso, que as grandes estejam a abrir uma nova "frente" de actividade de risco - o fomento de "start-ups" internas, de "start-ins", como lhe chama o nosso interlocutor. "Os gigantes e os grupos estão a fazer 'spin offs' de novas ideias, criando empresas autónomas, que irão à luta, em muitos casos, sem qualquer interferência 'paterna'", acrescenta John Nesheim, que sublinha a oportunidade que esta "frente" abre aos quadros mais empreendedores dos grupos.

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