Movida no hi-tec americano

Setembro (2005) foi, até à data, o mês mais movimentado no sector das tecnologias de informação e comunicação dos Estados Unidos. Duas aquisições super-mediáticas aqueceram os bolsos de muita gente e levantam dúvidas aos analistas de management, o fenómeno Google está imparável na sua caminhada até ao espaço e na conquista de massa cinzenta (tendo contratado o "Pai da Internet") e a Microsoft resolveu reorganizar-se.

Jorge Nascimento Rodrigues, editor de Janelanaweb.com, Outubro de 2005

Entrevista com Vinton Cerf após ingresso no Google (versão em inglês)
Porta-Voz da Skype esclarece aquisição (versão em inglês)

A Costa norte-americana do Pacífico vive meses de frenesim. O Silicon Valley está, de novo, no epicentro de supercompras mediáticas e assiste incrédulo ao fenómeno Google, um projecto inicial de investigação de dois jovens doutorandos da Universidade de Stanford que, em sete anos, se transformou no maior "desafiador" dos tradicionais modelos de negócio de edição, marketing, "merchandising" e gestão do conhecimento. Mais acima, o "velhinho" de Redmond - cidade onde Bill Gates criou em 1975 o seu gigante - avançou com uma reestruturação aparentemente profunda.

Mas o Google não dá descanso a ninguém - acaba de contratar o "Pai da Internet", Vinton Cerf, como seu "Evangelista-Chefe". Cerf afirma estar entusiasmado com o ingresso na jovem empresa: "é o emprego com que eu sonhava na vida". E garante ir continuar os projectos em que estava envolvido com a NASA na criação da uma Internet intra-planetária. Fazendo mossa a muita gente, o Google "empocha" mais esta sumidade, responsável por hoje usarmos a Internet, pois co-desenhou em 1973 o protocolo que permite o seu funcionamento (o famoso TCP/IP).

Febre de aquisições

Crescer através de aquisições multimilionárias está a querer impor-se como moda na Nova Economia da Califórnia. Algumas das marcas mais fortes do "hi-tec" andam em compras, uns dirão "estratégicas", outros perdulárias e destruidoras de recursos dos accionistas. A Oracle continua imparável na lógica de tentar aumentar o seu peso na "guerra" contra a europeia SAP, líder de mercado - a última proposição de aquisição em meados de Setembro dirigiu-se à Siebel Systems, uma compra que deverá ficar concluída no próximo ano. Larry Ellison já vai na 5ª aquisição nos últimos doze meses e largou mais de 18 mil milhões de dólares. A SAP diz que as compras da Oracle não têm beliscado a sua liderança muito distanciada e os analistas alegam que Ellison tem entre mãos uma verdadeira Babel para digerir, não sendo liquido que leve a bom porto o seu projecto de integração de soluções denominado justamente de "Fusão".

Subitamente, também, foi revelado que a eBay - um dos novos "modelos" de negócio surgidos em 1995 com a revolução da Web na Baía de São Francisco - comprou uma pequena companhia europeia que se tornou uma "estrela" com a popularização do acto de telefonar via computador ligado à Internet (ver caixa).

Se a eterna polémica entre "crescer organicamente, só com compras muito cirúrgicas" ou "engordar através de aquisições sistemáticas" não abranda, a unanimidade parece assegurada no caso paradoxal do Google. Toda a gente está de boca aberta: "Não se consegue predizer até onde vão revolucionar os modelos de negócio, pois estão continuamente a lançar novos serviços", comenta Peter Cohan. "A recente incursão no mercado de capitais, onde obtiveram mais 4,2 mil milhões de dólares, demonstra a reacção positiva dos investidores, o que sugere que acreditam que o Google os vais investir inteligentemente", acrescenta este analista de tecnologias de Boston.

Uma formiga baptizada de "google"

Seria difícil imaginar em 1998 que a pequena empresa instalada no número 2400 da Bayshore Parkway, em Mountain View, se viesse a transformar na candidata para "desalojar" a prazo a Microsoft, a acreditar na exaltação de Scott McNealy, o líder da Sun, que acaba de assinar, esta semana, uma parceria estratégica com o Google, em torno do que chamou de "revolução da Era da Participação". Uma coisa era certa no olhar determinado do jovem russo Sergey Brin que a Janelanaweb entrevistou há cinco anos atrás: "Queremos criar uma empresa lucrativa que possa sustentar a sua independência a longo prazo".

A sua coroa de glória mais recente é o GoogleEarth, que tanto serve de entretenimento aos curiosos para verem a sua casa ou a do vizinho, como ajuda aos biólogos no estudo das ...formigas. A tal ponto que uma espécie, agora descoberta no Madagáscar por Brian L. Fisher, ficou com o nome de "Proceratium google", noticiou a Academia de Ciências da Califórnia! Sem arrefecer os motores um segundo, o Google assinou no final de Setembro um acordo estratégico com a NASA para trabalhar no que designam de "convergência bio-info-nano" e fica a porta aberta para no futuro termos um GoogleSpace.

Numa reposta à mudança clara do contexto, a Microsoft reorganizou a estrutura dos seus negócios em três super-áreas - plataforma de produtos e serviços; divisão de clientes empresariais e organizacionais; e entretenimento e aparelhos (nomeadamente de mobilidade) - que irão enquadrar as seis divisões da multinacional. "Parece-me mais uma mexida de caixas no organigrama. Seria preferível que a 'partissem' literalmente em partes mais pequenas, funcionando como iniciativas empreendedoras, para readquirirem novo élan e abanarem a sua burocracia", critica Peter Cohan.

SKYPE: "Continuamos independentes"
"Era uma oportunidade demasiado boa para se perder", confessa o porta-voz da Skype Technologies SA, sobre a multimilionária prenda de segundo aniversário. Em Setembro (2005) concluiu-se a negociação que levou à compra da empresa europeia de VoIP (voz sobre Internet) pela californiana eBay Inc. por um montante na ordem dos 2,1 mil milhões de euros, 10 vezes mais do que a soma das facturações realizadas e estimadas de 2004 a 2006. Para além do rio de "cash" recebido (mais de mil milhões de euros) e das acções eBay, Daniel Twigg garante que há ambição estratégica: "a plataforma de comércio electrónico e comunicações resultante não tem paralelo no mundo da Internet", não só na sinergia imediata que cria (entre os leilões da eBay, o sistema de pagamentos da PayPal, anteriormente adquirida pela empresa de Meg Whitman, e as comunicações), como "nos negócios potenciais que podem ser gerados por uma cultura comum e uma similitude no entendimento da lógica de comunidades na Web e dos efeitos virais das redes".
A Skype transformou-se numa subsidiária a 100% da eBay, mas continuará baseada no Luxemburgo, e manterá a sua independência de produtos e de marca, com Niklas Zennstrom, um dos fundadores, reportando directamente a Meg e ingressando na direcção executiva da casa-mãe. Quando Gurusonline.tv entrevistou Niklas, em Fevereiro passado (2005), não lhe passava pela cabeça ser comprado e o seu foco era "crescer, crescer com as suas próprias pernas". Mas não há unanimidade sobre a "bondade" para os accionistas da eBay desta estratégia de controlo de propriedade de toda a cadeia de valor na relação com o cliente dos leilões na Web - e que, certamente, continuará a levar Meg Whitman a gastar ainda mais milhões em futuras compras de "negócios adjacentes". Peter Cohan, analista em Boston, duvida da "eficácia destes tipo de aquisições". Alega que "a sinergia podia ser obtida por via de parcerias estratégicas, sem meter a mão tão fundo nos recursos dos accionistas da eBay".

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