Novo fôlego no sector dos moldes

Serviço ao cliente, o segredo do valor acrescentado

Tido como um dos casos históricos de sucesso na regeneração de antigos distritos industriais no nosso país, o sector que moldou a imagem de marca da Marinha Grande e de Oliveira de Azeméis parece estar a viver um ciclo muito favorável ao «made in Portugal» segundo um trabalho de investigação académica em curso

Jorge Nascimento Rodrigues
Colaboração de Susana Rodrigues, responsável pela investigação no âmbito
de uma tese de doutoramento

Versão ampliada do artigo publicado no Expresso

O mercado global dos moldes para plásticos está de feição. Um ciclo favorável até 2001 para a indústria de plásticos em todo mundo, em particular com destino a clientes exigindo alta qualidade, como o automóvel, a construção civil e todo o tipo de aparelhos portáteis - desde os mais comuns hoje em dia, como os telemóveis ou os computadores, até aos emergentes, como os aparelhos médicos de uso doméstico -, vai certamente "puxar", de novo, pelo nosso sector dos moldes.

Estudos levados a cabo por uma investigadora portuguesa (ver caixa em baixo), a que o EXPRESSO teve acesso, indicam que o sector está a viver um novo fôlego, fruto de reorientações estratégicas ocorridas ao longo da última década, depois dos «anos dourados» de princípios dos anos 80, que o transformaram num caso muito badalado de sucesso na regeneração de antigos distritos industriais portugueses no centro do país, e nomeadamente no histórico pólo vidreiro da Marinha Grande.


Um caso exemplar em doutoramento

Susana RodriguesOs moldes estão a servir de tema para um doutoramento em Inglaterra por uma nativa de Leiria, docente de gestão na Escola Superior de Tecnologia e Gestão do Instituto Politécnico daquela cidade. O objectivo desta tese académica é construir um modelo que preveja comportamentos estratégicos de sucesso naquela indústria.

Considerado, desde há muito, como um caso exemplar na indústria portuguesa, o sector de moldes para plásticos motivou a Susana Rodrigues, 29 anos, um trabalho de investigação sobre a relação entre as estratégias empresariais seguidas ao longo de 17 anos, entre 1980 e 1997, e a «performance» obtida no negócio.

A investigadora está, desde 1996, a realizar o seu doutoramento no Management Research Center da Escola de Gestão da Universidade de Wolverhampton (http://www.wlv.ac.uk), em Telford, no West Middlands, no centro de Inglaterra, um dos pólos da indústria de moldes inglesa, e espera concluí-lo no primeiro trimestre do próximo ano.

O estudo envolveu um trabalho no terreno muito significativo. Susana Rodrigues analisou 63 casos de empresas portuguesas de moldes para injecção de matérias plásticas, que representam 70 por cento do total de vendas do sector. O inquérito foi respondido por donos ou quadros de direcção e o contacto «ao vivo» permitiu-lhe volumosa informação adicional, captar muito do conhecimento tácito existente e levou os próprios ‘estrategas’ das empresas a reflectir sobre as mudanças que implementaram por vezes por intuição. Ela entrevistou ainda alguns personagens tidos como «gurus» desta indústria, como Henrique Neto, do grupo Iberomoldes e actual deputado, e António Santos, da Tecmolde.

No plano teórico, a autora procurou evidência empírica para uma tipologia de comportamentos estratégicos empresariais criada por R.E. Miles e C.C. Snow em 1978 (no livro Organizational Strategy, Structure and Process), considerada por muitos especialistas como «a única que olha a organização como um sistema completo em interacção com o meio envolvente».

Miles e Snow definiram quatro tipos ideais de comportamentos nos processos de adaptação às mudanças externas: aqueles que se entrincheiram nos seus nichos, optimizando o que fazem («defenders»); os que são pioneiros, verdadeiros «farejadores» de oportunidades («prospectors»); os que são imitadores astutos e cautelosos («analysers»); e os que só reagem sob pressão («reactors»).

Susana Rodrigues, a partir das respostas dadas aos inquéritos, encontrou evidência empírica de uma evolução, durante os últimos 17 anos, para uma predominância de comportamentos típicos dos imitadores de sucesso e mesmo dos pioneiros, neste último caso das empresas a fornecer o sector automóvel.

Ela teve em conta ainda as estratégias genéricas teorizadas por Henry Mintzberg em 1987 (no artigo ‘Generic Strategies: Toward a comprehensive framework´, publicado na revista Advances in Strategic Management, vol.5, pg.1-67, 1988, Jai Press Inc.) e não seguiu o modelo de Michael Porter na sua investigação.


Verificou-se que uma parte significativa dos empresários e dirigentes do sector evoluíu de uma postura muito «entrincheirada» nos seus nichos e de sobranceria em relação aos clientes, para estratégias de imitação das inovações que íam resultando no mercado - os entrevistados que se revêm nesta posição passaram de 8 por cento na década de 80 para 65 por cento em 1997.

Alguns inclusive «saltaram» para posições de pioneirismo nos casos em que souberam aproveitar a boleia dada nomeadamente pelos construtores automóveis.

A viragem estratégica

Tais movimentos empresariais, desde 1986, verificaram-se:



Radiografia do Sector dos Moldes

Idade do sector: 50 anos
Empresas: 250, maioria PME, alguns grupos económicos
Emprego: 7500
Pólos de Aglomeração: 60% na Marinha Grande e 35% em Oliveira de Azeméis
Tecnologia: 70% têm engenharia de CAD/CAM/CAE; 67% têm design do molde
Evolução do tipo de molde: 65% das empresas passaram a fabricar moldes com um nível de complexidade moderado ou elevado; 51% passaram ao fabrico de moldes de maior capacidade
Facturação (1997): 45 milhões de contos
Exportação: 90%
Top segmentos de exportação (por valor de vendas decrescente): automóvel; electrodomésticos; material electrico e electrónico; utensílios domésticos; embalagem; telecomunicações
Principais mercados: EUA (18%); doméstico (15%*); Alemanha (13%); França (11%); Suécia (10%); Brasil (8%); Reino Unido (7%)

Nota: (*) Uma parte pode destinar-se aos mercados de exportação


Foi, também, uma década de forte «tecnologização» do sector (ver radiografia acima) e de grande esforço de formação profissional, que rendeu frutos. E que significou um esforço sectorial de reinvestimento que foi, em média, o dobro do que outros países fizeram.

Permitiu, também, uma certa regeneração de quadros e a emergência de um potêncial de jovens empreendedores, que hoje denotam uma grande confiança no futuro do sector.

TOP 10 DOS EXPORTADORES DE MOLDES
(em mil milhões de dólares, 1996)
1   Japão 1510           6 Coreia do Sul    354
2 Canadá   827   7 Portugal 234
3 Itália   710   8 Suiça 216
4 Alemanha         697   9 França 204
5 EUA   386 10   Bélgica 171
Fonte: ISTMA, International Special Tooling and Machining Association
Obs: Só exportadores de moldes de injecção e compressão


Os últimos dados conhecidos (quadro acima), divulgados pela ISTMA-International Special Tooling and Machining Association, colocam o nosso país em sétimo lugar na exportação mundial, depois do Japão, Canadá, Itália, Alemanha, Estados Unidos e Coreia do Sul, e à frente da Suíça, França e Bélgica.

O valor de vendas para o ano passado é avaliado em 45 milhões de contos, com 90 por cento realizado nos mercados de exportação.

Um pau de dois bicos

Esta situação particular de grande dependência em relação à conjuntura económica internacional por parte do nosso país deriva de um «ponto fraco».

Ponto esse que, paradoxalmente, tem servido para desenvolver uma capacidade de marketing assinalável, em particular nalguns grupos económicos do sector nas regiões da Marinha Grande e Oliveira de Azeméis, e a afirmação de «brokers» prestigiados, como o caso da Tecmolde que visitámos.

A fraqueza portuguesa reside no facto da indústria de plásticos nacional não estar desenvolvida ao ponto de ser ela a "puxar" pelos moldes. Na linguagem de Michael Porter, um «cluster» potencial está, entre nós, francamente «incompleto».

«Ao contrário do que sucede, por exemplo, na região francesa alpina conhecida por "La Plastics Vallé", ou na Itália do Norte, ou na região de Barcelona, na Catalunha», sublinha-nos Susana Rodrigues, a autora do estudo a que nos temos estado a referir.

Estas zonas de aglomeração permitem uma rápida difusão da inovação e a criação de redes entre os diversos parceiros da cadeia de valor do plástico, o que as torna um «modelo» apetecível para imitar.

Há, no entanto, uma geração que acredita na possibilidade de, entre nós, se dar passos neste sentido. Pedro Colaço, director executivo da Tecmolde, sublinha a possibilidade de criar projectos empresariais de plásticos de alta qualidade. Ele próprio está envolvido num deles.

Por outro lado, os grupos portugueses de maior volume de vendas já têm associada uma empresa de injecção de plásticos (16 por cento dos inquiridos no estudo a que nos referimos já estão na produção de peças plásticas e na montagem de plásticos com outros materiais) ou já programaram entrar nessa área.

Contudo, segundo Susana Rodrigues, o que é desejável é a especialização na «montagem de módulos completos», prontos a ir para a linha do cliente.

Por seu lado, António Santos, o fundador da Tecmolde e tido como um dos «gurus» do sector, é de opinião que na estratégia de atracção para o nosso país de multinacionais se deve equacionar a nossa "entrada" para a fileira dos fornecimentos dos plásticos e do que isso arrasta consigo, nomeadamente moldes de qualidade.

Mais valor no «made in Portugal»

Contudo, o grande desafio "interno" nos moldes é a ampliação do posicionamento das firmas portuguesas na cadeia de valor do próprio molde. O sector automóvel nomeadamente tem servido para fazer emergir este novo modelo empresarial, segundo este trabalho de investigação.

Em termos gerais, 24 por cento das empresas inquiridas já fornecem serviço logo no início, na definição do design dos moldes desejados pelos clientes, e 19 por cento já usam a prototipagem, para uma resposta rápida e fiável.

Ainda, recentemente, na última conferência do sector, organizada na Marinha Grande pelo Centimfe-Centro Tecnológico da Indústria de Moldes, Ferramentas Especiais e Plásticos (ver em http://www.centimfe.com), pela Cefamol-Associação Nacional da Indústria de Moldes e pelo ICEP, se sublinhou este aspecto de "subida" na cadeia de valor como arma essêncial para a resposta à concorrência muito activa por parte dos novos países industrializados asiáticos e à possível entrada em campo dos ex-países de Leste mais desenvolvidos.

Muito activos nos últimos anos, os «tigres» asiáticos poderão, agora, com a crise jogar ainda mais no custo baixo e aproveitar o maremoto económico para reorganizarem a indústria. Por outro lado, as estratégias de deslocalização da Alemanha em direcção ao Leste europeu poderão "puxar" os fabricantes locais, nomeadamente em países com uma boa tradição metalomecânica (vide o caso da República Checa).

Os mercados emergentes

O sector evoluíu ao longo destes 17 anos para um bom posicionamento nos mercados de exportação mais desenvolvidos (ver quadro acima), nomeadamente os Estados Unidos (primeiro lugar na exportação, com uma quota de 18 por cento) e grandes países europeus, como a Alemanha, (logo em segundo lugar nos destinos de exportação), a França, a Suécia e o Reino Unido.

A par deste núcleo duro, o sector português tem procurado entrar em mercados emergentes, como o Brasil, que já ocupa o quinto lugar, com 8 por cento das nossas exportações de moldes, estando já à frente (em termos de valor exportado) de um cliente mais tradicional como o Reino Unido.

Claramente na moda, com a facilidade da língua comum e uma certa convicção de «que está a dar», o Brasil foi o mercado que mais cresceu na última década - o número de firmas que o «descobriu» mais do que quintuplicou e o valor de vendas de moldes para lá simplesmente quadriplicou!

Contudo, como nos refere António Santos, há que estar muito atento às oportunidades que surgem em mercados emergentes mais complexos, nomeadamente a Rússia, a Índia e a China, onde é necessário um investimento e persistência razoáveis, até que "a cara seja conhecida".


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